quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Lara


Há anos, o Dia de Reis tem um significado maior para mim. É o dia do aniversário de minha filha Lara. Não pensava em ser pai, como também não pensava em não ser. Era algo que, se tivesse que acontecer, aconteceria, como, de fato, aconteceu. Eu e a mãe dela decidimos não saber o sexo nas sessões de ultrassonografia. Ali bastava saber se estava tudo bem, e, por sorte, fazíamos os exames com regularidade, o que bastou para que fosse detectado certo risco de que a gravidez não fosse adiante. Um simples procedimento cirúrgico, porém, resolveu a situação e a menina aguentou mais uns meses, esperou o Natal e a Passagem de Ano para não atrapalhar a festa de ninguém. Até hoje ela tem esse cuidado com os outros, mesmo que não seja a melhor opção para a sua vida. É questão de temperamento, mas acho que um pouquinho de egoísmo, o suficiente para pensar em si, não seria de todo mal.

Deixou, então, para enfeitar minha vida no Dia de Reis, decerto sabendo, mesmo de onde estava, que esta festa não é tão importante nas cidades. Nem feriado era, mas para mim foi, porque tive licença do trabalho. Lembro que na madrugada da manhã agendada para a cesariana, falei para a mãe dela se  levantar para recebermos a menina. Tinha certeza de que seria uma menina. Tinha tanta certeza quanto vontade, o que pode parecer estranho para alguns homens, que torcem pelo contrário. Acho que hoje nem mais é assim. Como não seria de imediato, ainda fiz minha última aula de violão, até a retomada dezoito anos depois. Acabei não engrenando na música, acho que não levo muito jeito, como também não sei se levo jeito para ser pai. Gosto de ser, e isso deve ser positivo. Não há curso para ser bom pai. Aí é questão de sorte, do filho.

A forma como cuidamos de nossos filhos diz muito sobre nós. Queremos que seja bem sucedido, famoso, invejado? Será que não é nós que queríamos ser tudo isso? É comum pais se projetarem nos filhos, para que estes compensem suas próprias frustrações. É comum pais afirmarem que o importante é que o filho seja feliz. É isso mesmo? E se felicidade para o filho for assumir uma relação homossexual? E se a profissão escolhida for o teatro? Há muitos conceitos de felicidade que nem sempre são bem vistos por pais que queriam ver nos filhos sua réplica melhorada.

Não me esqueço de um diálogo entre pai, vivido pai e filho em uma novela de televisão. O filho não queria seguir a carreira que o pai  desejava, e, depois de muita discussão, convence-o a aceitar que seja piloto de helicóptero. O pai, então, diz que ele deve ser o melhor piloto de helicóptero do Brasil, achando que assim a discussão terminava bem para os dois. Nunca me esqueço da resposta do filho, indignado com essa cobrança de que deva ser o melhor. Ali fica claro que o pai não deseja a felicidade sob a ótica do filho, mas sob a sua, que é o sucesso.

É claro que não fazemos por mal. Pai nenhum quer ver o filho tratado com preconceito de posição social, de sexualidade, de profissão, de ideologia, etc. Mas, se o filho, dá um foda-se para isso, já deveria ser o suficiente para que relaxássemos e o deixasse seguir a vida que escolheu. Se não escolher vida nenhuma, talvez precise de encorajamento e de aceitação. Não muito mais do que isso.

Bem, minha Lara deu cria e me deixou tão feliz quanto no dia em que ela nasceu. Os netos deveriam ser a extensão melhorada dos filhos, para que quando os estragássemos, e somos bons nisso, ainda sobrasse coisa boa.

Este ano, não passaremos juntos seu aniversário. Esse vírus tem uma caixinha de maldade que parece ser interminável. Há meses só faço colecionar perdas e adiamentos, sabe-se lá para quando. Um dia isso termina, e espero estar aqui para ver. Muitos não puderam esperar. Outros tantos acharam que não era nada e para o nada foram.

É aprender com o novo normal, mesmo a contragosto. Não gosto de falar ao telefone, mas gosto menos de não ouvir a voz de quem amo. As videochamadas ainda não transmitem o cheiro e o calor, mas os olhos demonstram afeto.

É aprender com as mudanças. Minha vida mudou quando fui pai, e até hoje não ainda não peguei o jeito certo. Mas as tentativas já nos fazem melhor. Não podemos deixar de tentar. Viram como já aprendi a mandar recado para filha?

Um beijo, Larinha.

