quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Mãe

Me propus a publicar uma crônica, um conto, um ensaio, uma provocação, enfim, alguma coisa todos os dias de 2021, no meu blog.  É claro que um compromisso assim às vezes preocupa. Nem sempre estou com alguma ideia na cabeça. Aliás, isso não é o problema. Sempre estou pensando em algo diferente e provocativo. O que nem sempre estou é com vontade de transformar em texto publicável. O mínimo de consideração com quem me lê  preciso ter.


Hoje, domingo ensolarado, com possibilidade nenhuma de ir à praia. Como diz uma amiga italiana, não matei ninguém, para merecer tamanho castigo, mas,  quem nasce com espírito de indigenista, acaba achando um programa de índio para fazer, e, hoje, com quarenta graus e sol a pino, resolvi ir à feira da Glória, com duas cadelas endiabradas, para comer um ceviche legitimamente peruano, incluindo a descida e a subida para Santa Teresa. É claro que tive que tomar algumas cervejas para não morrer de insolação.

Bem, o resultado é que estou um lixo de criatividade. Por sorte, porém, reli minha determinação de começo de ano e reparei que falo em publicar, o que não necessariamente implica em ser algo de minha autoria. Também não vou ser tão canalha a ponto de copiar algo não tenha nada a ver comigo. Remexendo alguns papéis, que guardo tanto na gaveta quanto no coração, 

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Metrô

O título seria Axila, mas como Rubem Fonseca já tem um livro chamado Axilas e Outras Histórias Indecorosas, achei melhor não plagiar, o que nao deixa de ser uma presunção sem tamanho. Rubem Fonseca jamais saberia que escrevi algo assim e, portanto, não iria me acusar de nada. Ainda que soubesse, nada ameaça a obra do talentoso e mal-humorado escritor. Mas todo cuidado é pouco, afinal o homem é ex-policial e tem uma predileção para escrever contos de assassinatos cruéis, quase sempre por motivos fúteis.  

A intenção não é falar do metrô, mas é ali onde começo o dia vendo axilas, ainda que não tenha nenhuma tara por elas. Ao contrário, elas que parecem me perseguir. Em uma cidade quente como o Rio, onde o inverno é só um nome de referência para a época do ano, é comum que as mulheres dispensem mangas de vestidos e blusas, deixando à mostra parte do corpo que diz mais a respeito do cuidado pessoal do que outros nacos que o calor exige que sejam exibidos.

Não se pode dizer que a mulher seja descuidada porque tem bunda ou peitos caidos. A lei da gravidade é implacável e talvez até pior para os homens, que não tem como manter indefinidamente escondido o que caiu.

O metrô não tem assentos disponíveis para todos, e foi-se o tempo em que homens cediam seus lugares para as mulheres, talvez nos bondes, quando não se via tantas mulheres circulando pelas ruas e muito menos indo para o trabalho. A mulher de hoje viaja de pé e pendurada nas alças presas ao teto dos trens, expondo o sovaco, em sua maioria cuidadosamente depilados,  aos demais passageiros.

Como a falta de comodidade nem sempre permite ler, já que com uma mão no livro e outra na alça falta uma terceira para passar as páginas, há algum tempo me distraio tentando decifrar o que se econde por trás da axilas escancaradas nas manhãs subterrâneas. A luz fluorescente dos trens e a proximidade obrigatória entre os passageiros permite exame minucioso sem que eu seja espancado como tarado.  

Pessoas que observam detalhes são mais mal vistas do que aqueles que olham o todo. Pedreiros são odiados porque demonstram só estar interessados na bunda, tanto que só assobiam depois que a mulher já passou. Enquanto estão de frente, ficam intimidados. Para os admiradores de pés a vida é mais fácil. Basta andar cabisbaixo para ter a visão confortável do objeto de desejo, e ainda despertam pena por parecerem deprimidos.  

