quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Mãe
terça-feira, 19 de janeiro de 2021
Metrô
O título seria Axila, mas como Rubem Fonseca já tem um livro chamado Axilas e Outras Histórias Indecorosas, achei melhor não plagiar, o que nao deixa de ser uma presunção sem tamanho. Rubem Fonseca jamais saberia que escrevi algo assim e, portanto, não iria me acusar de nada. Ainda que soubesse, nada ameaça a obra do talentoso e mal-humorado escritor. Mas todo cuidado é pouco, afinal o homem é ex-policial e tem uma predileção para escrever contos de assassinatos cruéis, quase sempre por motivos fúteis.
A intenção não é falar do metrô, mas é ali onde começo o dia
vendo axilas, ainda que não tenha nenhuma tara por elas. Ao contrário, elas que
parecem me perseguir. Em uma cidade quente como o Rio, onde o inverno é só um
nome de referência para a época do ano, é comum que as mulheres dispensem
mangas de vestidos e blusas, deixando à mostra parte do corpo que diz mais a
respeito do cuidado pessoal do que outros nacos que o calor exige que sejam
exibidos.
Não se pode dizer que a mulher seja descuidada porque tem
bunda ou peitos caidos. A lei da gravidade é implacável e talvez até pior para
os homens, que não tem como manter indefinidamente escondido o que caiu.
O metrô não tem assentos disponíveis para todos, e foi-se o
tempo em que homens cediam seus lugares para as mulheres, talvez nos bondes,
quando não se via tantas mulheres circulando pelas ruas e muito menos indo para
o trabalho. A mulher de hoje viaja de pé e pendurada nas alças presas ao teto
dos trens, expondo o sovaco, em sua maioria cuidadosamente depilados, aos demais passageiros.
Como a falta de comodidade nem sempre permite ler, já que com
uma mão no livro e outra na alça falta uma terceira para passar as páginas, há
algum tempo me distraio tentando decifrar o que se econde por trás da axilas escancaradas
nas manhãs subterrâneas. A luz fluorescente dos trens e a proximidade
obrigatória entre os passageiros permite exame minucioso sem que eu seja
espancado como tarado.
Pessoas que observam detalhes são mais mal vistas do que
aqueles que olham o todo. Pedreiros são odiados porque demonstram só estar
interessados na bunda, tanto que só assobiam depois que a mulher já passou.
Enquanto estão de frente, ficam intimidados. Para os admiradores de pés a vida
é mais fácil. Basta andar cabisbaixo para ter a visão confortável do objeto de
desejo, e ainda despertam pena por parecerem deprimidos.
O sovaco muito liso, com a mesma cor do resto do corpo, sem
nenhum pelo à mostra e inacreditávelmente seco demonstra foi depilado por algum
método caro e sofrido, além de receber esmerado tratamento posterior, para que
não fique irritado. Quem se daria a tanto trabalho, provavelmente diário, se
não tivesse uma imagem a preservar? Advogadas, financistas? Terapeutas, talvez,
mas da nova geração. As freudianas clássicas já estão mais passadas e não ligam
muito para a aparência, além de já terem ganhado o suficiente para dispensar o
metrô.
Sovacos esverdeados denunciam que foram tosados pelo
barbeador, mesmo que sejam aqueles
cor-de-rosa fabricados para as mulheres, mas que fazem o mesmo estrago
dos masculinos. A vantagem é que a tosa
pode ser feita no banho, economizando tempo. Imagino ser o método preferido de
corretoras de imóveis, que marcam visitas muito cedo, para ganhar da
concorrência. Hoje, os proprietários de imóveis anunciam em mais de uma
imbiliária, fomentando a autofagia da classe.
Há algumas décadas, a mulher demonstrava sua libertação
através de símbolos nem sempre compreensíveis, como a queima de sutiãs em praça
pública. Se nunca mais tivessem usado o acessório, até dava para entender, mas
o sutiã é vendido cada vez mais e virou artigo de luxo. Hoje, ninguém botaria
fogo em um sutiã da Victoria`s Secret. É mais provável que queimasse o marido.
