sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
Biografia
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
Fui promovido, e agora?
Leonardo foi aprovado em um
concurso público. Passou para a caixa! Leonardo se destaca e é apontado como a
promessa da empresa. Outras expressões marcam sua trajetória: revelação,
estrela, talento e tudo o que possa mantê-lo no caminho do sucesso. As metas
não o assustam. Citado como exemplo, torna-se ameaça àqueles que ponderam sobre
o ritmo estipulado de produção e prazo. Leonardo aprende que questionar é o
caminho mais curto para a estagnação da carreira. Jamais será como um daqueles
ultrapassados, pensa. Se muitos fizeram pela Caixa, agora é a nossa vez. Vamos
lá, Leonardo! – A juventude tem sangue a ousadia. Faça a diferença! Assim você
chega lá! Você só precisa continuar sendo efetivo. E Leonardo é promovido! Como
era de se esperar, ocupou o lugar de um “acomodado”. Ele tornou-se Gerente! E
agora, Leonardo? A vida dele muda! Uma estranha estrutura salarial faz com que
sua renda triplique da noite para o dia. Ele desengaveta seus sonhos e o
casamento é o primeiro. Diz o dito popular que quem casa quer casa. E Leonardo
agora tem renda para financiar o imóvel dos seus sonhos. Nada exorbitante, mas
e fundamental que tenha um quarto para o bebê, que já está a caminho, e uma
garagem para o carro novo. Leonardo nunca imaginou que o salário de gerente
comportasse tantas prestações. Leonardo agora tem motivos para ser mais
cauteloso, e as histórias de colegas que tiveram suas carreiras interrompidas
fazem com que modere sua forma de agir. Para o sistema, Leonardo “tirou o pé do
acelerador”, e isso é imperdoável. Leonardo é chamado para um “ponto de
controle”. - A aposta foi alta e você não pode decepcionar. O recado foi dado,
e Leonardo entendeu direitinho. E agora, Leonardo? Seu filho e sua mulher
dormem. No silencio da madrugada você não consegue pensar em nada que não seja
o medo de perder o que conquistou. Se deixa de ser gerente, seu salário mal da
pra pagar o condomínio e a creche. E agora, Leonardo? Leonardo decide que vai
continuar a ser o profissional que a empresa espera, mas sem fazer qualquer
loucura. Comenta com seus superiores, que o apoiam de
forma entusiasmada. – É isso mesmo, Leonardo! Não é para fazer errado, mas... é
para fazer! – Ah Leonardo! Só para
lembrar que a empresa decidiu que o ano termina em outubro e as metas para o
último trimestre foram aumentadas. Você terá que fazer mais em menos tempo.
Contamos com você! Use sua criatividade! Leonardo foi criativo. Fez o que não
devia e não fez o que devia. Leonardo não é mais gerente. Os empréstimos de
Leonardo estão inadimplentes. Possivelmente perderá casa, o carro e o emprego
tão sonhado. Já perdeu o respeito dos colegas e dos chefes, que se dizem
traídos. – Esse menino sempre foi muito vaidoso. Ia acabar mesmo aprontando
alguma. Não há nada de tão ruim que não possa piorar. Leonardo é réu em processo
criminal. A historia de Leonardo é fictícia, mas muitos de vocês devem estar
jurando que conhecem o personagem. É natural. Há algum tempo muitos Leonardos
foram criados por conta da priorização
de resultados a qualquer preço. Na iniciativa privada há uma forma nefasta para
essa forma de agir. O CEO é contratado a preço de ouro, com bônus sobre o
resultado. É estabelecido um prazo mínimo de permanência na empresa e a quebra
do contrato é regiamente indenizada. No primeiro ano, o resultado é surpreendente.