O sovaco muito liso, com a mesma cor do resto do corpo, sem nenhum pelo à mostra e inacreditávelmente seco demonstra foi depilado por algum método caro e sofrido, além de receber esmerado tratamento posterior, para que não fique irritado. Quem se daria a tanto trabalho, provavelmente diário, se não tivesse uma imagem a preservar? Advogadas, financistas? Terapeutas, talvez, mas da nova geração. As freudianas clássicas já estão mais passadas e não ligam muito para a aparência, além de já terem ganhado o suficiente para dispensar o metrô.

Sovacos esverdeados denunciam que foram tosados pelo barbeador, mesmo que sejam aqueles  cor-de-rosa fabricados para as mulheres, mas que fazem o mesmo estrago dos masculinos.  A vantagem é que a tosa pode ser feita no banho, economizando tempo. Imagino ser o método preferido de corretoras de imóveis, que marcam visitas muito cedo, para ganhar da concorrência. Hoje, os proprietários de imóveis anunciam em mais de uma imbiliária, fomentando a autofagia da classe.

Há algumas décadas, a mulher demonstrava sua libertação através de símbolos nem sempre compreensíveis, como a queima de sutiãs em praça pública. Se nunca mais tivessem usado o acessório, até dava para entender, mas o sutiã é vendido cada vez mais e virou artigo de luxo. Hoje, ninguém botaria fogo em um sutiã da Victoria`s Secret. É mais provável que queimasse o marido.

Em Veneza há um pub que inovou na decoração, com centenas de sutiãs pendurados no teto. A mulher que deixar  o seu ali ganha um drinque, com a vantagem de que a escuridão não permite avaliar o estado nem a marca. Vale guardar os que estavam selecionados para o lixo e fazer o escambo no bar.

Outra forma de enfrentar a submissão foi deixar crescer os pelos do sovaco.  Houve quem achasse bonito e até sexy, o que fez com que a idéia fosse abandonada, já que a atração não estava no contexto da rebeldia. O sovaco peludo deveria chocar a sociedade, demonstrar igualdade e selecionar os homens de mente aberta, que não demonstrassem  repulsa ao matagal, mas quando virou fetiche perdeu o sentido, ou melhor, inverteu o sentido.

Hoje há mais homens que raspam debaixo do braço do que mulheres que não o fazem. Quando questionados, e deve ter gente com falta de assunto para pesquisar isso, respondem que os nadadores raspam todo o corpo para melhor desempenho nas competições. Tudo bem, mas essa resposta só vale se o cara for nadador.

A natureza pode ser sábia, mas talvez não tão coerente. Se pelos nas axilas fossem tão necessários os índios os teriam, mas o sovaco deles é  liso como uma casca de ovo. Já li que índio não tem pelo para não atrapalhar a caminhada pelo mato, o que seria razoável desde que o urso também nascesse pelado.

Quando criança, folheei uma enciclopédia no escritório do meu avô e, com a curiosidade de quem está com os hormônios despontando, encontrei um estudo sobre a vida sexual dos índios. Não me lembro dos detalhes e nem das tribos pesquisadas, mas havia a descrição de um rito de acasalamento, que devia ser o nome pomposo para o que chamamos de preliminares. Se a memória não me trai, parece que o índio puxava a índia pelos sovacos, não sei se pela frente ou por trás, pouco importa, já que o difícil é agarrar alguém pelo sovaco, ainda mais não tendo pelos.

Rio de Janeiro/RJ, 19 de janeiro de 2021

(primeira versão em julho/2019)

 

 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Pilates

 

Chega um dia em que a gente se cansa de ouvir que o sedentarismo faz mal e devíamos procurar uma atividade física. Nada de exageros, alertam os médicos após fazer uma rápida avaliação de nosso estado geral. Para mim, isso soa mais como uma forma delicada de dizer que não aguentaremos muita coisa.

