terça-feira, 10 de abril de 2018

Cadernos e Canetas


 Um escritor argentino relata sua mania por cadernos. Não consegue sair de uma livraria sem comprar um ou mais, mesmo que não tenha a menor idéia do que fará com a coleção que já toma conta de sua casa.

Acho muito engraçado o jeito de contar coisas do dia-a-dia como se só acontecessem com ele. Essa compulsão por cadernos me faz rir por desespero, acredito, porque também não sei mais o que faço com as dezenas que invadem minhas mesas, gavetas e armários.

Se estivessem escritos, ainda que incompletos, não me assustaria a ponto de acreditar ser o sintoma de alguma patologia não descoberta, mas raros são os que estão minimamente usados. A maioria é tratada com tamanho cuidado, como se fossem filhos a quem jamais permitiria que se sujassem, principalmente com tinta de caneta.

Não apenas os cadernos, mas blocos e cadernetas também são quase uma obsessão. Vejo neles características diferentes que não existem, a não ser no meu desejo de que cada um tivesse sua própria identidade. Já comprei cadernos por me impressionar com a beleza inédita de sua capa, da encadernação incomum, da lombada e do cheiro. Levei-o com tamanho cuidado até chegar em casa e botá-lo junto a outro, idêntico.

Cadernos não se enchem sozinhos. Precisam de mãos e canetas. Mãos já as tenho, e canetas também, mas, para um caderno especial, não pode ser qualquer uma, e a busca da pena ideal se transforma em mais andança, em mais procura, em busca daquilo que não se sabe o que é.

Não há papelaria próxima que não visite sempre. E sempre pode significar até mais de uma vez no mesmo dia. Já não me constranjo com o olhar levemente piedoso que vendedores mais acostumados lançam, e já não se dispõem a entender o que pretendo.

Quando um vendedor se aproxima e pergunta se quero alguma ajuda, respondo que não. Antes dizia obrigado, só estou dando uma olhada. Depois suprimi a parte em que estou dando uma olhada, porque isso ele pode concluir. Depois parei de dizer obrigado, pois a educação parece liberar um tipo de feromônio.

Todas as vezes em que fui gentil para dizer que não precisava de nada, o vendedor (ou a vendedora, para explicar e descaracterizar que a coisa tenha a ver com gênero) se sentia de tal forma atraído que disputava com minha sombra para ver quem ficava mais próximo.

Agora, digo não, um seco não e, sem maiores explicações, começo a olhar os mais diferentes itens, causando embaraço nos atendentes, que, mesmo sumariamente dispensados, continuam a me observar com segura distância.

Às vezes, pego uma coisa qualquer e examino mais detidamente. Da mesma forma que minha cachorra, quando dou a entender que repartirei o que estou comendo, um vendedor mais ousado se aproxima perigosamente e passa a dar explicações (a cachorra não dá explicações, apenas late). Nessa hora largo tudo e vou para o outro extremo da loja, interrompendo a ladainha e deixando que fale sozinho.

Ha pouco tempo, um deles começou a me explicar o que tinha dentro da caixa que levantei. Devo ter cara de tapado, pois a tampa tinha a foto de um trem e, com letras garrafais, a expressão Trem Elétrico. Quando falei que tinha uma leve desconfiança de que era um trem, ele me explicou que era de brinquedo. Se não me avisasse, talvez estivesse lá até agora, esperando a hora de embarcar.

Voltando aos cadernos e as canetas, os dois tem algo em comum, servem para escrever, já que desenhar não é minha melhor habilidade. Mesmo que minha vida fosse tão segmentada, a ponto de não poder ser descrita em apenas um caderno e necessitasse de cores e traços diferentes, ainda assim quarenta cadernos e cinquenta canetas pareceria um exagero, mas é um pouco menos do que tenho.

Além de canetas tinteiro, que me deixam com os dedos azuis como os de um avatar, esferográficas de hotéis transbordam das canecas que deixaram seu lugar na cozinha e foram transferidas para o serviço burocrático. Passam anos espremidas e de cabeça para baixo, na esperança de que assim se mantenham funcionais, como me ensinaram. Com honrosas exceções, quando convocadas a retornar à atividade se vingam deixando apenas um arranhão no papel, sem qualquer vestígio de tinta.

Se mesmo depois de várias tentativas só restar um monte de folhas rasgadas, são deslocadas para uma gaveta e esquecidas por mais algum tempo, até que uma sanha organizadora se manifeste e eu as mande para longe do meu alcance. Raras são as que vão para a lata do lixo. Porteiros são quase sempre os agradecidos receptadores das inúteis.

Ainda por muito tempo passo pela portaria e vejo algumas anotações, com letras pontilhadas em papéis amarrotados, e percebo que lhes foi dada uma última chance de mostrar serviço. Algumas passam pelo suplício das bruxas da inquisição e tem sua ponta esquentada por isqueiros, para ver se a tinta volta a fluir ou talvez para se livrar de alguma possessão.

Todas, invariavelmente, estão mastigadas como se saíssem de uma aula de escrita criativa para cachorros loucos. Não sei, mas acho que eram mais felizes comigo, mesmo viradas para baixo e espremidas na caneca.