As metas são absurdas e os investimentos postergados. Pagamentos a fornecedores
são atrasados, não há contratação e reposição de empregados. Os números fazem a
alegria de controladores e acionistas. A bonificação do CEO é polpuda e
incontestável. Não existe almoço de graça e a conta chega no ano seguinte. O
custeio já não permite adiamento e as operações mal sucedidas afetam
negativamente os resultados. O salvador da pátria é dispensado e, por conta de
cláusula contratual, embolsa polpuda indenização. Negócio bom, não é? Quem paga
a conta? Os acionistas, é claro! No IBGC – Instituto Brasileiro d Governança
Corporativa somos orientados a agir de forma a não permitir estas ocorrências
nas empresas em que participamos do Conselho de Administração. Quando detectada
a manobra acima, a Comissão de Valores Mobiliários – CVM , que defende os
interesses dos acionistas e a saúde financeira do mercado de ações, impõe
pesadas multas à empresas pelas operações mal sucedidas. Para se safar, a
organização apresenta sua estrutura de conformidade e alega que os prejuízos
foram causados por ação individual, já que nunca houve ordem para burla das
regras estabelecidas. Em muitos casos a multa é reduzida e o dirigente sai como
enganado em sua boa fé. Mas, e na empresa pública qual a motivação, já que não
há bônus sobre resultados? Podemos falar em vaidade? Não será o prestígio um
bem valioso? Afinal, nem sé de pão vive o homem. Trazendo Leonardo de volta, no
setor público a coisa é um pouco mais pesada, apesar de não haver sanção da
CVM. Como tratamos com recursos públicos, o assunto não pode ser resolvido de
forma caseira. A existência de prejuízo
obriga o oferecimento de notícia
crime que, cada vez mais frequentemente, deságua em ação criminal na Justiça
Federal. O judiciário, ainda que independente, por vezes parece render-se à
opinião pública formada pela mídia, que exige procedimentos espetaculares para
alavancar suas vendas. Na Caixa, a existência de uma estrutura de governança
corporativa tem livrado o dirigente de ações cometidas por empregados. O que os
Leonardos fizeram é problema deles. Ninguém mandou fazer errado e jamais se
suspeitou que as coisas não estivessem andando na linha. Incontestável? Até
então sim, mas talvez haja luz no fim do túnel. Durante o X Fórum Nacional de
Prevenção a Crimes Econômicos, indaguei ao Procurador Geral da República Artur
Gueiros, que proferia brilhante palestra
sobre “ Compliance Criminal: Atribuições de Responsabilidade Individual
nos Crimes Empresariais”, se quando a direção de um banco, a despeito histórico
de resultados, aumenta substancialmente a meta e exige seu cumprimento em prazo
exíguo, não está estimulando a ousadia de seu corpo funcional a ponto de por em
risco a segurança das operações? E quando estes resultados são apresentados, em
total dissonância ao histórico de resultados, não seria de se esperar uma
análise mais aprofundada dos métodos utilizados? Para minha satisfação, o
representante do Ministério Público Federal assentiu e deu a entender que é uma
tese passível de ser desenvolvida. O país vive um momento crítico. A sociedade aturdida endossa ações que possam
vir a quebrar regras do estado de direito. O arrolado, que na definição do
normativo interno é definido como “incluído no Processo Disciplinar e Civil, na
condição de provável responsável por irregularidade ocorrida na vigência do
contrato laboral”, hoje é visto como propenso fraudador contra quem devem ser
adotadas medidas extremas de preocupação. É possível medir a extensão dos danos
causados ao empregado? Certamente que não. Este será sempre credor de
reparação.
Publicado no Jornal da FENAG em 2015 (atual até hoje)
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
Sozinho
Acabo de ler um texto curto e inspirado, sobre a arte de ficar sozinho. O nome do artigo é “Ficar sozinho nunca foi um problema para mim” e o autor é o Professor Marcel Camargo, que não conhecia. O blog Resiliência Mag é depositário de seus textos, o que é uma ideia maravilhosa e que há um tempo comecei a fazer também. Criei o blog O Piso Molhado, mais para guardar o que escrevo do que para causar algum tipo de reação. Assim me exponho mais, porque fico à vontade para botar para fora o que vier na cabeça. Assisto todos os dias os vídeos do canal de Henry Bugalho, do qual sou membro contribuinte. Henry é escritor, hoje bastante conhecido, mas, no início, não era assim. Há poucos dias ele falava que quando começou a escrever se sentia um pouco frustrado porque não tinha leitores e não recebia qualquer comentário. Por outro lado, não se sentia obrigado a agradar seu público, até porque não tinha público nenhum. Hoje, seus leitores esperam dele coerência com as publicações já feitas, o que poderia acabar por afetar sua espontaneidade. Só não afeta porque ele se consegue enxergar que a pluralidade de sua obra pode ser seu diferencial.
Comecei este texto falando da arte de ficar sozinho e até agora
só falei de outras pessoas, mas tem tudo a ver com o artigo do Marcel Camargo.