 

Rio de Janeiro/RJ, 06 de janeiro de 2021

 


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Esperança


No dia 31 de dezembro de 2020, Bel me chamou para ver um inseto que entrou pela janela de seu escritório. Ela não tem um pingo de medo, mas as cachorras estavam inquietas. Como diziam os antigos, elas estavam com a cachorra. Era assim que se falava de quem estava arrumando confusão. Já ouvi também dizerem que alguém estava com a macaca, quando se tratava de alguém mau-humorado. Por que estas expressões citam somente as fêmeas? Preconceito vem de longe.

Quando fui ver o tal bicho, torci para que não fosse barata. Embora barata todo mundo saiba como é, podia ser um primeiro de abril fora de época. Sei lá, quarentena tem dessas coisas. Felizmente não era barata, era uma Esperança. Para quem não sabe, ou não identifica pelo nome, Esperança é uma espécie de gafanhoto sem a cara assustadora, verde como um palmeirense e em formato de folha. Mimetismo como esse nunca vi. Não sei quem é o predador dele, talvez seja um pássaro, mas vai ser difícil achar aquele alface no meio da árvore. Se verdura emagrece, verdura que se esconde deve ser ainda mais eficiente.

Dentro de casa, porém, ela estava bem vistosa, tanto é que as cachorras se alvoroçaram todas. Tentamos fazer com que ela fosse embora pela janela, mas ela não se mexia. Estava no teto, de cabeça para baixo, como se fosse colada. Acho que as patinhas dela tem sucção, mas não entendi o que ela pretendia ficando ali. Achei um jeito bem sem graça de festejar a passagem de ano, mas cabeça de inseto é diferente de cabeça de gente. Tenho uma amiga que diz que algumas mulheres têm cara de barata, mas é só a cara. A cabeça deve ser de gente mesmo. Enfim, tentamos de tudo, mas a Esperança bateu o pé e não saiu, quer dizer, não bateu o pé porque senão caia do teto.

Um ano tão encrencado como foi 2020 merecia terminar com Esperança, e desta vez foi para valer. Não teríamos esperança apenas no coração, mas no teto também. Deixamos ela para lá e fomos cuidar de coisas mais importantes. Aí descobrimos que não tínhamos nada de tão importante para fazer naquele último dia do ano. Queima de fogos na praia não ia ter, e se tivesse não iríamos. Ceia hoje em dia é tão fácil de preparar quanto fazer um miojo. Pega o tender, tira da embalagem, embrulha no papel alumínio e deixa no forno até sentir cheiro de ceia. Farofa vende pronta e espumante a gente começa a beber bem antes da meia noite. Na hora da virada abrimos outra, se ainda tiver.

A gente se cumprimenta, beija, brinda, fala um monte de bobagem, não faz promessa nenhuma, porque parece que aí mesmo que a gente não cumpre. Ficamos olhando o céu, os fogos de artifício que alguns ainda soltam, escuta a cachorrada ganir, menos as nossas, que são mais barulhentas e talvez por isso não se incomodam. Comemos a ceia, bebemos mais um pouco e depois um pouco mais. Pensamos que é bom ter um fim de semana emendado, para não nos preocuparmos com a ressaca. Dormimos não sei que horas e sem saber como fomos para a cama. Por sorte não dormimos pendurados no teto. A Esperança já havia ocupado o lugar.

No dia seguinte, o primeiro dia do ano, não encontramos a Esperança. Ficamos felizes porque as árvores estavam cheias de folhas e ela poderia se esconder dos pássaros. Ao menos começaria 2021 sem susto.

As cachorras começaram a latir de novo e fomos ver qual a falta de motivo para a barulheira. Elas só latem sem motivo, então temos que descobrir o que não aconteceu para justificar os latidos. Só que desta vez elas tinham razão. No tapete havia uma Esperança morta. Ficamos decepcionados e cismados. Dizem que a Esperança é a última que morre, mas desta vez ela foi antes de todo mundo. De que mundo, afinal?

A esperança de 2021 foi para o lixo, literalmente. Jogamos a Esperança na lixeira e entendemos isso como um sinal.  Quem sabe não é hora de não mais ter Esperança e partir para a luta. Não creio que a morte da Esperança tenha sido em vão.


Rio de Janeiro/RJ, 05 de janeiro de 2021





segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Agenda

Mais um ano se inicia e mais uma vez prometo que não vou me afogar em compromissos lembrados na última hora. Conselhos de quem gosta de mim e, principalmente, de quem não gosta de mim são unânimes em dizer que devo usar agenda. Devo explicar porque quem não gosta de mim também me dá o mesmo conselho que me dão os que gostam. Pessoas que não gostam da gente adoram dar conselhos, principalmente os mais básicos, como usar uma agenda. Assim, querem fazer com que nos sintamos verdadeiros idiotas, por não saber de algo tão elementar. Acho muita graça de quem pensa que me ofende desse jeito. Não uso agenda porque sou desorganizado, porque me esqueço, porque gosto de viver perigosamente e, talvez o motivo mais relevante, porque sou perfeccionista.


