Tenho
um relógio biológico diferente. As pessoas reclamam de desconfortos próprios da
idade, dor nas costas, nas pernas, tonteira e mal estar. Estou acordado, em
plena terça-feira de Carnaval, desde muito cedo, sem sentir absolutamente nada.
Não
me iludo, porém, de que este não seja um sintoma do avanço inabalável
do tempo. Se não sinto nada, é porque nada fiz na véspera, e, se nada fiz, é
porque não tenho mais tanto ânimo para Carnaval, embora seja uma das datas que
mais gosto.
Quem,
no derradeiro dia da comemoração de Momo, poderia estar assim tão inteiro, se
tivesse sucumbido às inúmeras, e imperdíveis, tentações que se apresentam em
cada esquina, em cada decote suado, em cada sorriso franco, nas bochechas
brilhantes e nos corpos que serpenteiam, buscando acompanhar ritmos e letras
inaudíveis, do distorcido equipamento de som dos blocos de rua?
Não
seria possível lembrar de tudo o que aconteceu na véspera, se a noite tivesse
se apresentado com todas suas armas, se me deixasse capturar por índias de
tribos desconhecidas, fadinhas com encantos não revelados, abelhas mais doces
do que o próprio mel e falsas negras malucas, que o calor já transformou em
mulatas e, em pouco tempo, devolve-lhes a brancura. Por sorte, existem muitas que não são nem malucas e nem perdem a cor.
Carnaval
é Carnaval. Se não for para entrar na folia, também não é para se fazer de
folião com o rosto grudado na tela da TV. Isso não é alegria. Está mais para
depressão do que para animação. A gente só se diverte quando está feliz por
inteiro. Não é identificando globais ou famosos efêmeros de um reality show que
faremos parte da festa.
Não
olho com saudade carnavais passados e nem procuro advinhar carnavais futuros, mas
esse eu quis passar assim, lendo, escrevendo, namorando e pensando que a vida
oferece muita coisa que não precisa de data certa para acontecer. Nem tudo é tão santo. Também comi e bebi, se
não de forma exagerada, bem mais do que a nutricionista me recomenda.
Dos
meus ritos de passagem, se é que existe mais de um, o Carnaval foi marcante, talvez por inusitado
que tenha sido. Ao atingir a idade permitida para os bailes noturnos, que hoje
são raros, peguei uma hepatite cavalar, por conta de uma torneio bobo,
inventado por mim, de permanência em um bueiro. Com vela, gibis e cigarros, permaneci
convivendo com ratos e baratas por mais de duas horas, ganhando de prêmio dois
meses de repouso absoluto, em plenas férias de verão e no que seria meu
primeiro Carnaval pra valer.
Forçosamente,
ouvia uma ou outra coisa pela televisão, já que meu pai, se não era surdo, se
passava por tal. Não havia um canto onde não ecoassem propagandas de cigarro,
de bebidas, de fanfarronices do governo militar e, naqueles dias, muito de
carnaval.,
Nada
porém que o tempo não resolva. No ano seguinte, contava nos dedos os dias para
a chegada do carnaval. Já me imaginava reinando no salão, com um copo em uma
das mãos e um cigarro na outra. Seria influência da televisão? Creio que não. Se fosse assim, estaria também
fardado e dizendo “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Fumar e beber eram parte do rito de passagem.
Chegou
o Carnaval, mas parece que não para mim. Minha família cismou de viajar
justamente no que seria meu primeiro carnaval. Não podia crer naquilo. Era um
complô, uma brincadeira de mau gosto, ou seria verdade mesmo? Era verdade.
Se
fosse para uma cidade de praia, com tradição em carnaval, ainda assim iria
emburrado. De que adianta passar carnaval onde não conhecesse ninguém? Ia me
sentir como um menino de rua no fliperama, vendo os outros se divertindo e sem
poder encostar a mão nas máquinas.
Mas
era pior. Iríamos para o interior, em uma cidade pequena e enfiada no meio do
mato. Na infância era meu sonho de consumo, mas não agora. Minas para mim já
fazia parte do passado afetivo. Uma ou
outra ida rápida, vá lá, e desde que não fosse no carnaval. Mas naquele ano parece que os
astros tramavam uma estranha conjugação. E contra mim.
Chegamos
um ou dois dias antes, sei lá, e meu
pai, provavelmente querendo se redimir, arrumou um jeito de me empurrar para os
bailes de carnaval do único clube da cidade. Aquilo não era bem um clube, mas
uma associação comercial. Um prédio bem feio, em formato de caixote e que as
pessoas chamavam de panela de pressão. Mais tarde vim a saber o porquê.
Não
sei se por causa da hepatite do ano anterior, mas a mesma letargia que fez com
que não reagisse à viagem, me deixou ser levado, não me lembro por quem, ao
carnaval que, diziam, seria inesquecível. E foi.
Um
lugar lotado até o teto, quente e com música altíssima. Ali entendi a panela de
pressão. Com a curiosidade natural dos mineiros, respondi algumas dezenas de
vezes quem era e de quem era parente. Aos poucos fui me sentindo em casa e, mais relaxado, acho que
estava até me sentindo feliz. Talvez pela inesperada e injustificada popularidade.
O
que posso dizer daquele carnaval? Foram noites mágicas, de mulheres lindas, com
sotaque cativante, beijos inesquecíveis de hortelã e laços que nunca mais se desfariam.
Por muitos anos nunca mais concebi carnaval que não fosse lá.
A
quarta feira de cinzas trouxe bem mais do que a quaresma. Trouxe a
identificação com a espontaneidade de uma alegria sincera, para mim bem mais
autêntica do que os próprios desfiles de escolas de samba que conhecia pela
televisão.
Em
Minas o carnaval não era para os outros, mas para quem estava ali, participando
e feliz. Feliz porque participava, e não para mostrar que estava feliz.
As
fantasias eram criadas com espontaneidade e praticidade. Minha tia tem loja de tecidos e, à noite, me espantava com odaliscas e colombinas vestidas
com cortes vendidos naquele mesmo dia.
Sei
que esperar pela festa é melhor do que a festa, mas não no exagero que vejo na
minha filha, para não buscar exemplo mais longe. Se recebe um convite para uma
formatura, daqui a dois meses, é tomada por uma ansiedade inexplicável, em
busca de uma roupa e de enfeites que talvez nem sejam assim tão notados. Ela já
é bonita o suficiente para não precisar de tanto.
Em
Passa Quatro, a fantasia é feita no mesmo dia. Talvez algo mais elaborado seja
na véspera. Para mim, uma camiseta e uma faixa na cabeça foram o suficiente
para não fazer feio.
Aquele
carnaval nunca mais me deixou. Fiquei com a música “pega no ganzê pega no
ganzá” por muito tempo nos ouvidos, mas não foi isso que me marcou. Encontrei
raízes distante de onde vivia, e se hoje não vivo de saudades é porque trago
para o presente pedaços do que vivi naqueles tempos, e que para sempre viverão
em mim.
Mas
não acabou. Hoje ainda é Carnaval, e nos próximos anos tem mais. Se fosse um
carnavalesco, não contaria o que penso para o próximo desfile da minha escola
de samba. Então não vou dizer qual será
meu próximo enredo.
A
vida, como o Carnaval, brilha mais quando surpreende.
* Escrito no carnaval de 2018, com lembrança viva do
meu primeiro carnaval.
Rio, fevereiro de 2018
Rio, fevereiro de 2018