Em determinado trecho, ele diz que quando está sozinho navega na Netflix,
dedilha seu piano e escutas as playlists de sempre. Ficar sozinho tem essa
magia que poucos entendem. Se hoje conheço seu blog , o canal e os livros do
Henry Bugalho é porque aproveito meus momentos de solidão para descobrir novos
autores, novos e velhos filmes, pensar em coisas que não existem ,até que
passem a existir, sonhar sonhos desejados e sonhos que não me interessa
realizar. Sonhar por sonhar é uma forma de peneirar os pensamentos e guardar
aquilo que vale a pena guardar.
Quando estou sozinho, posso falar sozinho, é claro, mas não
falo porque é o momento em que aproveito para ouvir, nem que seja o silêncio.
Sinto cheiros que me remetem a tempos idos e me fazem ter vontade de criar
tempos igualmente inesquecíveis. Penso em amigos que se foram e em amigos que
chegaram. Penso que as perdas talvez sejam apenas a criação de espaço para que
o novo venha, e isso vale para objetos, pessoas, momentos e sensações. É tudo
uma questão de observar, de perceber.
Já tive inveja de monges, que passam a vida meditando, mas
hoje não sei se são livres. Não sei se aprenderam a meditar sem um roteiro. A
busca pela elevação espiritual pode ser tão incômoda quanto qualquer busca.
Gosto que as coisas surjam. Há coisas que precisam ser buscadas, mas isso
geralmente é necessário para o lado prático da vida. Não me refiro a essas
coisas. Se quiser evoluir, que seja uma evolução serena, que não me exija
avaliar o quanto já percorri e o quanto ainda falta percorrer. Não quero me
sentir obrigado a nada. Para isso já existem as obrigações, e todos as temos.
Ficar sozinho é mais do que prazer, é necessidade, é liberdade,
é se preparar para estar com os outros. Não sei como lidaria com pessoas se não
reservasse um tempo só para mim. Acho que enlouqueceria, e não sei se iam
gostar de mim. Tem maluco bom de conviver, engraçado, prestativo, carismático, um
maluco beleza, mas tem uns que não dá nem para chegar perto. Estes são furiosos
e não gostam de gente. Gostam de ficar sozinhos para poder destilar o ódio do
mundo e para se admirar. Não se ocupam em conhecer coisas novas. Acham que se
bastam. Maluquice é uma loteria, então é melhor não endoidar.
Há anos, quando o navegador Amyr Klink fez uma viagem à Antártica
e encalhou propositalmente seu veleiro
na Baía de Dorian, sabia que por um ano não sairia dali. Foi sozinho e levou um
monte de coisas para passar o tempo. Gravou não sei quantas fitas cassete, levou
uma caixa de relógios estragados para consertar, fez curso de dentista para o
caso de algum canal precisar ser extirpado, enfim, fez de tudo o que não faria
se estivesse em casa. Hoje, vive de palestras contando suas experiências. Nunca
vamos saber se foram boas ou ruins. Ninguém assistiria a uma apresentação dele
para ouvir reclamações. Gostando ou não ele vai dizer que foi maravilhoso.
Mas acredito que tenha sido melhor do que aquela família catarinense
maluca que viaja amontoada em um veleiro pequeno. É como encher uma quitinete
de gente, só que sem a possibilidade de ir para a rua beber um chope. Ali, se
sair cai no mar. Estes escolheram viver o verdadeiro inferno em alto mar. Botar
qualquer um daquela família para fazer o que o Amyr Klink fez ia ser interessante.
O cara ia rasgar as velas do barco e arrancar o leme, para nunca mais voltar
para casa. Antigamente se dizia que alguns pais de família falaram que iam
comprar cigarros e nunca mais voltaram. Hoje ninguém mais fuma e, talvez, por
isso tenha aumentado o número de crimes passionais.
Solidão é escolha. Tem gente que opta por nunca estar
sozinho. Os mórmons, por exemplo, só andam em dupla. A melhor definição que
ouvi sobre eles é que parecem testículos: são dois, um é maior do que o outro e
só servem para encher o saco.
Rio de Janeiro/RJ, 13
de janeiro de 2021
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
Barata
Tenho muita inveja de quem não tem medo de barata. Não é de quem diz que não tem medo, mas de quem não tem medo mesmo. Há uns anos, a Marília Gabriela entrevistava Fernando Collor de Mello. Não me lembro o que ele era na época, se era candidato a presidente da república, presidente da república ou ex-presidente da república. Não importa, ele mantém a pose sempre. Até quando não era nada, agora é senador, mantinha a mesma empáfia. Por isso, quando a gente vê algum vídeo do Collor, o ideal é que tenha legenda dizendo o que ele é. Melhor do que isso é não ver nada do Collor. Não perdemos nada com isso. Mas, para ilustrar o tema da barata, e não para lustrar a barata, que parece recém-envernizada, tenho que falar delle, com dois eles, como gosta de frisar.
