quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Sozinho

Acabo de ler um texto curto e inspirado, sobre a arte de ficar sozinho. O nome do artigo é “Ficar sozinho nunca foi um problema para mim” e o autor é o Professor Marcel Camargo, que não conhecia.  O blog Resiliência Mag é depositário de seus textos, o que é uma ideia maravilhosa e que há um tempo comecei a fazer também. Criei o blog O Piso Molhado, mais para guardar o que escrevo do que para causar algum tipo de reação. Assim me exponho mais, porque fico à vontade para botar para fora o que vier na cabeça. Assisto todos os dias os vídeos do canal de Henry Bugalho, do qual sou membro contribuinte. Henry é escritor, hoje bastante conhecido, mas, no início, não era assim. Há poucos dias ele falava que quando começou a escrever se sentia um pouco frustrado porque não tinha leitores e não recebia qualquer comentário. Por outro lado, não se sentia obrigado a agradar seu público, até porque não tinha público nenhum. Hoje, seus leitores esperam dele coerência com as publicações já feitas, o que poderia acabar por afetar sua espontaneidade. Só não afeta porque ele se consegue enxergar que a pluralidade de sua obra pode ser seu diferencial.

Comecei este texto falando da arte de ficar sozinho e até agora só falei de outras pessoas, mas tem tudo a ver com o artigo do Marcel Camargo. Em determinado trecho, ele diz que quando está sozinho navega na Netflix, dedilha seu piano e escutas as playlists de sempre. Ficar sozinho tem essa magia que poucos entendem. Se hoje conheço seu blog , o canal e os livros do Henry Bugalho é porque aproveito meus momentos de solidão para descobrir novos autores, novos e velhos filmes, pensar em coisas que não existem ,até que passem a existir, sonhar sonhos desejados e sonhos que não me interessa realizar. Sonhar por sonhar é uma forma de peneirar os pensamentos e guardar aquilo que vale a pena guardar.

Quando estou sozinho, posso falar sozinho, é claro, mas não falo porque é o momento em que aproveito para ouvir, nem que seja o silêncio. Sinto cheiros que me remetem a tempos idos e me fazem ter vontade de criar tempos igualmente inesquecíveis. Penso em amigos que se foram e em amigos que chegaram. Penso que as perdas talvez sejam apenas a criação de espaço para que o novo venha, e isso vale para objetos, pessoas, momentos e sensações. É tudo uma questão de observar, de perceber.

Já tive inveja de monges, que passam a vida meditando, mas hoje não sei se são livres. Não sei se aprenderam a meditar sem um roteiro. A busca pela elevação espiritual pode ser tão incômoda quanto qualquer busca. Gosto que as coisas surjam. Há coisas que precisam ser buscadas, mas isso geralmente é necessário para o lado prático da vida. Não me refiro a essas coisas. Se quiser evoluir, que seja uma evolução serena, que não me exija avaliar o quanto já percorri e o quanto ainda falta percorrer. Não quero me sentir obrigado a nada. Para isso já existem as obrigações, e todos as temos.

Ficar sozinho é mais do que prazer, é necessidade, é liberdade, é se preparar para estar com os outros. Não sei como lidaria com pessoas se não reservasse um tempo só para mim. Acho que enlouqueceria, e não sei se iam gostar de mim. Tem maluco bom de conviver, engraçado, prestativo, carismático, um maluco beleza, mas tem uns que não dá nem para chegar perto. Estes são furiosos e não gostam de gente. Gostam de ficar sozinhos para poder destilar o ódio do mundo e para se admirar. Não se ocupam em conhecer coisas novas. Acham que se bastam. Maluquice é uma loteria, então é melhor não endoidar.

Há anos, quando o navegador Amyr Klink fez uma viagem à Antártica e  encalhou propositalmente seu veleiro na Baía de Dorian, sabia que por um ano não sairia dali. Foi sozinho e levou um monte de coisas para passar o tempo. Gravou não sei quantas fitas cassete, levou uma caixa de relógios estragados para consertar, fez curso de dentista para o caso de algum canal precisar ser extirpado, enfim, fez de tudo o que não faria se estivesse em casa. Hoje, vive de palestras contando suas experiências. Nunca vamos saber se foram boas ou ruins. Ninguém assistiria a uma apresentação dele para ouvir reclamações. Gostando ou não ele vai dizer que foi maravilhoso.

Mas acredito que tenha sido melhor do que aquela família catarinense maluca que viaja amontoada em um veleiro pequeno. É como encher uma quitinete de gente, só que sem a possibilidade de ir para a rua beber um chope. Ali, se sair cai no mar. Estes escolheram viver o verdadeiro inferno em alto mar. Botar qualquer um daquela família para fazer o que o Amyr Klink fez ia ser interessante. O cara ia rasgar as velas do barco e arrancar o leme, para nunca mais voltar para casa. Antigamente se dizia que alguns pais de família falaram que iam comprar cigarros e nunca mais voltaram. Hoje ninguém mais fuma e, talvez, por isso tenha aumentado o número de crimes passionais.

Solidão é escolha. Tem gente que opta por nunca estar sozinho. Os mórmons, por exemplo, só andam em dupla. A melhor definição que ouvi sobre eles é que parecem testículos: são dois, um é maior do que o outro e só servem para encher o saco.