Manias custam dinheiro, não só para gastar nas papelarias como também para pagar psicólogos. Minha terapeuta pode me ajudar em outras questões, mas não nesta, pelo menos é o que sua mesa cheia de blocos e canetas dá a entender.

Mesmo quando em sofrido desprendimento dou um de meus cadernos, desperto um lado reprovável, até então oculto, de minha personalidade: a cleptomania. Minha filha recebeu uma caderneta que eu havia comprado para alguma ocasião especial. Ia para um evento importante e imaginei que faria bonito com o presente. Mas, heresia das heresias, se esqueceu de levar o mimo e fez as anotações no celular. Da mesma forma como foi, a caderneta voltou, desta vez surrupiada, e hoje, segura e reconciliada comigo, espera a tal ocasião especial.

Poderia estar escrevendo agora com uma antiga caneta tinteiro Parker 51, no caderno Moleskine com encadernação de luxo que dormita em minha mesa há mais de dois anos. Falta coragem para despertá-lo de seu sono descomprometido e correr o risco de fazer com que se sinta incapaz, como deve acontecer com seus antecessores, que, após duas ou três páginas escritas, foram deixados de lado. Deve ser como o abrupto rompimento de um amor, ou como uma broxada, onde os dois se sentem culpados.

Às vezes penso que a mania de perfeição é inimiga da criatividade. Não fosse por isso, escreveria furiosamente e sem remorso, dando trabalho a cadernos e canetas. Não me prenderia em arroubos de afeto e apego, mas, por outro lado, este texto não existiria.

Sei não, acho mesmo que a inspiração vem da vida, e vida sem manias não tem graça. Já vi muita gente rindo de maluco, mas nunca de psiquiatra.

Rio, março de 2018

sábado, 31 de março de 2018

Fran


             
Um mestre japonês me apresentou sua melhor amiga e, para demonstrar o quanto eram unidos, disse que um iria ao enterro do outro. 

Esta foi a forma encontrada para dizer que seriam amigos para o resto da vida. As mensagens deixadas pelos mestres chineses, nas inúmeras passagens edificantes e irritantes que inundam as redes sociais, ainda que na maioria das vezes inventadas, são mais poéticas e leves do que a dos japoneses.

Tenho uma amiga que pretendo trazê-la comigo para sempre. Ela me faz bem, me alegra, me compreende, ou não, e me aguenta, com a paciência que só se espera dos amigos. A Bel, minha mulher, também me faz bem, me alegra, me compreende, às vezes, e me aguenta, talvez sem a mesma paciência, o que é natural.

Minha amiga não pensa igual a mim. Ela é mulher e eu sou homem. Ela é de peixes e eu de virgem. Ela é prática e eu dou uma volta enorme para chegar aonde quero. Mas, no que combinamos, a coisa é pra valer. E aí as coisas são de uma intensidade maluca.

Gostamos de almoçar juntos, então almoçamos juntos todos os dias. Nossos trabalhos são muito próximos. Gostamos de livrarias, então já aproveitamos e almoçamos na livraria. Gostamos de canetas-tinteiro, e aí compramos canetas-tinteiro como quem compra chicletes, que, aliás, gostamos também.

Gostamos de vinho, e também não gostamos de parar. Quando é para beber, por precaução, não vamos sozinhos. Cada um leva quem lhe atura (eu levo a Bel), e aí vamos conseguir chegar em casa. Cada um na sua.

Minha amiga é bonita, muito bonita, e chama a atenção de todo mundo. Até nisso temos afinidade. Não que eu seja bonito, não sou, mas minha mulher é, e muito. Então já me acostumei a ver pessoas olhando de rabo de olho. Ou de olho no rabo.

Quando viajo, sinto saudade da minha amiga, mas quando ela viaja sinto mais. Ela disse que também sente o mesmo. Por que sentimos mais quando estamos em nosso lugar? Talvez por falta de novidades para nos distrair. Deve ser isso.

Sempre que estiver com saudade, e não estiver viajando, vou mudar de hábitos. Quem sabe assim sinto menos? Posso ir para o trabalho a pé, ou por um caminho errado. Posso comer o que não gosto, vestir agasalho no calor e roupa leve no frio. Andar com gente chata. Sei não. Pensando bem, saudade não é tão ruim assim. Dá para aguentar um pouco, até porque saudade faz lembrar, e lembrar é uma forma de ter por perto.

Minha amiga me dá conselhos, e pede os meus. Eu escuto os dela e acho que ela escuta os meus, mas escutamos sempre o que outro tem a dizer. É bom ouvir quem a gente gosta.

Não sei se é fácil definir o que é amizade, da mesma forma como é difícil definir o amor e a dor. Sentimento não é para ser definido, mas para ser sentido. Talvez nominado. Quando alguém me perguntar o que é amizade, acho que vou responder com um nome. Vou dizer Fran.

Rio, fevereiro de 2018

Manhã


Bel tossiu a noite inteira.  Não me incomodou nem um pouco, a não ser por saber que ela não teve um bom sono. Logo ela, que gosta tanto de dormir bem.