Marilia Gabriela vendo que o cara não baixava a crista, tinha resposta para tudo, aproveitava para se enaltecer, e isso ele faz até quando está por baixo, tirava onda de valente e de destemido, perguntou do que ele tinha medo. É o tipo de pergunta inócua. É claro que ele respondeu que não tinha medo de nada. Ela insistiu e perguntou se nem de barata ele tinha medo. Ele afirmou que não. Disse que tenho inveja de quem não tem medo de barata, mas aquele cara não me convenceu.
Aliás, não sei o porquê as pessoas escondem que tem medo de alguma coisa, ou de algumas. Não tenho medo de quase nada, talvez até de nada, mas de barata eu tenho. Até finjo que não ligo, se estiver com pessoas de pouca intimidade ou em lugar público, com gente que não conheço. Disfarço, mas não abro a guarda. Pode ser até de noite, mas de longe enxergo aquela coisa se mexendo. Se estiver quietinha, poso até confundir com um pinhão, mas pinhão só dá no inverno, e nessa estação a barata some. Por isso, pinhão e barata nunca vão se cruzar. Então, se estiver no verão, não tem erro. É barata!
Uma vez estava aguardando um amigo para almoçar no extinto Porcão Rio’s. Enquanto bebia uma caipirinha na varanda, na mesa ao lado o apresentador Ratinho dava entrevista a umas jornalistas bastante bonitas. Escutei quando uma delas perguntou do que ele tinha medo. Não entendo que obsessão as entrevistadoras têm por essa pergunta. Vaidoso que só ele, aquela figura um tanto grotesca deu um tapa na mesa e disse que não tinha medo de nada. Por sorte não tinha copos na mesa. Era uma entrevista a seco. De repente, fez cara de quem acabou de se lembrar de alguma coisa e disse que tinha, sim, uma coisa de que tinha medo. De fantasma. Aí, com aquela voz insuportável que não sei como atraia tanta audiência, repetiu algumas vezes que de fantasma ele tem medo. Mas não apenas repetia. Fazia gestos para demonstrar o que era um fantasma. Só faltou desaparecer, o que não seria de todo ruim. Pensei comigo que ele é um fanfarrão, daqueles que quem não conhece compra e paga caro. Dizer que tem medo do que não existe é fácil. Quero ver dizer que tem medo de barata. É preciso ter coragem para ter medo de barata. E isso eu tenho.
Não sei se por causa desse episódio do Ratinho, passei a pensar que não gostaria de me deparar com um fantasma, mas dizem que eles não aparecem para a gente. Então como podemos ter medo dele? Acho que vou perguntar para o Ratinho. Pelo sim pelo não, deixei o fantasma como segundo na lista de medos, caso algum resolvesse me assombrar. E o dia chegou, ou melhor, à noite, que é o horário tanto deles quanto das baratas. Estava sozinho em casa e apareceu uma barata no banheiro. Até aí, fácil. Bastava não tomar banho até a Bel voltar. Ela não tem medo, mas estava fora do país e só voltaria em uma semana. Até uns três dias dá para disfarçar com perfume. Mais do que isso, só embalsamando. E tem outra coisa, nem só para banho serve o banheiro. Além disso, ela podia querer conhecer o resto da casa, igual visita de pobre.
Corri contra o tempo, para achar o veneno para baratas, que as pessoas chamam de remédio de barata. Nunca ia ter remédio de barata em casa. Se ficarem doentes não dou uma aspirina. E nem pensar que eu vá fazer uma canja. Por mim, pode morrer que nem no velório eu vou.
Corri para pegar o veneno porque essas danadas têm percepção. Quando a gente sai correndo, elas sabem que não é para trazer comida ou bebida. Por isso, muitas vezes a gente volta e não encontra mais ninguém. Ninguém, no caso, é ela, a barata.