 

Rio de Janeiro/RJ,  13 de janeiro de 2021

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Barata

 Tenho muita inveja de quem não tem medo de barata. Não é de quem diz que não tem medo, mas de quem não tem medo mesmo. Há uns anos, a Marília Gabriela entrevistava Fernando Collor de Mello. Não me lembro o que ele era na época, se era candidato a presidente da república, presidente da república ou ex-presidente da república. Não importa, ele mantém a pose sempre. Até quando não era nada, agora é senador, mantinha a mesma empáfia. Por isso, quando a gente vê algum vídeo do Collor, o ideal é que tenha legenda dizendo o que ele é. Melhor do que isso é não ver nada do Collor. Não perdemos nada com isso. Mas, para ilustrar o tema da barata, e não para lustrar a barata, que parece recém-envernizada, tenho que falar delle, com dois eles, como gosta de frisar.

Marilia Gabriela vendo que o cara não baixava a crista, tinha resposta para tudo, aproveitava para se enaltecer, e isso ele faz até quando está por baixo, tirava onda de valente e de destemido, perguntou do que ele tinha medo.  É o tipo de pergunta inócua. É claro que ele respondeu que não tinha medo de nada. Ela insistiu e perguntou se nem de barata ele tinha medo. Ele afirmou que não. Disse que tenho inveja de quem não tem medo de barata, mas aquele cara não me convenceu.

Aliás, não sei o porquê as pessoas escondem que tem medo de alguma coisa, ou de algumas. Não tenho medo de quase nada, talvez até de nada, mas de barata eu tenho. Até finjo que não ligo, se estiver com pessoas de pouca intimidade ou em lugar público, com gente que não conheço. Disfarço, mas não abro a guarda. Pode ser até de noite, mas de longe enxergo aquela coisa se mexendo. Se estiver quietinha, poso até confundir com um pinhão, mas pinhão só dá no inverno, e nessa estação a barata some. Por isso, pinhão e barata nunca vão se cruzar. Então, se estiver no verão, não tem erro. É barata!

Uma vez estava aguardando um amigo para almoçar no extinto Porcão Rio’s. Enquanto bebia uma caipirinha na varanda, na mesa ao lado o apresentador Ratinho dava entrevista a umas jornalistas bastante bonitas. Escutei quando uma delas perguntou do que ele tinha medo. Não entendo que obsessão as entrevistadoras têm por essa pergunta. Vaidoso que só ele, aquela figura um tanto grotesca deu um tapa na mesa e disse que não tinha medo de nada. Por sorte não tinha copos na mesa. Era uma entrevista a seco. De repente, fez cara de quem acabou de se lembrar de alguma coisa e disse que tinha, sim, uma coisa de que tinha medo. De fantasma. Aí, com aquela voz insuportável que não sei como atraia tanta audiência, repetiu algumas vezes que de fantasma ele tem medo. Mas não apenas repetia. Fazia gestos para demonstrar o que era um fantasma. Só faltou desaparecer, o que não seria de todo ruim. Pensei comigo que ele é um fanfarrão, daqueles que quem não conhece compra e paga caro. Dizer que tem medo do que não existe é fácil. Quero ver dizer que tem medo de barata. É preciso ter coragem para ter medo de barata. E isso eu tenho.

Não sei se por causa desse episódio do Ratinho, passei a pensar que não gostaria de me deparar com um fantasma, mas dizem que eles não aparecem para a gente. Então como podemos ter medo dele? Acho que vou perguntar para o Ratinho. Pelo sim pelo não, deixei o fantasma como segundo na lista de medos, caso algum resolvesse me assombrar. E o dia chegou, ou melhor, à noite, que é o horário tanto deles quanto das baratas. Estava sozinho em casa e apareceu uma barata no banheiro. Até aí, fácil. Bastava não tomar banho até a Bel voltar. Ela não tem medo, mas estava fora do país e só voltaria em uma semana.  Até uns três dias dá para disfarçar com perfume. Mais do que isso, só embalsamando.  E tem outra coisa, nem só para banho serve o banheiro. Além disso, ela podia querer conhecer o resto da casa, igual visita de pobre.

Corri contra o tempo, para achar o veneno para baratas, que as pessoas chamam de remédio de barata. Nunca ia ter remédio de barata em casa. Se ficarem doentes não dou uma aspirina. E nem pensar que eu vá fazer uma canja. Por mim, pode morrer que nem no velório eu vou.

Corri para pegar o veneno porque essas danadas têm percepção. Quando a gente sai correndo, elas sabem que não é para trazer comida ou bebida. Por isso, muitas vezes a gente volta e não encontra mais ninguém. Ninguém, no caso, é ela, a barata.

Encontrei o aerossol e ela estava me esperando. Quer dizer, não sei se estava me esperando, mas não saiu do lugar. Cheguei a pensar que já estava morta, talvez de susto. Quem sabe ela tinha medo de gente? Mas nada que é bom dura para sempre. Quando já estava pensando em como ia me livrar dela, vi as anteninhas se mexendo. Era fingimento da diaba. Foi traída pela antena. Igual em filme, quando a pessoa está escondida e toca o celular. Quem está assistindo fica mais assustado do que o dono do aparelho. Antena deve ser o celular de barata, e o dela não estava no modo silencioso.

Mirei o jato na cara dela. Mentira, mirei na direção dela porque não teria coragem de encarar uma barata. Ela é terrivelmente feia. Se não encaro gente feia, o que dirá encarar uma barata feia. Ela ficou encharcada de inseticida, com uma espuma branca cobrindo o corpo. Parecia que tinha saído da Jacuzzi e esquecera o roupão no quarto.  Falei da Jacuzzi só para parecer bacana, mas não tenho Jacuzzi. Era box mesmo.