 

As sugestões confirmam a suspeita: uma caminhada leve e pilates. Pronto! Se nem bicicleta, que é um exercício suave, foi recomendado, é porque o tal de pilates deve ser uma moleza danada. A caminhada não conta, ainda mais sendo leve, porque é assim que me desloco de um lugar para o outro desde que decidi não ter mais carro.

 

Então, mais para desencargo de consciência do que qualquer outra coisa, assisto a uma aula experimental e faço a matrícula. Tem que ser assim, de pronto, para não correr o risco de desistir. Sei muito bem o que representa a expressão “vou pensar e depois decido”. Isso é quase um adeus.

 

Com a empolgação de todo sedentário que decide ter uma vida mais saudável, corro para a loja de esportes e saio de lá como um pentatleta. Camiseta de tecido antitranspirante, calção de malha importada

domingo, 17 de janeiro de 2021

Couvert Artístico

Couvert é uma expressão francesa que significa cachê, ou seja, o acréscimo sobre a conta referente ao que se consumiu no restaurante. Geralmente, este couvert abrange serviços acessórios, tais como, guardanapos de pano, pedacinhos de pão, pastas e patês, azeitonas, geléias, enfim, tudo aquilo que possa valorizar o momento vivido, quando se esperava, apenas, uma refeição correta e drinques de qualidade aceitável. Tendo, então, o couvert deixado esta experiência inesquecível, não há quem reclame em desembolsar um pouco mais do que a gorjeta convencional, geralmente estipulada em dez por cento. Ultimamente, alguns estabelecimentos cismaram de estabelecer o percentual de doze por cento, sabe-se lá porque. Em bares, o número não é bem vindo, pois remete aos doze passos da técnica utilizada pelos alcoólicos anônimos, para que o vício da bebida seja abandonado de vez.


Há uns anos, fiz terapia com uma psicóloga encantadora. Pessoa simpática e inteligente. Entendia tudo o que eu estava sentindo, ou melhor, quase tudo. Nossas sessões aconteciam em sua casa e o cachorro era convidado a se retirar do recinto. Cachorro, hoje tenho dois e posso afirmar, não é bicho que entenda de conveniência terapêutica. Tão logo me animava a abrir meu coração, o pulguento começava a uivar e arranhar a porta. Por sorte, abrir o coração não trazia nada de relevante para a terapia, pois meus podres escondo na alma, e esta nem sei onde se esconde. De qualquer jeito, passava o resto da sessão imaginando como conseguiria calar aquele maldito na próxima semana. A terapeuta insistia que devíamos fazer duas sessões semanais. Por dentro eu pensava que podíamos enforcar aquele vira-latas metido a yorkshire. Aí, sim, faria até sessões diárias, sem me preocupar com aquela estopa escandalosa.


Por que mesmo falei da terapeuta? Lembrei. Ela tratava de alcoólatras e drogados, e sabia de cor o método dos doze passos. Como bebo desde os quinze anos, sempre tive pavor de que alguma coisa me fizesse mudar de ideia. Recentemente, li que Fabio Assunção continua frequentando baladas, mas bebendo apenas água. Confesso que tive pena. Que graça tem ouvir conversa de bêbado estando careta? Mesmo tonto, não tenho paciência para algumas pessoas em estado alterado, o que dirá, então, escutar alguém terrivelmente ébrio e eu limpo como um querubim. Dai cismei que o número doze não combina com bar. Principalmente se for para gorjeta.


Hoje, resolvemos passear com as cachorras e paramos no bar de uma amiga. Estava com tanto calor que não reparei na presença incômoda de um músico na porta, com banquinho, violão, amplificador e caixa de som vagabunda, ou seja, armado com o kit aporrinhação completo. O cara tinha bom repertório. Beto Guedes, Milton, Fagner, Belchior, Lulu Santos, dentre outros. Tenho uma restrição com Lulu Santos, desde que ele assumiu seu casamento com Clebson. Nada contra a relação com alguém do mesmo gênero, mas, tinha que ser Clebson? Tenho amigos casados com André, Ricardo, Rafael, Wanderley e até com Marcio Greick, mas com Clebson nenhum. Fico imaginando Lulu Santos contando para sua mãe que ia se casar com um homem. Dona Lulina deve ter falado que nunca acreditou naquele casamento com alguém chamada Scarlet Moon. Completou dizendo que esperava que agora fosse feliz, o que não durou até ele dizer que o companheiro se chamava Clebson. Nenhuma mãe merece isso. Os cartórios deveriam ser proibidos de registrar tais miscelâneas.