Tenho orgulho de ser virginiano, e tenho ascendente em Virgem, para piorar. Gosto de passar a ideia de que faço tudo com perfeição. Só quem me conhece sabe que não é bem assim. Até tenho vontade de fazer tudo perfeito, mas, como não consigo, acabo fazendo de qualquer jeito, que só eu entendo.


Este ano comprei uma agenda e ganhei outra. A que comprei tem a semana inteira em duas páginas. A ideia é abrir a agenda e ter uma visão completa da semana. Aprendi isso em um dos quarenta e três cursos sobre organização que já fiz. Ah, acabei de me inscrever em mais um. Em tempos de cursos na internet, a gente acaba se inscrevendo em vários, mesmo que para não concluir. Ainda bem que estão sempre em ofertas que vão vencer em algumas horas. Aquele maldito reloginho decrescente na tela me dá muita aflição e acabo não resistindo. O desconto dado é tão expressivo quanto mentiroso. A cara dura de quem oferece não se acanha em dizer que um curso desses custa em torno de dois mil reais, mas eles estão oferecendo por 249 reais, sendo que para quem se inscrever naquele dia o custo total será de 27 reais, podendo ser pago em dez parcelas de 2,70. Não dá para resistir, mesmo sabendo que é mentira.


Voltando à agenda semanal, a desvantagem é que os campos para anotações são muito pequenos. Então, coloco uma sigla na agenda semanal e descrevo com detalhes na agenda que ganhei, com uma página para cada dia. Nem sempre estas siglas são de fácil assimilação. Se é algo que anoto em data distante, pode acontecer de não me lembrar do que se trata, quando chegar o dia, por isso descrevo na agenda diária. Há atividades que faço todos os dias, mas, para ficar parecendo agenda de gente muito ocupada, caso algum indiscreto resolva espiar, repito a sigla diariamente, caprichando no tamanho das letras, para parecer que é muito importante. LCC é uma das siglas que ocupam todas as datas na agenda semanal. Esta nem preciso descrever na agenda diária porque não tem como esquecer. O significado de LCC é “Levar Cachorro para Cagar”. Não precisava estar na agenda porque as cadelas me lembram com uivos e saltos. Para quem não sabe, advinhar o que elas querem deve ser mais difícil do que descobrir o que é LCC.


Outra vantagem das siglas é diferenciar pessoas com o mesmo nome. Existem levas de nomes iguais, acho que por época de nascimento. Antigamente, as novelas eram mais influentes e os personagens bonitos ou ricos emprestavam o nome para os bebês daquele período. O nome cabe na linha da agenda, mas o sobrenome complica um pouco.  Então escrevo o nome e coloco uma letra após, identificando uma característica, física ou comportamental. Asssim, Fulano de Tal passa a ser Fulano “P”, se for gordo. Usar “G” seria óbvio demais, então optei por “P”, de pesado. Quando é gago, não uso “G”, o que seria muito evidente. Escrevo “R”, de rateando, e por aí vai. Se me perguntarem o que significam as letras, digo que “P” é de preferencial,  que “R” é de relevante. Imaginação é o que não falta. Minha avó contou que o marido dela, meu avô, foi tirar medidas para um terno e viu quando o alfaiate escreveu, nas anotações, a sigla PC. De tanto insistir, acabou sabendo que PC era “pouco corcunda”. Não se ofendeu por dois motivos: era um homem muito bom e o terno encaixou direitinho, até na discreta corcunda.


Outra coisa que me intriga nas agendas é a parte de identificação do dono. Não bastasse apenas o nome, o telefone e o e-mail, há campo para endereço, tipo sanguíneo, CPF, Identidade, conta bancária, nomes dos contatos mais próximos etc. Quem fizer a loucura de preencher todos esses dados e perder a agenda, pode estar certo de que vai ser vítima de algum tipo de fraude. 


A agenda, para muitos, dá um ar de importância quando alguém quer marcar uma visita ou algum compromisso. A expressão “vou consultar minha agenda e te retorno” é clichê intragável. Tenho muita sorte com médicos, dentistas, psicólogos que me atendem. Quando quero marcar consulta, na hora já verificam a agenda e confirmam a data, após me apresentarem as opções. Nunca os encarei com menor importância por isso, muito pelo contrário.


E aquelas agendas que possuem campo para planejamento do ano? Ou reservam dezenas de páginas, como se fôssemos criar um mundo, e dizem que mesmo para isso não se leva mais do que sete dias, com mais um de descanso, ou então disponibilizam umas míseras linhas, talvez imaginando que o mundo vai acabar antes do fim do ano.