Encontrei o aerossol e ela estava me esperando. Quer dizer, não sei se estava me esperando, mas não saiu do lugar. Cheguei a pensar que já estava morta, talvez de susto. Quem sabe ela tinha medo de gente? Mas nada que é bom dura para sempre. Quando já estava pensando em como ia me livrar dela, vi as anteninhas se mexendo. Era fingimento da diaba. Foi traída pela antena. Igual em filme, quando a pessoa está escondida e toca o celular. Quem está assistindo fica mais assustado do que o dono do aparelho. Antena deve ser o celular de barata, e o dela não estava no modo silencioso.
Mirei o jato na cara dela. Mentira, mirei na direção dela porque não teria coragem de encarar uma barata. Ela é terrivelmente feia. Se não encaro gente feia, o que dirá encarar uma barata feia. Ela ficou encharcada de inseticida, com uma espuma branca cobrindo o corpo. Parecia que tinha saído da Jacuzzi e esquecera o roupão no quarto. Falei da Jacuzzi só para parecer bacana, mas não tenho Jacuzzi. Era box mesmo.
Depois daquela coreografia que barata faz quando vai morrer. Deita-se de costas, mexe as perninhas, nem sei quantas, mas parece que são umas dez. Abre e fecha as asas. Parece que está fazendo checklist em avião. Maneja os flaps, o leme, enfim, tudo que não pode dar problema no voo. Aliás, se tem uma coisa pior do que barata é barata voadora, mas a minha (olha a intimidade) era terrestre mesmo. Vendo que em breve já não estaria mais em nosso mundo, tratei de buscar pá e vassoura para o funeral. Quando volto, vi que meu maior medo havia sumido, dando lugar ao segundo maior medo. O fantasma.
Não pode ser. Em uma mesma noite, encarar uma barata e um fantasma de barata. Se viva não dou conta de enfrentar, imagine, então, desencarnada. Não fazia a menor noção de onde podia estar escondida. Chamar um padre para exorcizar? Não viria. Ligar a TV na Record e pedir ao pastor de plantão que tirasse aquele encosto? Acho que só indo no culto. Sem dinheiro eles não têm boa vontade. Ou melhor, não tem nem vontade.
Nunca me imaginei pedindo para encontrar uma barata, mas, naquela noite, tudo o que eu queria é que ela voltasse, nem que fosse para morrer de novo, só que agora eu não sairia de perto. Ia ficar igual serial killer, que fica perto da vítima esperando para ser preso e ganhar notoriedade.
Ela não voltou e eu não dormi. Passei a noite assistindo filme, de luz acesa e olhando ao redor. Nem me lembro o que assisti. Tanto podia ter sido A Paixão de Cristo quanto O Jumento Gozador. Não prestei atenção mesmo.
A manhã trouxe o sol e as olheiras. Me arrependi de pedir à faxineira que não viesse enquanto estivesse sozinho em casa. Quis aproveitar um pouco de privacidade e agora não sossego enquanto não achar aquela praga. Deixei uma lanterna acesa no escuro para ela achar que é a tal luz que os mortos devem seguir, quando ainda não se deram conta de que o jogo acabou.
Relaxo. Vou para a rua, me sento em um café bastante charmoso, onde todos me conhecem. Faço meu pedido, despejo o cansaço de uma noite assombrada na poltrona que me abraça. Abusado, boto os pés na mesa de centro e levo um susto enorme quando a atendente grita que há uma barata esmagada na sola do meu tênis.
Rio de Janeiro/RJ, 12 de janeiro de 2021
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Pandemonia
E do nada começa inesperada
quarentena. Sem aviso, sem planejamento, sem preparação daquelas que a gente
imagina ou fica sabendo através de histórias de aventureiros. Fico pensando
como deve estar passando Amir Klink, acostumado a fazer viagens insólitas,
atravessando o oceano em barco a remo ou encalhado por mais de um ano nas
geleiras antárticas. Para aqueles programas de quem já está com a vida ganha,
que ele transforma em fonte de renda, tudo é cuidado em detalhes, o que vai
comer, o quanto estocará de mantimentos e o que levará para passar o tempo.
Em casa, não preciso de nada
disso. O mercado entrega em domicílio e tenho coisas para fazer por anos,
sempre adiadas por falta de tempo, mas agora isso não é mais desculpa. Tempo é
o que mais tenho. A diferença é que fui pego de surpresa. Não pensava em me
confinar, e só o fiz por insistência da Bel, que temia por minha saúde. Dizia
que pertenço ao grupo de risco, que a cada dia recebe mais integrantes,
bastando estar vivo para se tornar vítima em potencial do vírus.