Acordei muito cedo, talvez por isso ou talvez por outra razão, que não me ocorre no momento. Faço um pouco de café, porque gosto mesmo é de tomar café quando ela acorda. Sei lá, talvez seja o contraste entre o olhar que sempre me encanta e o humor que aconselha a manter distância segura, como os alertas na traseira dos carros de transportes de valores.

Daqui a pouco vou à feira, comprar o queijo que ela tanto gosta e procurar um abacate maduro, para bater com leite. Fico um pouco encabulado de escrever sobre abacate, principalmente para ela, por achar que estou a plagiar meu amigo e poeta das Alagoas, André Falcão, que fez um conto lindo, sobre abacate.

Quando me levanto, trago comigo uma cesta de coisas para fazer. Não é um balaio físico, mas são tantas prioridades que acaba por não existir nenhuma. E aí não faço nada, a não ser pensar, o que não é de todo ruim.

Escrever é uma coisa boa para se fazer de manhã, principalmente se não  me censurar e botar pra fora tudo o que der vontade. Tenho lido todos os livros do escritor argentino Hernán Casciari, e neste último ele fala sobre a necessidade de escrever.

Aconselha que se temos a algo a dizer, que digamos (aqui o verbo dizer pode ser interpretado como escrever), e se não temos nada a dizer, que digamos também. Ou seja, escrever sempre, tendo ou não assunto para isso. Acho que até  quem não tem os dedos das mãos, ou talvez nem as próprias mãos, pode escrever todas as manhãs, desde que tenha um adaptador de voz ou um monge copista para passar para o papel o que for ditado.

O café acabou, e se for pegar o resto da cafeteira vou ficar um bom tempo sem querer tomar café, porque o gosto deve estar horrível. Prefiro esperar para fazer um novo, depois que voltar da feira, com o queijo, o abacate e o jornal. Aí posso fazer pose de americano, ou de inglês, e folhear  as páginas, com uma caneca fumegante e uma cadela esperando afagos debaixo da cadeira.

Ela não quer carinho. Na verdade quer um pedaço de pão ou de qualquer coisa que eu estiver comendo. Ultimamente até banana ela aceita. Se soubesse, teria adotado um macaco. Pelo menos ia me fazer rir.

A Bel, quando acorda, até aceita um carinho, mas está mais interessada no que vou fazer para ela. Nesse ponto as duas combinam. Se fazem de carentes, mas têm interesses mais fisiológicos. A fome empurra o mundo, desde sempre, e as manhãs fazem com que ele se renove a cada dia.

Rio, fevereiro de 2017

* Sexta feira, véspera de Carnaval 2017 (Rio)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Entretenimento a Bordo

Agora os aviões não oferecem mais filmes nas telas, pelo menos nos vôos domésticos.

Já que ninguém desgruda do celular, inventaram de criar um aplicativo que a gente baixa antes da viagem. Depois é só se conectar no wi-fi da aeronave e escolher a atração.

Até aí, tudo bem. Afinal, entre esticar o pescoço para enxergar telinhas minúsculas postadas ao alto e assistir a programação por uma telinha menor ainda, mas pelo menos em nossas mãos, prefiro a última.

As telas no encosto eram bem práticas, mas devia precisar de muita manutenção. Eu mesmo já peguei algumas que não funcionaram nem com os tapas que eu dei, e que quase me fizeram levar outros do passageiro em frente.

Mas pior do que isso são as incontáveis interrupções por conta dos comunicados da tripulação. Suspender o programa para que a gente preste atenção às instruções de segurança, tudo bem, embora ache pouco provável que vá me lembrar de tirar o assento flutuante, amarrar no corpo, só inflar quando estiver fora do avião e usar o bico para soprar, se aquele troço não funcionar. Talvez não haja nem tempo para isso, pois nunca ouvi alguém contar que tenha passado por tal experiência.

Tirando isso, para que interromper cada vez que o piloto fala algo que só deve interessar aos comissários? O que ganho sabendo que as portas estão em automático, por exemplo?

Um dia desses, voando de São Paulo ao Rio, escolhi uma palestra no TED, com o Tim Urban, que por ser TED não poderia levar mais do que 20 minutos.

E quem falou que consegui assistir até o final? Pararam o vídeo não sei quantas vezes. Seja para descrever o cardápio daquele lanche sem gosto, seja para avisar que iam recolher o lixo, para dizer que iniciariam a descida, informar o tempo no Rio (o que eu de qualquer modo saberia em minutos), para agradecer a preferência pela companhia aérea, enfim, só faltou dizer que a sobrinha do comandante havia nascido.

Por sorte encontrei a palestra no YOUTUBE e ainda no Uber consegui terminar de assistir.

Claro que não sem antes ter pedido ao motorista que parasse de me perguntar se eu queria bala, água, se o ar condicionado estava bom e se eu tinha preferência por alguma estação de rádio.

Rio, 2017


*Crônica vencedora estadual (RJ) e finalista nacional do Festival Talentos/FENAE 2017 (Curitiba/PR)