Mas isso não tem nada a ver com a aberração que veio hoje para estragar as músicas escolhidas para tocar. O repertório, como já disse, era razoável, mas penso que o músico deve conhecer o mínimo sobre o autor, o intérprete ou sobre a época em que a música foi feita. O cara cantava Feira Moderna como se referisse à feira da Glória. Tocava Como Uma Onda pensando na bebedeira de ontem à noite. Tinha boa vontade, mas não tinha voz, conhecimento musical, equipamento e bom senso. Como ninguém prestava atenção, aumentava o volume do amplificador até que a bendita instalação elétrica do bar desse pane e acabasse com a barulheira. Foi o bastante para pedirmos a conta e dar no pé. Continuo a beber em casa, com latido e sossego para escrever. É o que estou fazendo agora.


Não sei se entro em mais algum bar com música ao vivo. Soube que há músicos especializados em velórios. Geralmente, é apenas um violinista, mas acho muito esquisito. A Indonésia, país execrável, executou dois brasileiros por tráfico de drogas, mesmo sendo o país mais corrupto do mundo, onde os policiais traficam drogas nas penitenciárias, inclusive para os condenados à morte. O segundo executado, Rodrigo, foi enterrado no Paraná e o cortejo foi acompanhado por um violonista. Até que tocava bem, e assisti com certa comoção.


Se até um conterrâneo, covardemente fuzilado em um país de merda, teve direito a música decente, por que sou obrigado a passar por tamanho suplício?


Rio de Janeiro/RJ,  17 de janeiro de 2021



sábado, 16 de janeiro de 2021

Capitólio

Há pouco mais de uma semana, poucos brasileiros sabiam que Capitólio é a sede do legislativo estadunidense. Antes que me critiquem por pedantismo, porque não usei a expressão americano, que é como nos acostumamos a chamar os cidadãos dos Estados Unidos, estou apenas exercitando minha identificação com os irmãos da América Latina, que também usam o termo estadunidense. Chamar os vizinhos do norte de americanos é descaracterizar nossa própria existência. Se apenas eles são americanos, o que somos nós?


Quando as primeiras notícias do dia seis de janeiro deram conta de que havia confusão no Capitólio, inclusive com mortes, o desespero tomou conta dos parentes de quem estava passeando lá pelas bandas da Serra da Canastra, na mais recente coqueluche do turismo mineiro, também chamada de Capitólio. Minas Gerais tem mais afinidade com os Estados Unidos do que o Bolsonaro, que faz continência para a bandeira deles. Minas tem Governador Valadares, o maior polo exportador de motoristas de limousines e baby sitters do Brasil, tendo os Estados Unidos como o principal parceiro comercial.


A praia de Minas, que é como nossa Capitólio é conhecida, recebe um bocado de gente, principalmente no verão. Na falta de hotéis, transformaram escolas, lojas e casas de família em pousadas. Pousada é aquele estabelecimento que não segue as regras rígidas do hotéis. Pousada sem banheiro no quarto anuncia que é a experiência de se sentir em uma típica casa mineira. Se não tem café da manhã diz que é a oportunidade para provar as delícias das padarias mineiras. Se não dá desconto na baixa temporada é para conhecer a pãodurice do mineiro, que anda com um escorpião no bolso para não precisar enfiar a mão. Isso é para pousada, mas, quando não tem nem isso, é só mudar o nome para hostel.


