Um mestre japonês me apresentou sua melhor amiga e, para demonstrar o quanto eram unidos, disse que um iria ao enterro do outro.
Esta foi a forma encontrada para dizer que seriam
amigos para o resto da vida. As mensagens deixadas pelos mestres chineses, nas
inúmeras passagens edificantes e irritantes que inundam as redes sociais, ainda
que na maioria das vezes inventadas, são mais poéticas e leves do que a dos
japoneses.
Tenho uma amiga que
pretendo trazê-la comigo para sempre. Ela me faz bem, me alegra, me compreende,
ou não, e me aguenta, com a paciência que só se espera dos amigos. A Bel, minha
mulher, também me faz bem, me alegra, me compreende, às vezes, e me aguenta,
talvez sem a mesma paciência, o que é natural.
Minha amiga não
pensa igual a mim. Ela é mulher e eu sou homem. Ela é de peixes e eu de virgem.
Ela é prática e eu dou uma volta enorme para chegar aonde quero. Mas, no que
combinamos, a coisa é pra valer. E aí as coisas são de uma intensidade maluca.
Gostamos de almoçar
juntos, então almoçamos juntos todos os dias. Nossos trabalhos são muito
próximos. Gostamos de livrarias, então já aproveitamos e almoçamos na livraria.
Gostamos de canetas-tinteiro, e aí compramos canetas-tinteiro como quem compra
chicletes, que, aliás, gostamos também.
Gostamos de vinho, e
também não gostamos de parar. Quando é para beber, por precaução, não vamos
sozinhos. Cada um leva quem lhe atura (eu levo a Bel), e aí vamos conseguir
chegar em casa. Cada um na sua.
Minha amiga é
bonita, muito bonita, e chama a atenção de todo mundo. Até nisso temos afinidade.
Não que eu seja bonito, não sou, mas minha mulher é, e muito. Então já me
acostumei a ver pessoas olhando de rabo de olho. Ou de olho no rabo.
Quando viajo, sinto
saudade da minha amiga, mas quando ela viaja sinto mais. Ela disse que também
sente o mesmo. Por que sentimos mais quando estamos em nosso lugar? Talvez por
falta de novidades para nos distrair. Deve ser isso.
Sempre que estiver
com saudade, e não estiver viajando, vou mudar de hábitos. Quem sabe assim
sinto menos? Posso ir para o trabalho a pé, ou por um caminho errado. Posso
comer o que não gosto, vestir agasalho no calor e roupa leve no frio. Andar com
gente chata. Sei não. Pensando bem, saudade não é tão ruim assim. Dá para
aguentar um pouco, até porque saudade faz lembrar, e lembrar é uma forma de ter
por perto.
Minha amiga me dá
conselhos, e pede os meus. Eu escuto os dela e acho que ela escuta os meus, mas
escutamos sempre o que outro tem a dizer. É bom ouvir quem a gente gosta.
Não sei se é fácil
definir o que é amizade, da mesma forma como é difícil definir o amor e a dor.
Sentimento não é para ser definido, mas para ser sentido. Talvez nominado.
Quando alguém me perguntar o que é amizade, acho que vou responder com um nome.
Vou dizer Fran.
Rio, fevereiro de 2018