Depois daquela coreografia que barata faz quando vai morrer. Deita-se de costas, mexe as perninhas, nem sei quantas, mas parece que são umas dez. Abre e fecha as asas. Parece que está fazendo checklist em avião. Maneja os flaps, o leme, enfim, tudo que não pode dar problema no voo. Aliás, se tem uma coisa pior do que  barata é  barata voadora, mas a minha (olha a intimidade) era terrestre mesmo. Vendo que em breve já não estaria mais em nosso mundo, tratei de buscar pá e vassoura para o funeral. Quando volto, vi que meu maior medo havia sumido, dando lugar ao segundo maior medo. O fantasma.

Não pode ser. Em uma mesma noite, encarar uma barata e um fantasma de barata. Se viva não dou conta de enfrentar, imagine, então, desencarnada. Não fazia a menor noção de onde podia estar escondida. Chamar um padre para exorcizar? Não viria. Ligar a TV na Record e pedir ao pastor de plantão que tirasse aquele encosto? Acho que só indo no culto. Sem dinheiro eles não têm boa vontade. Ou melhor, não tem nem vontade.

Nunca me imaginei pedindo para encontrar uma barata, mas, naquela noite, tudo o que eu queria é que ela voltasse, nem que fosse para morrer de novo, só que agora eu não sairia de perto. Ia ficar igual serial killer, que fica perto da vítima esperando para ser preso e ganhar notoriedade.

Ela não voltou e eu não dormi. Passei a noite assistindo filme, de luz acesa e olhando ao redor. Nem me lembro o que assisti. Tanto podia ter sido A Paixão de Cristo quanto O Jumento Gozador. Não prestei atenção mesmo.

A manhã trouxe o sol e as olheiras. Me arrependi de pedir à faxineira que não viesse enquanto estivesse sozinho em casa. Quis aproveitar um pouco de privacidade e agora não sossego enquanto não achar aquela praga. Deixei uma lanterna acesa no escuro para ela achar que é a tal luz que os mortos devem seguir, quando ainda não se deram conta de que o jogo acabou.

Relaxo. Vou para a rua, me sento em um café bastante charmoso, onde todos me conhecem. Faço meu pedido, despejo o cansaço de uma noite assombrada na poltrona que me abraça. Abusado, boto os pés na mesa de centro e levo um susto enorme quando a atendente grita que há uma barata esmagada na sola do meu tênis.


Rio de Janeiro/RJ, 12 de janeiro de 2021 




segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Pandemonia

 

E do nada começa inesperada quarentena. Sem aviso, sem planejamento, sem preparação daquelas que a gente imagina ou fica sabendo através de histórias de aventureiros. Fico pensando como deve estar passando Amir Klink, acostumado a fazer viagens insólitas, atravessando o oceano em barco a remo ou encalhado por mais de um ano nas geleiras antárticas. Para aqueles programas de quem já está com a vida ganha, que ele transforma em fonte de renda, tudo é cuidado em detalhes, o que vai comer, o quanto estocará de mantimentos e o que levará para passar o tempo.

Em casa, não preciso de nada disso. O mercado entrega em domicílio e tenho coisas para fazer por anos, sempre adiadas por falta de tempo, mas agora isso não é mais desculpa. Tempo é o que mais tenho. A diferença é que fui pego de surpresa. Não pensava em me confinar, e só o fiz por insistência da Bel, que temia por minha saúde. Dizia que pertenço ao grupo de risco, que a cada dia recebe mais integrantes, bastando estar vivo para se tornar vítima em potencial do vírus.

Como não esperava que o confinamento fosse durar tanto tempo, botei o computador na mochila, peguei os processos em andamento, e, no meio da tarde, peguei o rumo de casa. Entro no metrô estranhamente vazio e penso em mudar meus horários, para fugir do desconforto que encaro toda noite. Hoje já nem sei como as coisas funcionarão quando isso acabar, e dependendo de como acabar. Não espero mais nada. Deixo a vida correr e procuro não pensar muito nisso.

Sempre brinquei que gostaria de receber pena de prisão domiciliar para aproveitar tudo o que tenho em casa e não aproveito. Dos inúmeros livros que ainda não li ao livro que não escrevi, dos filmes que quero assistir às coleções que pedem por organização. Receitas que não experimentei, meditação, gravação de vídeos, enfim, um bocado de coisas que acreditava dependerem apenas de tempo.

A mulher sugere que eu faça um diário da quarentena. Virginiano incorrigível, não comecei porque quero detalhar tudo o que ocorreu desde o primeiro dia, mas não tenho como me lembrar dos detalhes e não consigo começar do meio. Comigo é assim: ou faço perfeito ou não faço nada, e a segunda opção está ganhando de lavada no confinamento.

Preciso de rotina, que é o que sempre reclamei de ter quando era obrigado, mas, agora, dono do meu nariz, fico mais perdido do que brasileiro quando assiste pronunciamento do presidente.

Estabeleço o roteiro do que vou fazer no dia seguinte, porque planejar e fazer no mesmo dia é desperdício de atividades, afinal não sei quanto tempo ficarei trancafiado dentro de casa. Se gastar todas as ideias hoje não sei o que vou fazer amanhã.