Em Veneza há um pub que inovou na decoração, com centenas de sutiãs
pendurados no teto. A mulher que deixar
o seu ali ganha um drinque, com a vantagem de que a escuridão não
permite avaliar o estado nem a marca. Vale guardar os que estavam selecionados
para o lixo e fazer o escambo no bar.
Outra forma de enfrentar a submissão foi deixar crescer os
pelos do sovaco. Houve quem achasse
bonito e até sexy, o que fez com que a idéia fosse abandonada, já que a atração
não estava no contexto da rebeldia. O sovaco peludo deveria chocar a sociedade,
demonstrar igualdade e selecionar os homens de mente aberta, que não
demonstrassem repulsa ao matagal, mas
quando virou fetiche perdeu o sentido, ou melhor, inverteu o sentido.
Hoje há mais homens que raspam debaixo do braço do que
mulheres que não o fazem. Quando questionados, e deve ter gente com falta de
assunto para pesquisar isso, respondem que os nadadores raspam todo o corpo
para melhor desempenho nas competições. Tudo bem, mas essa resposta só vale se
o cara for nadador.
A natureza pode ser sábia, mas talvez não tão coerente. Se
pelos nas axilas fossem tão necessários os índios os teriam, mas o sovaco deles
é liso como uma casca de ovo. Já li que
índio não tem pelo para não atrapalhar a caminhada pelo mato, o que seria
razoável desde que o urso também nascesse pelado.
Quando criança, folheei uma enciclopédia no escritório do meu
avô e, com a curiosidade de quem está com os hormônios despontando, encontrei
um estudo sobre a vida sexual dos índios. Não me lembro dos detalhes e nem das
tribos pesquisadas, mas havia a descrição de um rito de acasalamento, que devia
ser o nome pomposo para o que chamamos de preliminares. Se a memória não me
trai, parece que o índio puxava a índia pelos sovacos, não sei se pela frente
ou por trás, pouco importa, já que o difícil é agarrar alguém pelo sovaco,
ainda mais não tendo pelos.
Rio de Janeiro/RJ, 19 de janeiro de 2021
(primeira versão em julho/2019)
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
Pilates
Chega
um dia em que a gente se cansa de ouvir que o sedentarismo faz mal e devíamos
procurar uma atividade física. Nada de exageros, alertam os médicos após fazer
uma rápida avaliação de nosso estado geral. Para mim, isso soa mais como uma
forma delicada de dizer que não aguentaremos muita coisa.
As
sugestões confirmam a suspeita: uma caminhada leve e pilates. Pronto! Se nem
bicicleta, que é um exercício suave, foi recomendado, é porque o tal de pilates
deve ser uma moleza danada. A caminhada não conta, ainda mais sendo leve,
porque é assim que me desloco de um lugar para o outro desde que decidi não ter
mais carro.
Então,
mais para desencargo de consciência do que qualquer outra coisa, assisto a uma
aula experimental e faço a matrícula. Tem que ser assim, de pronto, para não
correr o risco de desistir. Sei muito bem o que representa a expressão “vou
pensar e depois decido”. Isso é quase um adeus.
Com
a empolgação de todo sedentário que decide ter uma vida mais saudável, corro
para a loja de esportes e saio de lá como um pentatleta. Camiseta de tecido
antitranspirante, calção de malha importada
domingo, 17 de janeiro de 2021
Couvert Artístico
Couvert é uma expressão francesa que significa cachê, ou seja, o acréscimo sobre a conta referente ao que se consumiu no restaurante. Geralmente, este couvert abrange serviços acessórios, tais como, guardanapos de pano, pedacinhos de pão, pastas e patês, azeitonas, geléias, enfim, tudo aquilo que possa valorizar o momento vivido, quando se esperava, apenas, uma refeição correta e drinques de qualidade aceitável. Tendo, então, o couvert deixado esta experiência inesquecível, não há quem reclame em desembolsar um pouco mais do que a gorjeta convencional, geralmente estipulada em dez por cento. Ultimamente, alguns estabelecimentos cismaram de estabelecer o percentual de doze por cento, sabe-se lá porque. Em bares, o número não é bem vindo, pois remete aos doze passos da técnica utilizada pelos alcoólicos anônimos, para que o vício da bebida seja abandonado de vez.