Durante um tempo ministrei treinamento e em um dos cursos orientava para o uso de agenda para todos os papéis que desempenhamos na vida – profissional, cônjuge, pai, filho, amigo, e por aí vai. A ideia era a de que para cada papel, fossem descritas, detalhadamente, as ações que seriam realizadas, até mesmo namorar. Há muitos anos, participei de um seminário com o psicanalista José Ângelo Gaiarsa. Ele, muito mais explícito, dizia que devíamos marcar dia e hora para o sexo. A lógica era a de que coisas óbvias são facilmente esquecidas.


Não sei se ele anotava. Na época, creio que não precisava, mas como nos deixou aos noventa anos, pode ser que em dado momento não quis correr o risco de adiar mais nada. Ter planos nos levam longe e fazer com que aconteçam nos levam de forma mais feliz. Se para isso a agenda serve, que seja meu instrumento de felicidade (F).



Rio de Janeiro/RJ,  04 de janeiro de 2021


domingo, 3 de janeiro de 2021

China

 

Se quem entende do negócio não se entende, o que dirá de quem não entende nada. Desde que esse vírus chegou no Brasil, a confusão foi formada. E a coisa parece que chegou de surpresa. O ano começou, o Carnaval chegou e a gente nem se preocupou. Disseram que era coisa de chinês e por lá mesmo ficaria. Quanta coisa acontece na China e a gente não fica sabendo como termina. Quem sabe como termina o campeonato chinês de futebol? Ninguém. Acho que nem eles. Aliás, será que tem futebol na China? Estádio tem de montão, mas eles usam para execução coletiva. Aquele monte de chinês ajoelhado, um soldado de cada lado e um atrás com o fuzil apontado. Dizem que tem dia que são mais de 500 execuções, o que significa que tem 1.500 soldados ali. Se botasse essa tropa para trabalhar, talvez nem tivesse tanto crime e não precisaria matar tanta gente. Mas dizem que isso é popular. Até transmitem pela televisão.

A China sempre foi um mistério. Nem tanto por eles, mas pela distância mesmo. Hoje até é mais fácil saber o que existe por lá. Tem Internet e avião está mais em conta. Quer dizer, quando tinha avião para lá, porque agora está tudo parado. Era criança e aprendi que na China quando alguém é executado a bala é cobrada da família. Nunca soube se isso era verdade, mas acredito que não. E se a família se recusasse a pagar? Seriam executados? Aí o prejuízo seria maior, porque seriam mais balas e não teria ninguém a quem cobrar. Dizem que os chineses vendem órgãos dos condenados, olhos principalmente. Não sei se já descontam o preço da bala e devolvem o resto para a família. Se bem que olho de chinês é pequeno e não deve valer grande coisa. Não serve em qualquer um. Talvez em japonês ou coreano.

A China faz de tudo, de tênis a foguete. Não se pode dizer que é falsificação, já que eles escrevem que é fabricado lá. Mas é mesmo esquisito. Recentemente, saiu a notícia de que a China abolira o hábito de comer cachorro, mas lá as coisas não são bem claras. Não se abole um hábito por decreto. Pode se proibir por decreto, mas hábito some aos poucos e nem todo mundo larga ao mesmo tempo. Pelo sim pelo não, a cachorrada tem motivos de sobra para ainda não andar tranquila pelas ruas da China. Aqui já pode andar à vontade, porque há tempos não se fala mais em carrocinha. Acho que nem existe mais. Cachorro agora é capturado em fotografia para rede social, ou vídeo, se fizer algum tipo de gracinha, qualquer uma, mesmo destruir sofá.

Uma entidade chamada China Rescue Dogs, preocupada com possível recaída dos chineses, enviou milhares de cachorros da China para países onde estivessem a salvo, sendo que a maioria foi para Estados Unidos e Canadá. A confusão nos aeroportos foi grande, e não podia se esperar outra coisa. Para começar, a cachorrada foi despachada de qualquer jeito, sem lugar certo para ficar. Como medida de economia, a tal entidade pediu que passageiros que estivessem viajando para aqueles países levassem os cães como se fossem seus. Mesmo com a recomendação que se faz em qualquer aeroporto do mundo, de não levar qualquer bagagem que não seja sua, os refugiados devem ter feito aquela carinha de cachorro carente que amolece o coração das pessoas, menos o meu. Tenho cachorro em casa e sei que são excelentes atores. Fazem cara de fome, de sede, de vontade de brincar, de ir ao banheiro, enfim, como não falam, fazem mímica. Nem Marcel Marceau, o mímico mais popular da França, teria tanto talento.