Acordo relativamente cedo, mesmo que seja para dormir depois, faço café e disputo com as cadelas quem tem mais cara de tédio. Acho que elas ganham, porque o objetivo delas depende de mim: querem passear na rua. Mesmo antes eu não tinha ânimo para isso, imagina então agora, que ganhei álibi oficial para não sair de casa. Uma delas é mais inteligente e aponta para a foto do presidente no jornal aberto para que elas façam cocô, na esperança de que eu ache tudo isso um complô dos governadores com a China. Como não arredo da minha decisão, ela caga na cabeça do capitão, engordando os índices de rejeição.

Olho para a estante e percebo que os livros há tempos ultrapassaram os lugares nas prateleiras, empilhados como presos no Brasil. Ao menos não pedem comida, não reclamam do calor e não curram os mais fraquinhos, até porque não devo ter mais nenhum livro fraquinho. O do Diogo Mainardi, que ganhei de inimigo oculto, foi dado para o livreiro da calçada. Por remorso, sempre que vejo o exemplar a cada dia mais desbotado de sol, compro qualquer um outro para que não fique chateado comigo, o que seria injusto, porque não fiquei aborrecido com quem me deu aquela chatice.

Penso que dar ordem a este caos pode ser uma ocupação gratificante. Certamente encontrarei livros repetidos. Rapidamente vejo três exemplares de Um Ano na Provence, de Peter Mayle, perfilados como trigêmeos de classe média, usando roupas idênticas e com postura de abestados.

Assim que acabar de ler a pilha que está na cabeceira da cama me animo e cuido disso, o que deve demorar, já que Bel está infiltrando livros no meio dos que escolhi. Aqui em casa impera o inverso da censura: ao invés de retirar, são incluídos novos livros. Então me vejo agora às voltas com 21 Lições para o Século 21, esperançoso que o século siga adiante. Ontem li a entrevista com Harari, o autor, e parece que ele também está certo disso.

Há anos não assisto televisão, não sei se parei antes que ela me deixasse burro muito burro demais, mas me sinto aliviado por não entender nada do que se refira ao BBB, que penso ter regras mais difíceis do que jogo do bicho. Também fico perdido quando determinada reportagem no Fantástico vira assunto na segunda-feira. Recentemente, um médico que eu julgava ser unanimidade nacional, estava sendo escrachado por ter abraçado um travesti. Soube depois que havia cometido um crime bárbaro (o travesti, não o médico).

Só por isso já seria motivo mais do que suficiente para não readquirir um hábito há tanto abandonado. Penso que seria pior do que voltar a fumar. Pelo som que vem dos apartamentos vizinhos, devo ser o único a não preencher o tempo com a televisão. Aliás, acho que ela mais joga fora do que ocupa o tempo.  

Não deixo o aparelho de TV desligado. Assisto filmes, clipes e algumas reportagens estrangeiras que estejam disponíveis. Gosto da RAI italiana, mas não tenho este canal, o que não faz diferença porque não entendo nada de italiano. Vejo, vez ou outra, pela internet. O idioma italiano é chamado de língua dos anjos, por causa da beleza e da sonoridade. Do jeito que as coisas andam por lá, acho que os anjos têm muito a fazer.

Uma vez me perguntaram como eu me informava, já que não assisto telejornais. Respondi que era exatamente por isso que me considero informado. Com a insistência, falei que me atualizava pelo Intercept Brasil, pela TV 247, pelo Público, jornal de Portugal, pela Folha e mais alguns informativos. Senti que, por precaução, afastaram as crianças de mim. Vai que eu estivesse com fome.

Para não perder a referência, aconselham que mantenhamos o ritmo de antes da quarentena, o que acho difícil porque trabalhava dez horas por dia no escritório, para onde me deslocava de metrô, e almoçava em restaurantes do centro da cidade. Felizmente continuo a trabalhar e me visto para isso. É claro que não uso terno em casa, nem mesmo para videoconferências. Iria parecer artificial e pedante. Vivemos tempos de calamidade pública e há todo um protocolo para o  momento. Às vezes é complicado redigir peças jurídicas com um arfar insistente sob a cadeira. É a cadela que ainda não passeou, e se depender de mim não vai passear hora nenhuma, mesmo tendo cagado na foto do presidente. Não adianta me agradar. Não gosto de insistência.

Devo estar chato mesmo. Não me sinto um prisioneiro, porque posso sair se quiser. A diferença é que não quero. Olho pela janela e vejo perambulando pessoas de certa idade, melhor seria dizer de incerta idade, porque alguns não tem mais nem a plaqueta com a data da inauguração. Não sei o que velho gosta de fazer na rua, mas sei que garantem a necessidade de sair todos os dias, por isso saem do supermercado com o mínimo de coisas, para que acabe logo. Na farmácia perguntam pela embalagem que contenha o menor número de comprimidos. Fazer estoque significa cumprir a quarentena.

Velho adora dizer que já viveu demais, mas, quando a coisa aperta, procura o médico e o padre, para não deixar nenhum dos lados desguarnecidos. Este ano a Semana Santa não teve procissão e nem missa de Páscoa. Não duvido que alguns tenham pedido ao padre um atestado para apresentar no além.

Passei uns dias agoniado, com a internação do primeiro ministro inglês na UTI. Se ele morresse, com o que há de mais avançado ao seu dispor, ia acreditar que era uma questão de tempo para seguirmos o mesmo rumo. Não tenho simpatia por nenhum líder loiro de cabelo arrepiado que fala inglês. Só conheço dois, mas já é o bastante.