Há uns anos, fiz terapia com uma psicóloga encantadora. Pessoa simpática e inteligente. Entendia tudo o que eu estava sentindo, ou melhor, quase tudo. Nossas sessões aconteciam em sua casa e o cachorro era convidado a se retirar do recinto. Cachorro, hoje tenho dois e posso afirmar, não é bicho que entenda de conveniência terapêutica. Tão logo me animava a abrir meu coração, o pulguento começava a uivar e arranhar a porta. Por sorte, abrir o coração não trazia nada de relevante para a terapia, pois meus podres escondo na alma, e esta nem sei onde se esconde. De qualquer jeito, passava o resto da sessão imaginando como conseguiria calar aquele maldito na próxima semana. A terapeuta insistia que devíamos fazer duas sessões semanais. Por dentro eu pensava que podíamos enforcar aquele vira-latas metido a yorkshire. Aí, sim, faria até sessões diárias, sem me preocupar com aquela estopa escandalosa.
Por que mesmo falei da terapeuta? Lembrei. Ela tratava de alcoólatras e drogados, e sabia de cor o método dos doze passos. Como bebo desde os quinze anos, sempre tive pavor de que alguma coisa me fizesse mudar de ideia. Recentemente, li que Fabio Assunção continua frequentando baladas, mas bebendo apenas água. Confesso que tive pena. Que graça tem ouvir conversa de bêbado estando careta? Mesmo tonto, não tenho paciência para algumas pessoas em estado alterado, o que dirá, então, escutar alguém terrivelmente ébrio e eu limpo como um querubim. Dai cismei que o número doze não combina com bar. Principalmente se for para gorjeta.
Hoje, resolvemos passear com as cachorras e paramos no bar de uma amiga. Estava com tanto calor que não reparei na presença incômoda de um músico na porta, com banquinho, violão, amplificador e caixa de som vagabunda, ou seja, armado com o kit aporrinhação completo. O cara tinha bom repertório. Beto Guedes, Milton, Fagner, Belchior, Lulu Santos, dentre outros. Tenho uma restrição com Lulu Santos, desde que ele assumiu seu casamento com Clebson. Nada contra a relação com alguém do mesmo gênero, mas, tinha que ser Clebson? Tenho amigos casados com André, Ricardo, Rafael, Wanderley e até com Marcio Greick, mas com Clebson nenhum. Fico imaginando Lulu Santos contando para sua mãe que ia se casar com um homem. Dona Lulina deve ter falado que nunca acreditou naquele casamento com alguém chamada Scarlet Moon. Completou dizendo que esperava que agora fosse feliz, o que não durou até ele dizer que o companheiro se chamava Clebson. Nenhuma mãe merece isso. Os cartórios deveriam ser proibidos de registrar tais miscelâneas.
Mas isso não tem nada a ver com a aberração que veio hoje para estragar as músicas escolhidas para tocar. O repertório, como já disse, era razoável, mas penso que o músico deve conhecer o mínimo sobre o autor, o intérprete ou sobre a época em que a música foi feita. O cara cantava Feira Moderna como se referisse à feira da Glória. Tocava Como Uma Onda pensando na bebedeira de ontem à noite. Tinha boa vontade, mas não tinha voz, conhecimento musical, equipamento e bom senso. Como ninguém prestava atenção, aumentava o volume do amplificador até que a bendita instalação elétrica do bar desse pane e acabasse com a barulheira. Foi o bastante para pedirmos a conta e dar no pé. Continuo a beber em casa, com latido e sossego para escrever. É o que estou fazendo agora.
Não sei se entro em mais algum bar com música ao vivo. Soube que há músicos especializados em velórios. Geralmente, é apenas um violinista, mas acho muito esquisito. A Indonésia, país execrável, executou dois brasileiros por tráfico de drogas, mesmo sendo o país mais corrupto do mundo, onde os policiais traficam drogas nas penitenciárias, inclusive para os condenados à morte. O segundo executado, Rodrigo, foi enterrado no Paraná e o cortejo foi acompanhado por um violonista. Até que tocava bem, e assisti com certa comoção.