A necessidade faz o sapo pular, ou melhor, faz o cachorro interpretar e os cachorros da China aprenderam a fazer cara de quem quer ir para os Estados Unidos. O problema, no entanto, foi que, ao chegar nos Estados Unidos ou no Canadá, o passageiro que aceitou levar o cachorro como se fosse seu, simplesmente passou pela imigração e foi cuidar da vida, largando o cachorro na esteira de bagagens. Quem assistiu o filme O Terminal, onde o personagem de Tom Hanks ficava zanzando no aeroporto, após ter sua entrada negada nos Estados Unidos, e também não podia voltar para seu país de origem, que acabara de sofrer um golpe de estado e seu passaporte perdera a validade. No caso do filme, o passageiro se virava como podia. Usava os banheiros, arrumava um jeito de ganhar umas moedinhas devolvendo os carrinhos de bagagem no equipamento automático, ou seja, fazendo coisas que cachorro, por mais inteligente que seja, não conseguiria fazer.

Há muito tempo que os cachorros chineses não visitavam outros países. Quando criança, quase todos meus amigos tinham cachorro pequinês em casa. Como o nome diz, pequinês vem de Pequim. Não sei como surgiu aquela invasão canina chinesa, só sei que eles fizeram um baita sucesso. Não eram bonitos, ao contrário, eram até feios demais, os dentes de baixo ficavam à mostra e os olhos eram mais saltados dos que os do Érick Jacquin, do MasterChef. Não sei ser era lenda, mas falavam que se puxassem a pele da cabeça deles para trás os olhos saltavam das órbitas e só uma cirurgia poderia recolocá-los no lugar. Nunca soube de nenhum caso, mas também nunca soube de que alguém tenha feito algum afago na cabeça daquelas feiuras, que tinham um gênio insuportável. Lá em casa nunca tivemos pequinês, talvez porque tivéssemos uma irmã com o gênio bem difícil e a cota de mau humor já estivesse preenchida.

Os pequineses sumiram do Brasil, assim esperava, mas, recentemente, vi uma dondoca, vestida de camisa da Seleção Brasileira, com dois deles, passeando em uma praça de Ipanema. Perguntei se eram muito velhos ou descendentes de criação antiga da família, e ela respondeu que havia comprado recentemente. Era só o que faltava. Esses bichos estão de volta e ainda por cima são vendidos. Escaparam de virar acompanhamento de chop suey para ser acompanhantes de madame. Provavelmente ela não sabe que são oriundos de país comunista, senão já teria dado fim neles ou não teria nem comprado.

Hoje a China vira notícia de novo. Depois de um ano sendo acusada de criar um vírus para bagunçar a economia mundial, a China desenvolve a vacina para a Covid e a histeria agora é outra. Falam que o vírus foi criado para que as pessoas se vacinassem e a vacina conteria um chip que faria com que a humanidade fosse dominada. Isso aí está com cara de roteiro de Regina Duarte com colaboração de Olavo de Carvalho.

E o Brasil cisma de ensinar à China como se faz comércio. Diz que eles devem bater à porta dos países para vender o estoque de vacinas produzidas. Acho que o quepe aperta demais a cabeça e prejudica os miolos. Se toda a capacidade de produção de vacinas fosse atingida hoje, ainda assim não seria suficiente para quase metade da população mundial. Quem deve bater à porta de quem? Uma coisa, porém, é certa. Se a China está enviando tantos cachorros para o ocidente, que já mande vacinados. Se a gente não merece, que pelo menos eles estejam protegidos.

 

Rio de Janeiro/RJ, 03 de janeiro de 2021

sábado, 2 de janeiro de 2021

Brexit 1

Mesmo quatro anos após o referendo popular, o reino unido deixa a União Europeia com jeito de quem faz as coisas atabalhoadamente. O título Brexit 1 não significa que possa haver outras retiradas, mas a possibilidade de que o tema volte a ser tratado, dadas as inúmeras e inesperadas consequências de um divórcio após quase meio século de convivência relativamente fria, como costumam ser as relações com os ingleses. O máximo que pode acontecer se não escrever mais sobre este assunto é que o título ficará um pouco estranho, esperando continuação. Talvez tenha sido excesso de zelo para não parecer o Clube da Esquina, que não avisou nada e depois surgiu o Clube da Esquina 2. As capitanias dos portos também não batizam barcos com o número 1. Se surgir um xará, eles batizam com o número II, em algarismos romanos. Deve ser coisa do império romano.

Não sei como um povo tão sistemático deixa para a última hora a aprovação de documento que traça as relações entre o reino unido e o resto da Europa, que é como os ingleses devem se referir aos países localizados na área continental. A definição de ilha para a Inglaterra deve ser um pedaço de terra cercado de gente inferior por todos os lados.