Como não esperava que o
confinamento fosse durar tanto tempo, botei o computador na mochila, peguei os
processos em andamento, e, no meio da tarde, peguei o rumo de casa. Entro no
metrô estranhamente vazio e penso em mudar meus horários, para fugir do
desconforto que encaro toda noite. Hoje já nem sei como as coisas funcionarão
quando isso acabar, e dependendo de como acabar. Não espero mais nada. Deixo a
vida correr e procuro não pensar muito nisso.
Sempre brinquei que gostaria de
receber pena de prisão domiciliar para aproveitar tudo o que tenho em casa e
não aproveito. Dos inúmeros livros que ainda não li ao livro que não escrevi,
dos filmes que quero assistir às coleções que pedem por organização. Receitas
que não experimentei, meditação, gravação de vídeos, enfim, um bocado de coisas
que acreditava dependerem apenas de tempo.
A mulher sugere que eu faça um
diário da quarentena. Virginiano incorrigível, não comecei porque quero
detalhar tudo o que ocorreu desde o primeiro dia, mas não tenho como me lembrar
dos detalhes e não consigo começar do meio. Comigo é assim: ou faço perfeito ou
não faço nada, e a segunda opção está ganhando de lavada no confinamento.
Preciso de rotina, que é o que
sempre reclamei de ter quando era obrigado, mas, agora, dono do meu nariz, fico
mais perdido do que brasileiro quando assiste pronunciamento do presidente.
Estabeleço o roteiro do que
vou fazer no dia seguinte, porque planejar e fazer no mesmo dia é desperdício
de atividades, afinal não sei quanto tempo ficarei trancafiado dentro de casa.
Se gastar todas as ideias hoje não sei o que vou fazer amanhã.
Acordo relativamente cedo,
mesmo que seja para dormir depois, faço café e disputo com as cadelas quem tem
mais cara de tédio. Acho que elas ganham, porque o objetivo delas depende de
mim: querem passear na rua. Mesmo antes eu não tinha ânimo para isso, imagina
então agora, que ganhei álibi oficial para não sair de casa. Uma delas é mais
inteligente e aponta para a foto do presidente no jornal aberto para que elas
façam cocô, na esperança de que eu ache tudo isso um complô dos governadores
com a China. Como não arredo da minha decisão, ela caga na cabeça do capitão,
engordando os índices de rejeição.
Olho para a estante e percebo
que os livros há tempos ultrapassaram os lugares nas prateleiras, empilhados
como presos no Brasil. Ao menos não pedem comida, não reclamam do calor e não curram
os mais fraquinhos, até porque não devo ter mais nenhum livro fraquinho. O do
Diogo Mainardi, que ganhei de inimigo oculto, foi dado para o livreiro da
calçada. Por remorso, sempre que vejo o exemplar a cada dia mais desbotado de
sol, compro qualquer um outro para que não fique chateado comigo, o que seria
injusto, porque não fiquei aborrecido com quem me deu aquela chatice.
Penso que dar ordem a este
caos pode ser uma ocupação gratificante. Certamente encontrarei livros
repetidos. Rapidamente vejo três exemplares de Um Ano na Provence, de Peter
Mayle, perfilados como trigêmeos de classe média, usando roupas idênticas e com
postura de abestados.
Assim que acabar de ler a
pilha que está na cabeceira da cama me animo e cuido disso, o que deve demorar,
já que Bel está infiltrando livros no meio dos que escolhi. Aqui em casa impera
o inverso da censura: ao invés de retirar, são incluídos novos livros. Então me
vejo agora às voltas com 21 Lições para o Século 21, esperançoso que o século siga
adiante. Ontem li a entrevista com Harari, o autor, e parece que ele também está
certo disso.
Há anos não assisto televisão,
não sei se parei antes que ela me deixasse burro muito burro demais, mas me
sinto aliviado por não entender nada do que se refira ao BBB, que penso ter
regras mais difíceis do que jogo do bicho. Também fico perdido quando determinada
reportagem no Fantástico vira assunto na segunda-feira. Recentemente, um médico
que eu julgava ser unanimidade nacional, estava sendo escrachado por ter abraçado
um travesti. Soube depois que havia cometido um crime bárbaro (o travesti, não
o médico).
Só por isso já seria motivo
mais do que suficiente para não readquirir um hábito há tanto abandonado. Penso
que seria pior do que voltar a fumar. Pelo som que vem dos apartamentos
vizinhos, devo ser o único a não preencher o tempo com a televisão. Aliás, acho
que ela mais joga fora do que ocupa o tempo.