Cuidar do espírito estou conseguindo, mesmo não tendo convicção de que ele exista, mas do físico já é mais complicado. Comecei a praticar Qigong, uma suave sequência de movimentos criada na China, mas uma das cadelas, a menos inteligente     , cismou que é uma ameaça e me estraçalhou com selvagens dentadas.

Enfim, vou levando essa pandemia do jeito que der para levar. Um dia acaba, bem ou mal, mas acaba. Dizem que a humanidade será muito melhor depois disso tudo. Parece confortador, mas será que não falaram a mesma coisa para os dinossauros?


Rio de Janeiro/RJ, 14 de abril de 2020  (inscrita no concurso do 247)

domingo, 10 de janeiro de 2021

Bira


Hoje recebo a notícia que ninguém gosta de receber. Um amigo se vai, pelos braços de uma doença infame que alguns chamam de gripezinha e que só assusta maricas. Meu amigo Ubiratan, o Bira, não estava gripado e não estava assustado. Simplesmente adoeceu e morreu. É difícil dizer que em país mais evoluido teria sobrevivido. Pode ser que não, mas, com certeza, seu drama teria sido encarado com seriedade. Aqui, a doença é motivo de chacota do presidente, a ponto de dispensar ministros da saúde que possuam conhecimento médico para empossar um general que nem ao menos faz jus à habilidade de estrategista que diziam ter. Não encomendamos vacinas nem temos seringas e agulhas. Se isso é ser estrategista, levantemos as mão aos céus por não nos metermos em guerra. Já pensou? O grande general, com enorme vivência em pintar meio fio e tronco de árvores, não ter cal suficiente para enfeitar as trincheiras. Seria um vexame.


Bira se foi, e, por mais que há tempos não estivesse com ele pessoalmente, não posso me considerar tão afastado. Tínhamos o mesmo amor pela escrita. Enviava-lhe meus textos e ele me cedia, gentilmente, os originais de seus livros, que chegou a publicar pela Amazon. A Gincana de Jó e O Tempo do Ceifador compunham a trilogia de Barra do Norte, que não chegou a concluir. Barra do Norte era a cidade imaginária, inspirada em sua Barra do Pirai. Me diveria com suas letras, como me divertia muito com sua convivência, no tempo em que trabalhamos juntos.


Éramos bancários e, no horário de almoço, batíamos perna no shopping center vizinho à agência. De camisa social e gravata, postávamo-nos diante das lojas e os clientes, achendo que ali trabalhávamos, peruntavam o preço de algum produto exposto na vitrine. Respondíamos com valores absurdos. Não me recordo da moeda da época, pois nosso país é pródigo em fazer reforma monetária, mas, para exemplo, posso citar o caso de uma agenda, tarzendo para valores atuais.


Uma mulher muito jovem, aparentando pouco mais de dezoito anos, perguntou o preço de uma agenda, ao que respondemos que custava trezentos reais. Como se tratava de uma agenda muito simples, é natural que a candidata a freguesa se assustasse e nos questionasse se não estava absurdamente cara. Com a maior cara de pau, que ele conseguia fazer com mais maestria do que eu, respondíamos que, infelizmente, aquela papelaria não era para duros. Se ela não tinha dinheiro, que procurasse outro lugar, quem sabe, o mercado popular, nome bonito para o camelódromo de Volta Redonda.


Quando estávamos mais inspirados, íamos para as Lojas Americanas e circulávamos entre as gôndolas (prateleiras, para que ninguém pense que íamos para Veneza durante o horário de almoço). Por sorte, sempre aparecia alguém, com a fisionomia mais cândida que já havíamos visto, e perguntava o preço de um liquidificador. Nunca entendi essa tara por liquidificadores até o meu começar a espirrar vitamina para todos os lados. Pois bem, assim que a pobre coitada  (quase sempre era mulher, o que para nós, covardes, trazia um alívio e diminuia a chance de voltarmos para a agência com o nariz sangrando) acabava de perguntar, respondíamos de maneira bastante inusual para um vendedor. Aliás, nas Lojas Americanas, só quem usava gravata eram os gerentes, por isso achavam que éramos autoridades ali. Sendo assim, os clientes achavam que teriam respostas mais qualificadas, portanto não entendiam nada quando respondíamos, sem alterar nossa fisionomia: “Se a senhora que está interessada não sabe o preço, por que nós haveríamos de saber?” É claro que não ouvíamos coisas mais agradáveis, mas era esse o objetivo da farsa.


Bira tinha o humor politicamente incorreto, talvez por isso gostasse tanto dele. Certa vez passamos diante de uma loja no shopping, que estava fechada, com diversas fileiras de cadeiras encostadas umas na outras, sem espaço para as pernas, o que era normal. Já que estava apenas armazenadas. Perguntei ao Bira o que estavam projetando fazer ali, e ele,  de imediato, respondeu que era um cinema que a ferrovia estava fazendo para os mutilados por atropelamento pelos trens.


Bira não tinha compromisso com a opinião dos outros, apenas com o humor. Espírita praticante, me dizia que o outro lado não era tão condescendente com as pessoas que levavam uma existência pesada. Não que fossem condenados à danação eterna, mas passariam por um trote de fazer inveja às mais sádicas escolas militares.


Tenho muito a falar do Bira, mas não hoje. Aliás, não sei de onde tirei forças para trazer tantas recordações do querido amigo. Agnóstico, não sei se um dia o reencontrarei, mas tenho certeza de que estará comigo enquanto eu estiver neste plano. O que virá depois, só saberemos quando vier o depois.