Mesmo com tanta demora, o tal documento deixa muito a desejar. Mil e duzentas páginas com aquele jeitão de estatuto de clube de golfe, com muita retórica e pouca objetividade. Pela gravata de peixinhos exibida por Boris Johnson no anúncio do acordo, a impressão que fica é a de que nada mais relevante foi tratado do que o acordo de limitação de pesca pela Europa na costa inglesa, mesmo que a atividade represente 0,01% do PIB da terra do Fish and Chips.

Talvez pelo receio de que a saída do reino unido pudesse ser o início do desmantelo da União Europeia, muitos brasileiros torceram para que o Brexit não vingasse. Afinal, se entre países tão desenvolvidos a integração não funcionar, dá para ter uma ideia do que pode acontecer no MERCOSUL, que, aliás, assinou acordo de negociação iniciada há mais de vinte anos com a UE, o que não significa muita coisa, pois ainda precisa ser referendado pelos parlamentos de todos os países envolvidos, de ambos os continentes. Este é o tipo de acordo que pode fazer água por recusa de quem está levando mais vantagem. A França já sinalizou que não faz negócio com quem não preserva a natureza, Sei não, mas o recado está dado.

Voltando ao Brexit, a impressão que dá é que a votação que decidiu pela saída do reino unido da União Europeia teve aquele ingrediente que turbina as eleições recentes no Brasil. As fake News. Pouco antes da pandemia, minha mulher e eu visitamos uma amiga que reside em uma cidade pequena, próxima a Londres. Ela nos contou que recebia propagandas pró Brexit dizendo que a União Europeia estava estimulando a entrada de estrangeiros para tomar os empregos dos ingleses.

Ficou claro que as mensagens eram dirigidas às cidades do interior, onde o eleitorado é mais conservador e permeável a esse tipo de boato sem fundamento, principalmente se tiver componentes de xenofobia e de moralismo. Associar integração regional ao desemprego e à recessão foi estratégia de sucesso para os incentivadores do Brexit. O que consolidou a vitória, no entanto, foi a abstenção dos progressistas, que, por acharem tão sem propósito a saída do bloco regional, nem se preocuparam em votar, deixando o campo livre para o voto do medo.  Ali prosperou a Falácia da Falsa Causalidade, já que a integração do Reino Unido à União Europeia em nada contribuía para a extinção de postos de trabalho.

Nos chamou à atenção, entretanto, que os ingleses contrários ao Brexit valorizavam muito o desenvolvimento comportamental que a integração à União Europeia lhes proporcionou. Sempre acreditei que os ingleses eram referência em educação e bons modos, mas parece que isso é lenda, como as do Rei Arthur, do Barba Negra e de Robin Hood. A etiqueta inglesa seria denominada no Brasil como algo para inglês ver.

De fato, não se pode acreditar muito nos modos de quem matava seus próprios reis e rainhas com uma machadada no pescoço. Os machados eram feitos especialmente para esse fim (fim mesmo), o que não humaniza em nada a violência.  Jane Grey, rainha por apenas nove dias, foi decapitada na Torre de Londres, aos dezesseis anos, por ordem de sua prima. Naquele tempo as discordâncias em família não ficavam apenas nos grupos de whatsapp.

Na Inglaterra os pubs fecham cedo demais para os nossos padrões. Não só para os nossos, mas como os de todo o mundo civilizado, e mundo civilizado considero os países onde as pessoas bebem. Não dá para chamar de civilizado um lugar onde a bebida é punida com a morte. Aqui até se tentou, com as cervejas Cintra e Belco, mas houve quem resistiu e denunciou a tempo o atentado.

O que faz, então, um inglês ao ser despachado do bar por volta de sete da noite, horário em que o resto do mundo começa a beber? Para não perder tempo, o londrino sai do trabalho mais cedo e vai, sem banho mesmo, para o pub mais próximo. A cerveja é boa e a música melhor ainda, mas tudo tem que ser muito rápido, até a azaração. Não dá para escolher pelo cheiro, porque ninguém passou em casa para dar um trato nas intimidades.

O Fish and Chips era servido em folha de jornal. Algum tempo depois, passou a ser em guardanapo estampado em imitação de jornal para as pessoas não sentirem a diferença. Penso que com o Brexit devem voltar a comer peixe com gosto de classificados ou de notícias de futebol.

Não sei o que vai acontecer daqui para a frente, e acho que nem eles têm certeza, mas a Escócia já pediu que mantenham uma estrela acesa porque em breve estará de volta. Talvez o Brexit não tenha o poder de desmoronar a integração europeia, mas o próprio reino unido.

A Inglaterra tem mitos que a sustentam, e mitos são imortais. Keith Richards e a Rainha Elizabeth II são a prova disso. Enquanto houver cigarros e chá, a estabilidade está garantida.