Não deixo o aparelho de TV
desligado. Assisto filmes, clipes e algumas reportagens estrangeiras que estejam
disponíveis. Gosto da RAI italiana, mas não tenho este canal, o que não faz
diferença porque não entendo nada de italiano. Vejo, vez ou outra, pela
internet. O idioma italiano é chamado de língua dos anjos, por causa da beleza
e da sonoridade. Do jeito que as coisas andam por lá, acho que os anjos têm
muito a fazer.
Uma vez me perguntaram como eu
me informava, já que não assisto telejornais. Respondi que era exatamente por
isso que me considero informado. Com a insistência, falei que me atualizava
pelo Intercept Brasil, pela TV 247, pelo Público, jornal de Portugal, pela
Folha e mais alguns informativos. Senti que, por precaução, afastaram as
crianças de mim. Vai que eu estivesse com fome.
Para não perder a referência,
aconselham que mantenhamos o ritmo de antes da quarentena, o que acho difícil
porque trabalhava dez horas por dia no escritório, para onde me deslocava de
metrô, e almoçava em restaurantes do centro da cidade. Felizmente continuo a
trabalhar e me visto para isso. É claro que não uso terno em casa, nem mesmo
para videoconferências. Iria parecer artificial e pedante. Vivemos tempos de
calamidade pública e há todo um protocolo para o momento. Às vezes é complicado redigir peças
jurídicas com um arfar insistente sob a cadeira. É a cadela que ainda não
passeou, e se depender de mim não vai passear hora nenhuma, mesmo tendo cagado
na foto do presidente. Não adianta me agradar. Não gosto de insistência.
Devo estar chato mesmo. Não me
sinto um prisioneiro, porque posso sair se quiser. A diferença é que não quero.
Olho pela janela e vejo perambulando pessoas de certa idade, melhor seria dizer
de incerta idade, porque alguns não tem mais nem a plaqueta com a data da
inauguração. Não sei o que velho gosta de fazer na rua, mas sei que garantem a
necessidade de sair todos os dias, por isso saem do supermercado com o mínimo
de coisas, para que acabe logo. Na farmácia perguntam pela embalagem que
contenha o menor número de comprimidos. Fazer estoque significa cumprir a
quarentena.
Velho adora dizer que já viveu
demais, mas, quando a coisa aperta, procura o médico e o padre, para não deixar
nenhum dos lados desguarnecidos. Este ano a Semana Santa não teve procissão e
nem missa de Páscoa. Não duvido que alguns tenham pedido ao padre um atestado
para apresentar no além.
Passei uns dias agoniado, com
a internação do primeiro ministro inglês na UTI. Se ele morresse, com o que há
de mais avançado ao seu dispor, ia acreditar que era uma questão de tempo para
seguirmos o mesmo rumo. Não tenho simpatia por nenhum líder loiro de cabelo
arrepiado que fala inglês. Só conheço dois, mas já é o bastante.
Cuidar do espírito estou
conseguindo, mesmo não tendo convicção de que ele exista, mas do físico já é
mais complicado. Comecei a praticar Qigong, uma suave sequência de movimentos criada
na China, mas uma das cadelas, a menos inteligente , cismou que é uma ameaça e me estraçalhou com selvagens
dentadas.
Enfim, vou levando essa
pandemia do jeito que der para levar. Um dia acaba, bem ou mal, mas acaba. Dizem
que a humanidade será muito melhor depois disso tudo. Parece confortador, mas
será que não falaram a mesma coisa para os dinossauros?
Rio de Janeiro/RJ, 14 de abril de 2020 (inscrita no concurso do 247)
domingo, 10 de janeiro de 2021
Bira
Hoje recebo a notícia que ninguém gosta de receber. Um amigo se vai, pelos braços de uma doença infame que alguns chamam de gripezinha e que só assusta maricas. Meu amigo Ubiratan, o Bira, não estava gripado e não estava assustado. Simplesmente adoeceu e morreu. É difícil dizer que em país mais evoluido teria sobrevivido. Pode ser que não, mas, com certeza, seu drama teria sido encarado com seriedade. Aqui, a doença é motivo de chacota do presidente, a ponto de dispensar ministros da saúde que possuam conhecimento médico para empossar um general que nem ao menos faz jus à habilidade de estrategista que diziam ter. Não encomendamos vacinas nem temos seringas e agulhas. Se isso é ser estrategista, levantemos as mão aos céus por não nos metermos em guerra. Já pensou? O grande general, com enorme vivência em pintar meio fio e tronco de árvores, não ter cal suficiente para enfeitar as trincheiras. Seria um vexame.