Adeus Bira, muito ainda tenho a falar de você. Quem sabe quando elabora melhor esta perda.



Rio de Janeiro/RJ, 10 de janeiro de 2021


sábado, 9 de janeiro de 2021

Café (en español)

 

Me despierto mui temprano, todos los dias, no importa a la hora em qui tenha me acostado. Es um habito relativamente nuevo.  Antes, só me despiertava  temprano si houvesse necessidade, y en los finales de semana compensava durmiendo hasta mas tarde, lo qui hoy no consigo mas.

Me gusta mucho la vida, y, aunque durmiendo tambien esteja vivo, no es la misma cosa. Me gusta mirar per la ventana y mirar el dia si abriendo para los mijares di acontecimentos qui irán llenar las hojas de los periódicos  y las manchetes de los periódicos digitales, tan lugo ocueran
Me gusta oir los sonidos de la mañana. Los perros ladrando, casi siempre sin motivo. Los porteiros hablando, sin cualquer compromisso con los limites físicos de las puertas de suyas edificaciones. Las vassoras esfregando com preguiça las aceras. Los buses rugindo como si fossen volar, para, em seguida, hacier uns frenada tan barujenta cuanto assustadora.
Despiertado, ya no me recuerdo del aconchego de la cama, qui pudo vir a sentir falta mas tarde, cuando me acuesto no sofá de la officina, nim que sea por alguns minutos.
De todas las sensaciones, la qui mas mi recuerda que la vida esta llamando es el olor del café. Chaleras, bules e cafeteras parecem disputar cual olor mas flerte será espalhado por las cercanias. Antes qui la locura do cotidiano se fije, el  olor del café predomina, y traz um alento para quien no si anima a viver, por um dia más.
Café transcende las mañanas. Muchas veces voy durmir pensando em lo café del dia seguinte. No es um vicio, visto que vicio solamente décimos do qui nos hace malo. Si bien qui hay gente qui es viciada em sexo e necesita frecuentar clinica para si sanar. Si yo fosse viciado em sexo jamas tentaria tratamento. Talvez buscase me cuidar meljor, para puder dar cuenta de lo vicio.
Café es gusto, bueno gusto. Durante lo dia bebo mucho café y observo las personas qui convido para tomar um café comigo. Algunas recusam diciendo qui já beberan café demas naquele dia, otras hablan qui só beben hasta el comienzo de la tarde, porque de lo contrario no logrará dormir a la noche. Me creo tan estraño isso. Como lo café bebido a las cuatro de la tarde pude interferir em el sueño? No será lo qui vien después del café que atrapaja durmir?
La persona que bebe alguns chávenas de café durante el dia, ni tantas as, trabaja em um trabajo qui no lhe gusta, examina cuentas que no logrará pagar, habla com gente qui no tiene conversación, vai para la casa apretado en lo transporte colectivo, mira jornal de la TV e si queda idiota, no a punto de no gustar de la família, que apenas suporta, y, porque apenas suporta, piensa como sera pesaroso suportar lo final de semana qui si acerca. Ainda bien qui em viernes vá se emborrachar. Será mismo el café que saca el sueño?
Café no me saca el sueño. Lo qui me saca el sueño es la falta de sueño, mas si yo hablar eso para el doctor o para la psicóloga me van dicer que falta de sueño tem um motivo. También creo que há, solamente no sei cual. Si eles descbren van mi cuentar, entonce no necessito mi preocupar, já qui preocupacion saca el sueño.
Creo qui no necessito dormir tudo de una vez. Si tengo uma cota de sueño y usar da manera que achar mejor dá em la mismo. Yo pudo tener un  numero de horas para hacer uso durante la semana, y la division es por mi cuenta. Si bien qui el ideal debe ser por dia, para no quedar arrastando el saldo e no tener como pagar. Es como uma tarjeta, qui la gente parcela pensando em presente e si lastima en el futuro. No me imagino chegando em el sábado y ainda necessitar de treinta horas para dormir.
Mi abuela dormia aos pocos. Na suma, debia dormir mas de ocho horas por dia, mas no de uma vez. Si acuestava temprano (o si recojia temprano, como decian las personas anticuas como ela), despiertava cuando los otros ainda no haviam dormido, provocava uma reflexión, qui todos acudiam, já qui quien recien si despierta debe ter buscado sabedoria em el sueño, e despues regressava para la cama.
Ella despiertava bien temprano, probaelmente para hacer café, rehacia  su cuenta de horas de sueño a cumprir e planeava como ia a usar. Como era mui religiosa, ningun sabia si estava orando o dormindo. Na duvida, no la molestaban. Saberian com quien estaba a hablar? Si fosse um santo de baja jerarquia, daqueles qui so si santificaran por estar en hogar errado e na hora errada, talvez no habia majores consecuencias, porem ella parecia ser influente em el reno divino e no sacaria tempo oindo reclamación de quein si sentio injsutizado por enfrentar, acurrientado e de cabeza para bajo, um togre hambriento en el Coliseo.
Creo que ella hablava mismo era com Elle, qui, por induljencia, o poca paciência, manteve ella acá por ciento y siete años, bonita como deben ser la abuelas e conformada como los longevos, a pressentir que el tiempo del café está por si terminar.
 