 

Rio de Janeiro/RJ, 02 de janeiro de 2021

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

2021

Desde que assisti ao filme sobre a vida da Rainha Elizabeth II (A Rainha) cismei que um dia começaria a escrever meu diário. Afinal, tudo que possa ser relacionado à longevidade da soberana, que não seja nenhuma receita intragável ou feita com ingredientes nojentos, pode e deve ser copiado. Deduzi, então, que o hábito de escrever o diário tinha forte e determinante impacto positivo na saúde de sua majestade.

Acho até que não é o diário propriamente dito, mas a disciplina que o hábito requer, principalmente para quem não pode se dar ao luxo de, como a rainha, abrir mão de parte de seu tempo, totalmente dedicado ao ócio, para atividade que também pode ser considerada ociosa.

Quando me rendi aos fatos e percebi que a pandemia do coronavírus era mais séria do que se pensava, me trancafiei em casa e, por meses, não botei o pé na rua. Cuidava de lavar tudo que chegava, de frutas a garrafas de vinho, estas com substancial aumento de pedidos. Correspondência era submetida a uma camada de álcool em gel e comida de delivery passava por igual tratamento. Enfim, me preparava para viver confinado, mais precisamente me preparava para viver, e isso era importante.

Lembro perfeitamente que no dia 17 de março saí mais cedo do escritório e peguei o metrô, antes do horário de pico, para dar início ao isolamento social, nome que a imprensa ou sei lá quem inventou para o toque de recolher, imposto por um vírus do qual nunca havíamos ouvido falar. E se fosse falado também não entenderíamos, porque o bicho era chinês.

Logo nos primeiros dias, pensei em fazer um diário da quarentena. Virginiano, preferi não começar até que elaborasse como faria para que ficasse perfeito. É claro que nem comecei. A cada dia que passava, tentava fixar na memória o que havia acontecido nos dias anteriores. Pensava em fazer um relato mais ao estilo dos diários de bordo dos antigos navios, onde se registrava o clima, a comida e os horários. Aliás, nem sei se os comandantes de navios faziam isso, mas se não faziam deveriam fazer, nem que fosse para matar o tempo, assim como a rainha.

Não fiz o diário, como também não fiz um monte de coisas que pensava que faria no dia em que ficasse mais tempo em casa. Sempre falei que gostaria de receber uma pena de prisão domiciliar, para ter tempo de botar a leitura em dia, escrever, organizar fotografias e álbuns de viagens, botar ordem nos arquivos, meditar, enfim, tudo aquilo que não fazia por falta de tempo e continuei a não fazer, mesmo com um pouco mais de tempo. Digo um pouco porque não parei de trabalhar, só que agora sem o conforto e o recolhimento do meu escritório e sendo interrompido por duas cadelas que ainda não se acostumaram com a presença integral de seu humano, antes restrito às noites e aos fins de semana.

Se tivesse feito o diário, também registraria os livros que li, muitos, mas menos do que gostaria, e as lives que assisti, poucas, mas bem mais do que precisava. Chega um momento em que a as lives passam a ser repetitivas e os assuntos refletem a incerteza que o mundo passa diante de uma doença desconhecida. Exceção se faz às lives de Caetano Veloso, que nos presenteou no dia de seu aniversário, em agosto, cantando com seus filhos, e despertou a vontade de assistir a próxima, de Natal. Não dá para dizer qual a melhor. Na dúvida, assisto ambas, diversas vezes, sem enjoar.

Comecei a seguir alguns influenciadores (influencers)  e canais de Youtube, com destaque para Henry Bugalho e Aviões & Músicas. Maratonei séries curtas, como “The Crown” (olha a rainha de novo), “Nada Ortodoxa” e “Emily em Paris”. Vi filmes atuais e antigos e comecei a assistir filmes em espanhol, sem legenda, para reforçar as aulas semanais.

Interrompi o projeto de dissertação de mestrado, pois as aulas são presenciais em Montevidéu e o governo uruguaio não quer saber de brasileiros tão cedo por lá, até que as coisas tomem jeito aqui no Brasil. E esse jeito, se acontecer, será só em 2022.

Mudei de casa e de bairro. Não vejo pessoas queridas, para o bem de todos, e não tenho vergonha de dizer que acredito na ciência, mesmo com o iluminismo tão em baixa e rechaçado pelos negacionistas. Nas redes sociais não chego a me decepcionar com algumas pessoas, mas confesso que não sabia que chegariam a tanto. As fronteiras da vergonha foram definitivamente rompidas, quando se descobriu que muitos pensam (se é que isso é pensar) da mesma forma.

Chegamos ao primeiro dia de 2021 e penso que agora é o momento certo de iniciar o postergado diário. Já parei de fumar há anos, estou fazendo dieta, leio todos os dias e pretendo continuar bebendo vinho, além de uma ou outra contravenção aceitável, ou seja, não deixei margem para promessas de ano novo, por isso pensei no diário.