Bira se foi, e, por mais que há tempos não estivesse com ele pessoalmente, não posso me considerar tão afastado. Tínhamos o mesmo amor pela escrita. Enviava-lhe meus textos e ele me cedia, gentilmente, os originais de seus livros, que chegou a publicar pela Amazon. A Gincana de Jó e O Tempo do Ceifador compunham a trilogia de Barra do Norte, que não chegou a concluir. Barra do Norte era a cidade imaginária, inspirada em sua Barra do Pirai. Me diveria com suas letras, como me divertia muito com sua convivência, no tempo em que trabalhamos juntos.
Éramos bancários e, no horário de almoço, batíamos perna no shopping center vizinho à agência. De camisa social e gravata, postávamo-nos diante das lojas e os clientes, achendo que ali trabalhávamos, peruntavam o preço de algum produto exposto na vitrine. Respondíamos com valores absurdos. Não me recordo da moeda da época, pois nosso país é pródigo em fazer reforma monetária, mas, para exemplo, posso citar o caso de uma agenda, tarzendo para valores atuais.
Uma mulher muito jovem, aparentando pouco mais de dezoito anos, perguntou o preço de uma agenda, ao que respondemos que custava trezentos reais. Como se tratava de uma agenda muito simples, é natural que a candidata a freguesa se assustasse e nos questionasse se não estava absurdamente cara. Com a maior cara de pau, que ele conseguia fazer com mais maestria do que eu, respondíamos que, infelizmente, aquela papelaria não era para duros. Se ela não tinha dinheiro, que procurasse outro lugar, quem sabe, o mercado popular, nome bonito para o camelódromo de Volta Redonda.
Quando estávamos mais inspirados, íamos para as Lojas Americanas e circulávamos entre as gôndolas (prateleiras, para que ninguém pense que íamos para Veneza durante o horário de almoço). Por sorte, sempre aparecia alguém, com a fisionomia mais cândida que já havíamos visto, e perguntava o preço de um liquidificador. Nunca entendi essa tara por liquidificadores até o meu começar a espirrar vitamina para todos os lados. Pois bem, assim que a pobre coitada (quase sempre era mulher, o que para nós, covardes, trazia um alívio e diminuia a chance de voltarmos para a agência com o nariz sangrando) acabava de perguntar, respondíamos de maneira bastante inusual para um vendedor. Aliás, nas Lojas Americanas, só quem usava gravata eram os gerentes, por isso achavam que éramos autoridades ali. Sendo assim, os clientes achavam que teriam respostas mais qualificadas, portanto não entendiam nada quando respondíamos, sem alterar nossa fisionomia: “Se a senhora que está interessada não sabe o preço, por que nós haveríamos de saber?” É claro que não ouvíamos coisas mais agradáveis, mas era esse o objetivo da farsa.
Bira tinha o humor politicamente incorreto, talvez por isso gostasse tanto dele. Certa vez passamos diante de uma loja no shopping, que estava fechada, com diversas fileiras de cadeiras encostadas umas na outras, sem espaço para as pernas, o que era normal. Já que estava apenas armazenadas. Perguntei ao Bira o que estavam projetando fazer ali, e ele, de imediato, respondeu que era um cinema que a ferrovia estava fazendo para os mutilados por atropelamento pelos trens.
Bira não tinha compromisso com a opinião dos outros, apenas com o humor. Espírita praticante, me dizia que o outro lado não era tão condescendente com as pessoas que levavam uma existência pesada. Não que fossem condenados à danação eterna, mas passariam por um trote de fazer inveja às mais sádicas escolas militares.
Tenho muito a falar do Bira, mas não hoje. Aliás, não sei de onde tirei forças para trazer tantas recordações do querido amigo. Agnóstico, não sei se um dia o reencontrarei, mas tenho certeza de que estará comigo enquanto eu estiver neste plano. O que virá depois, só saberemos quando vier o depois.
Adeus Bira, muito ainda tenho a falar de você. Quem sabe quando elabora melhor esta perda.
Rio de Janeiro/RJ, 10 de janeiro de 2021
sábado, 9 de janeiro de 2021
Café (en español)