Capitólio pode ser toda essa bagunça, mas por uma boa razão. Quem encara a aventura encontra natureza encantadora e o carinho do povo mineiro. Não vai se arrepender. Agora, quem foi ao Capitólio, sede do legislativo dos Estados Unidos da América, assistir  a homologação de Joe Biden como novo presidente da república, quebrou a cara, literalmente, porque a porrada correu solta por lá. Quem imaginaria que a consagração do momento sublime da democracia fosse sabotada por ordem de quem chegou ao poder graças a ela.


O Capitólio estadunidense existe há mais de duzentos anos, possui simbologia maçônica e representa a vontade soberana do povo. Aquí, temos o prédio do Congresso Nacional, com sessenta anos e as linhas disruptivas de Oscar Niemeyer. Não tem nada a ver com a maçonaria, mas os bodes já influenciaram em muito do que ali foi discutido.


Temos uma democracia capenga, que se reconstrói a cada espaço de tempo, tateando como um bebê inseguro, com receio de caminhar. Quando pensamos que as coisas engrenaram, temos manifestações ditas populares, manipuladas por grupelhos de péssimas intenções, golpe parlamentar, eleições influenciadas por mentiras espalhadas nas redes sociais, através de empresas especializadas em ações ilegais. 


Quando buscamos a paz social, elegemos maníacos que insuflam a discórdia agressiva entre brasileiros. Quem bate no peito para gritar o lema da bandeira “Ordem e Progresso”,  desconhece que, como nos inspiramos de forma abreviada, na frase do filósofo francês Auguste Comte: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”, nosso lema deveria ser “Amor, Ordem e Progresso”. 


Como deturpam o sentido de Ordem e de Progresso, difícil seria fazer entender o sentido de Amor.



Rio de Janeiro/RJ, 16 de janeiro de 2021.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Biografia

Há uns dois dias, li a respeito de um escritor nórdico que escreveu o quinto volume de sua autobiografia. A incerteza dos dados se debe ao fato de que não estou localizando a reportagem, o que vou continuar buscando. Não se trataria de fato tão inusitado fosse o autor alguém com notoriedade que resolvesse compartilhar experiências de vida com seu público. Ocorre que, antes de publicar sua biografia, o escritor era um liustre desconhecido e sua fama veio com a divulgação de sua história. Não possui também uma saga tão extraordinária, mas, sim, capacidade incomum de cativar os leitores.