Se até um conterrâneo, covardemente fuzilado em um país de merda, teve direito a música decente, por que sou obrigado a passar por tamanho suplício?
Rio de Janeiro/RJ, 17 de janeiro de 2021
sábado, 16 de janeiro de 2021
Capitólio
Há pouco mais de uma semana, poucos brasileiros sabiam que Capitólio é a sede do legislativo estadunidense. Antes que me critiquem por pedantismo, porque não usei a expressão americano, que é como nos acostumamos a chamar os cidadãos dos Estados Unidos, estou apenas exercitando minha identificação com os irmãos da América Latina, que também usam o termo estadunidense. Chamar os vizinhos do norte de americanos é descaracterizar nossa própria existência. Se apenas eles são americanos, o que somos nós?
Quando as primeiras notícias do dia seis de janeiro deram conta de que havia confusão no Capitólio, inclusive com mortes, o desespero tomou conta dos parentes de quem estava passeando lá pelas bandas da Serra da Canastra, na mais recente coqueluche do turismo mineiro, também chamada de Capitólio. Minas Gerais tem mais afinidade com os Estados Unidos do que o Bolsonaro, que faz continência para a bandeira deles. Minas tem Governador Valadares, o maior polo exportador de motoristas de limousines e baby sitters do Brasil, tendo os Estados Unidos como o principal parceiro comercial.
A praia de Minas, que é como nossa Capitólio é conhecida, recebe um bocado de gente, principalmente no verão. Na falta de hotéis, transformaram escolas, lojas e casas de família em pousadas. Pousada é aquele estabelecimento que não segue as regras rígidas do hotéis. Pousada sem banheiro no quarto anuncia que é a experiência de se sentir em uma típica casa mineira. Se não tem café da manhã diz que é a oportunidade para provar as delícias das padarias mineiras. Se não dá desconto na baixa temporada é para conhecer a pãodurice do mineiro, que anda com um escorpião no bolso para não precisar enfiar a mão. Isso é para pousada, mas, quando não tem nem isso, é só mudar o nome para hostel.
Capitólio pode ser toda essa bagunça, mas por uma boa razão. Quem encara a aventura encontra natureza encantadora e o carinho do povo mineiro. Não vai se arrepender. Agora, quem foi ao Capitólio, sede do legislativo dos Estados Unidos da América, assistir a homologação de Joe Biden como novo presidente da república, quebrou a cara, literalmente, porque a porrada correu solta por lá. Quem imaginaria que a consagração do momento sublime da democracia fosse sabotada por ordem de quem chegou ao poder graças a ela.
O Capitólio estadunidense existe há mais de duzentos anos, possui simbologia maçônica e representa a vontade soberana do povo. Aquí, temos o prédio do Congresso Nacional, com sessenta anos e as linhas disruptivas de Oscar Niemeyer. Não tem nada a ver com a maçonaria, mas os bodes já influenciaram em muito do que ali foi discutido.
Temos uma democracia capenga, que se reconstrói a cada espaço de tempo, tateando como um bebê inseguro, com receio de caminhar. Quando pensamos que as coisas engrenaram, temos manifestações ditas populares, manipuladas por grupelhos de péssimas intenções, golpe parlamentar, eleições influenciadas por mentiras espalhadas nas redes sociais, através de empresas especializadas em ações ilegais.
Quando buscamos a paz social, elegemos maníacos que insuflam a discórdia agressiva entre brasileiros. Quem bate no peito para gritar o lema da bandeira “Ordem e Progresso”, desconhece que, como nos inspiramos de forma abreviada, na frase do filósofo francês Auguste Comte: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”, nosso lema deveria ser “Amor, Ordem e Progresso”.
Como deturpam o sentido de Ordem e de Progresso, difícil seria fazer entender o sentido de Amor.
Rio de Janeiro/RJ, 16 de janeiro de 2021.