Hecho en 30 MAR 2020 - Clase de Español con Mirna Passos

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Séries

 

De tantos males que atribuem à televisão, dá para acreditar que o diabo a inventou. Sedentarismo, desagregação da família, alienação mental, problemas de visão, de audição, enfim, tudo o que se pode  pensar de ruim, a televisão tem parte nisso. Exageros à parte, de fato, não é de todo errado pensar assim. Há mais de dez anos não sei o que é assistir a um programa de televisão. O aparelho continuo tendo, mas para ver filmes, vídeos no Youtube, noticiário independente, putaria e... séries.

Sim, é isso mesmo. Antigamente as pessoas assistiam novela e tinham vergonha de dizer. A desculpa mais esfarrapada era a de que estava passando pela sala e deram uma olhadinha rápida no que estava passando, da mesma forma como faziam com o programa do Silvio Santos, aquele recordista em anos puxando saco de presidentes, eleitos ou não.

Mas, voltando às séries, parece que temos a sucessora legítima das novelas. A vantagem é que a gente faz nosso próprio horário. Não dá para maratonar uma novela, tipo ficar o fim de semana inteiro assistindo. Novela é compromisso, geralmente em horário em que as pessoas já estão meio abestadas com o Jornal Nacional, ou, se for no horário das seis (que nunca começa às seis), já vai apalermada para o noticiário televisivo.

A variedade de séries é enorme. Dá para escolher pelo tema ou mesmo pelo elenco. As que assisto, levo em conta o tamanho. Não me animo a entrar em uma série que já está na quinta temporada, com quinze episódios cada, com uma hora de duração. Já fiz isso com Breaking Bad. Suits e Crown. Entrei no começo, então não tive como escapar depois. Virei uma espécie de cúmplice e não quis abandonar no meio do caminho.

O pior da série é a cobrança que nos fazem, quando ainda não assistimos àquela que nos foi indicada. Quase sempre, a reação de incredulidade faz pensar que cometemos um crime, ou, no mínimo, um sacrilégio. Tem uma coisa interessante, que já reparei, é que quando alguém nos pergunta se assistimos tal série, e dizemos que “ainda” não (o ainda é para garantir um tratamento civilizado e não ser encarado como um ET), o interlocutor deixa de ouvir nossa preferência. Se a desculpa dada foi a de que estamos assistindo outra, há o risco de ouvir que esta série é horrível. As poucas vezes que sugeri uma série, acabei escutando que é ruim, mal feita e por aí vai. Me sentindo no direito de fazer uma simples perguntinha, indago se a pessoa já assistiu, para criticar com tanta propriedade. A resposta é sempre não, com a justificativa de que não assiste porcaria. Queria ter essa percepção, de saber como as coisas são sem ao menos experimentar.

É claro que isso não se aplica às eleições. Votar em candidato historicamente ruim, com a ilusão de que precisamos dar uma chance a nós mesmos é mais grave do que assistir a uma série de humor dirigida pelo Carlos Alberto de Nóbrega, da Praça é Nossa. É a certeza de fazer uma péssima escolha.

As séries, assim como as novelas, tem grande poder de influência. Se ainda não fiz tudo o que vi nas séries, foi por falta de ousadia. Não me vejo fabricando metanfetamina ou traficando cocaína. Talvez não leve jeito para a coisa. Minha filha tem uma capacidade incrível de identificar os artistas através de outros trabalhos, mesmo que seja de anos atrás. Ela vê o personagem e logo diz onde ele trabalhou. Não me serve muito, porque as referências anteriores não conheço ou não assisti, mas acho interessante quando ela diz que a vovó de uma série foi piranha em um filme, ou quando identifica um padre que já fez papel de serial killer. Nas séries brasileiras, volta e meia ela acha alguém que trabalhou na Malhação. Aliás, Malhação tem tantos anos que é difícil achar quem não trabalhou lá. Até a Suzana Werner fez o episódio de despedida com a presença do Ronaldo, ex-jogador de futebol e hoje gordo. Não sei o que ele faz agora, então para mim a referência é simplesmente gordo, o que em tempos de quarentena não é a melhor referência para identificação.

A série da rainha, Crown, é considerada a mais cara das produzidas pela NETFLIX. Nunca entrei no Palácio de Buckingham, mas tenho certeza de que é exatamente igual ao que aparece na série. Em tempos de dureza, será que a NETFLIX não molhou a mão de alguém da família real para fazer as tomadas no local? Aquele príncipe herdeiro não faz nada. Deve ser fácil corromper o orelhudo. Qualquer coisa, ele diz que é estímulo à arte. De quem acha que caça à raposa é tradição cultural a gente pode esperar tudo.

Existe uma série catalã, chamada Merli, que conta a história de um professor de filosofia que tem o nome da série. É boa, tem duração limitada, os artistas são bons, Barcelona é maravilhosa, ou seja, tem tudo para maratonar, mas alguma coisa me impede de assistir tudo. Talvez encontre resposta na filosofia, mas aí deve ser mais fácil continuar vendo a série.

Série não é uma coisa assim tão recente. Já existiu Perdidos no Espaço, Zorro, Batman, A Feiticeira e Jeannie é um gênio. Estas duas eram concorrentes. Havia quem gostasse da bruxa e outros gostavam da gênio que morava na garrafa. Jeannie ganhava pela sensualidade. Usava roupa de piriguete e tinha comportamento de piriguete. Se esfregava no marido, mas quase sempre era para ele fazer alguma coisa. Nunca entendi por que alguém que tem tanto poder precisa usar de artifício para conseguir algo>

As séries demoram muito para retratar fatos. Pablo Escobar  morreu há anos e só recentemente foi feita a série com a vida dele. Tudo bem que Bolívar não podia ter sido lançada na época em que viveu. Nem televisão tinha naquele tempo, mas alguns acontecimentos já podiam virar série. A pandemia é fato recente e já tem nome de série. Não precisa nem quebrar a cabeça e nem traduzir para o Brasil. Se fosse no SBT, o patrão ia botar algum título bizarro, como “A ameaça comunista” ou outro que puxasse o saco do presidente negacionista.