Me pergunto o que leva alguém a escrever sua própria história com a convicção de que será um best seller. Certamente, tinha confiança em sua capacidade de descrever uma vida comum, com tamanha destreza, que o interesse vem mais por seu estilo. Não é algo tão incomum. Alguns escritores despontaram no mercado editorial a partir de sua biografia, ou de parte dela.
José Mauro de Vasconcelos se tornou ume celebridade com seu delicioso romance autobiográfico “Meu Pé de Laranja Lima”, guindado à categoria dos clássicos nacionais. Lágrimas escorreram sobre as faces dos futuros leitores de Rosinha Minha Canoa, Arara Vermelha, Arraia de Fogo e mais uma vigorosa quantidade de romances. Quis o universo que sua existência fosse breve, talvez por isso tenha tido essa explosão de criatividade. Não haveria tempo a perder.
Tenho lido muitas biografias e consigo citar as últimas. Ao terminar a de Marighela, emendo na da Agatha Christie e em seguida na do Woody Allen, que ganhei hoje. Não dá para acreditar em Sérgio Moro, quando, no programa do Bial, perguntado se lia, respondeu que sim e que sua preferência era por biografia. Quando o entrevistador perguntou quais ele tinha lido, o cara de pau respondeu que tem a memória muito ruim e não se lembrava. Mesmo com a insistência de que bastava citar um, ele se recusou e disse que a memória é muito ruim mesmo. Não se lembrava de absolutamente nenhum livro. Esse cara é muito estranho. Tirou o processo do Lula do fim da pilha e julgou a toque de caixa. Botou o cara na cadeia e deu uma facilitada para o Bolsonaro ganhar a eleição. Virou ministro e pediu uma pensão especial para a família, caso viesse a morrer por conta do cargo. Foi tratado como estafeta de chefe tirano e, mesmo ganhando ingresso para ver jogo do Flamengo, com a camiseta por cima da camisa social, decidiu abandonar o barco. Depois, faturou um empregaço, uma sinecura, ganhando uma baba para ajudar na recuperação da Odebrecht e outras empresas que a Lava Jato quebrou, quando podia ter punido apenas os dirigentes. Sei não, acho que um sujeito que vive de expedientes não tem tempo para ler nada. Fica só maquinando o que vai armar para se dar bem. O cara é tão estúpido que podia ter dito que leu a biografia do Roberto Marinho, escrita pelo Pedro Bial, em um surto de puxasaquismo. A entrevista foi uma merda, mas eles se merecem. Não teria vergonha de dizer que assisti, mas não assiti mesmo. Só vi o trecho da memória de peixe.
Já li alguns livros do Paulo Coelho, mas ainda achava mais interessante as músicas que ele fez com Raul Seixas. Mas, melhor ainda, é a biografia dele – O Mago – que comprei por dois reais em uma barraquinha de rua. Aqulo não é vida, é delírio. Fico pensando como alguém sobrevive a tanta bagunça. E o cara sobreviveu, é conhecido no mundo inteiro, ficou milionário e tem a vida que muitos querem e poucos têm. Algumas biografias podiam ser livros de auto-ajuda. A dele é uma.
Li a biografia do Papa emérito Bento XVI. É o tipo de leitura que a gente começa já tendo spoiler, mas, mesmo se não tivesse, dava pra perceber que ele ia acabar virando papa, mesmo que só para dizer que chegou lá e depois encheu o saco. Gostei. Sério que gostei. Só achei que pela idade dele o livro poderia ter mais páginas. Gosto de biografias em tijolaços. Até a do Justin Bieber era maior. Acho que o papa pulou algumas partes, sabe-se lá porque. Na dúvida, prefiro achar que eram repetitivas, como devem ser os dias dos religiosos.
Biografia não precisa ser necessariamente séria. Dom Pedro I fez e aconteceu. Comeu um monte de gente, brigou com o pai publicamente e virou imperador, compôs o hino da independência, voltou para Portugal e virou Pedro IV, morreu novo com sífilis e mais um monte de doenças próprias de quem leva uma vida desregrada. A única biografia que li dele foi “As maluquices do imperador”,  de Paulo Setúbal. Dá pra rir até rachar.
Já ganhei algumas biografias de fundadores de empresas que visitei a trabalho. Achei elegante o gesto, com o biografado e comigo, mas não cheguei a ler tudo. Não deixei de lado, o que seria desconsideração, mas li trechos pinçados. Aprendi que todo mundo tem fatos interessantes em sua vida. Talvez até eu tenha, mas deixo que os outros descubram.
Sendo ateu, ainda assim me interessa saber como viveram os santos e li a Legenda Áurea. Recomendo e não entendo como pessoas tão beatas não tem interesse nisso. Os santos morriam quase sempre de forma trágica. Creio que era um símbolo de status. Dentada de leão no Coliseu, lança de romano e fogueira eram passaportes para a santidade. Morte morrida não dava prestígio, a não ser que o corpo fosse levado para os céus, por anjos bochechudos, de camisolinha e jogando pétalas de rosas.
Já pensei em escrever sobre minha vida, mas não sei se alguém ia querer ler. Aliás, sei sim. Minha filha e minha mulher vão querer. Mas vou escrever tudo, porque se escrever só as coisas boas vai ser um cordel. Mentira que acho isso, falei só para parecer humilde, mas não sou não. 
E você, o que acha da sua vida? Escreva sua biografia e você se conhecerá.

Rio de Janeiro/RJ, 15 de janeiro de 2021