E por falar em pandemia , penso que essa praga serviu para turbinar a indústria das séries. Não sei se os artistas vão se contaminar, se haverá perdas no elenco, se a audiência vai se rebelar, enfim, tudo é muito indefinido. A vida é indefinida, assim como as séries. Vamos continuar vivendo, sem especular se vai haver nova temporada. Não vamos maratonar. O melhor é deixar que as coisas corram no seu tempo. No final, a gente decide se vale a pena continuar. Geralmente vale.

 

Rio de Janeiro/RJ, 07 de janeiro de 2021




quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Lara


Há anos, o Dia de Reis tem um significado maior para mim. É o dia do aniversário de minha filha Lara. Não pensava em ser pai, como também não pensava em não ser. Era algo que, se tivesse que acontecer, aconteceria, como, de fato, aconteceu. Eu e a mãe dela decidimos não saber o sexo nas sessões de ultrassonografia. Ali bastava saber se estava tudo bem, e, por sorte, fazíamos os exames com regularidade, o que bastou para que fosse detectado certo risco de que a gravidez não fosse adiante. Um simples procedimento cirúrgico, porém, resolveu a situação e a menina aguentou mais uns meses, esperou o Natal e a Passagem de Ano para não atrapalhar a festa de ninguém. Até hoje ela tem esse cuidado com os outros, mesmo que não seja a melhor opção para a sua vida. É questão de temperamento, mas acho que um pouquinho de egoísmo, o suficiente para pensar em si, não seria de todo mal.

Deixou, então, para enfeitar minha vida no Dia de Reis, decerto sabendo, mesmo de onde estava, que esta festa não é tão importante nas cidades. Nem feriado era, mas para mim foi, porque tive licença do trabalho. Lembro que na madrugada da manhã agendada para a cesariana, falei para a mãe dela se  levantar para recebermos a menina. Tinha certeza de que seria uma menina. Tinha tanta certeza quanto vontade, o que pode parecer estranho para alguns homens, que torcem pelo contrário. Acho que hoje nem mais é assim. Como não seria de imediato, ainda fiz minha última aula de violão, até a retomada dezoito anos depois. Acabei não engrenando na música, acho que não levo muito jeito, como também não sei se levo jeito para ser pai. Gosto de ser, e isso deve ser positivo. Não há curso para ser bom pai. Aí é questão de sorte, do filho.

A forma como cuidamos de nossos filhos diz muito sobre nós. Queremos que seja bem sucedido, famoso, invejado? Será que não é nós que queríamos ser tudo isso? É comum pais se projetarem nos filhos, para que estes compensem suas próprias frustrações. É comum pais afirmarem que o importante é que o filho seja feliz. É isso mesmo? E se felicidade para o filho for assumir uma relação homossexual? E se a profissão escolhida for o teatro? Há muitos conceitos de felicidade que nem sempre são bem vistos por pais que queriam ver nos filhos sua réplica melhorada.

Não me esqueço de um diálogo entre pai, vivido pai e filho em uma novela de televisão. O filho não queria seguir a carreira que o pai  desejava, e, depois de muita discussão, convence-o a aceitar que seja piloto de helicóptero. O pai, então, diz que ele deve ser o melhor piloto de helicóptero do Brasil, achando que assim a discussão terminava bem para os dois. Nunca me esqueço da resposta do filho, indignado com essa cobrança de que deva ser o melhor. Ali fica claro que o pai não deseja a felicidade sob a ótica do filho, mas sob a sua, que é o sucesso.

É claro que não fazemos por mal. Pai nenhum quer ver o filho tratado com preconceito de posição social, de sexualidade, de profissão, de ideologia, etc. Mas, se o filho, dá um foda-se para isso, já deveria ser o suficiente para que relaxássemos e o deixasse seguir a vida que escolheu. Se não escolher vida nenhuma, talvez precise de encorajamento e de aceitação. Não muito mais do que isso.

Bem, minha Lara deu cria e me deixou tão feliz quanto no dia em que ela nasceu. Os netos deveriam ser a extensão melhorada dos filhos, para que quando os estragássemos, e somos bons nisso, ainda sobrasse coisa boa.

Este ano, não passaremos juntos seu aniversário. Esse vírus tem uma caixinha de maldade que parece ser interminável. Há meses só faço colecionar perdas e adiamentos, sabe-se lá para quando. Um dia isso termina, e espero estar aqui para ver. Muitos não puderam esperar. Outros tantos acharam que não era nada e para o nada foram.

É aprender com o novo normal, mesmo a contragosto. Não gosto de falar ao telefone, mas gosto menos de não ouvir a voz de quem amo. As videochamadas ainda não transmitem o cheiro e o calor, mas os olhos demonstram afeto.

É aprender com as mudanças. Minha vida mudou quando fui pai, e até hoje não ainda não peguei o jeito certo. Mas as tentativas já nos fazem melhor. Não podemos deixar de tentar. Viram como já aprendi a mandar recado para filha?

Um beijo, Larinha.

 

Rio de Janeiro/RJ, 06 de janeiro de 2021