Meu blog clama por novas crônicas e contos e receio que o diário roube o tempo necessário para dar continuidade à pretensão de me apresentar como alguém que escreve crônicas e contos. Cara de pau tem limite.

Não farei diário. Ao invés disso, escreverei crônicas diárias, o que talvez contemple as duas coisas. 2021 mal acaba de ser inaugurado e já começo a fazer o que levaria meses até a desistência final. O ano passado nos ensinou que as coisas acontecem, mesmo contra nossa vontade. O mundo mudou muito rapidamente. Hoje se fala no novo normal. Pode-se arrumar qualquer desculpa para não escrever, menos por falta de assunto.

Sendo assim, até amanhã.

 

Rio de Janeiro/RJ, 01 de janeiro de 2021

sábado, 19 de dezembro de 2020

Souvenir

Li um artigo da escritora argentina Mori Ponsowy sobre a visita feita ao filho que estudava no Japão. Me chamou à atenção quando ela descreveu que viu algo muito bonito, não me lembro o que era, e só não comprou porque há algum tempo decidira que não mais compraria coisas que não precisasse, ou seja, que não fossem essenciais.

Sempre me lembro da Mori, quando viajo e vejo algum souvenir que me parece irresistível. Se além de interessante, for barato e não ocupar espaço na mochila, aí mesmo é que fico com muita vontade de comprar. Dizem que vontade é coisa que dá e passa, mas comigo não funciona. Já até ponderei que com o tempo aquilo vai estragar, ficar empoeirado e, por pena de jogar fora, vou manter aquela feiura à vista de todos, porque geralmente a gente bota esses badulaques na estante.

Decidido, viro as costas e saio orgulhoso de minha determinação, que, no entanto, só dura até eu constatar que aquilo não tem em nenhum outro lugar. Aí começo a pensar que não sou determinado, mas cabeçudo e inflexível. Afinal, o que custa levar uma lembrancinha para manter a viagem viva por mais tempo. Só de chamar de lembrancinha dá para perceber que estou me enganando. Usar o diminutivo é uma forma de aliviar a consciência. Tomar um chopinho, beber uma tacinha de vinho é sinônimo de encher a cara.  Chamar de bonitinha a namorada de um amigo é artifício para não perder a amizade, porque se fosse bonita mesmo não precisava falar assim.

Assumindo o arrependimento, penso em voltar à loja onde vi o souvenir, que é o nome que se dá ao que não tem utilidade, mas viagem é coisa cara e não dá para perder tempo indo e voltando. O negócio é torcer para encontrar em outro lugar. Aí já não presto atenção em mais nada, a não ser nas vitrines das lojas para turistas, correndo o risco de achar ainda mais bobagens para levar. Por sorte, a China produz mais do que a humanidade precisa e logo aquilo que desprezei há algumas quadras está novamente diante de mim. Em um misto de remorso e vontade de jogar dinheiro fora pago, quase sempre, bem mais do que o preço que vi lá atrás. Tenho a impressão que sempre caminho na direção dos lugares mais caros. Da próxima vez vou experimentar inverter o trajeto para ver se economizo.

Ao arrumar a bagagem para voltar, o que sempre deixo para última hora, cuido para que nada fique para trás. Digo nada porque me assusto com a quantidade de bobagens que comprei. Somando com os flyers, tíquetes de metrô, ingressos de museus, guardanapos de restaurantes (não usados) e mapas, chego perto de pagar excesso de bagagem, mas venho feliz.

Já de volta, a rotina me espera com a mesma fúria da mulher do boêmio. Sem me dar tempo para respirar, retorno ligações, abro correspondências que se acumularam e as divido entre inúteis e cobranças. Espero um dia receber alguma que traga boas notícias. Não precisa nem ser uma herança, porque aí teria que vir atrelada a uma morte, mas pode ser o prêmio de uma rifa, por exemplo. Um querido amigo todos os anos promove a rifa de um fusca para ajudar a igreja que frequenta, em Lençóis Paulistas. Para diminuir a frustração de quem não ganha, há prêmios secundários. Ainda não levei o carro, mas tenho jogos de toalhas suficientes para enxugar um elefante.

Aos poucos ajeito as recordações em prateleiras, escrivaninhas, mesas de cabeceira e onde mais conseguir lugar. Há uma certa ordem, não necessariamente pela origem, mas pelo tipo. Torres e castelos convivem com casinhas e casebres. Esculturas que busquem se entender, ainda que o Manequinho de Bruxelas ameace fazer xixi na Estátua da Liberdade, sob o olhar de sonso do pelado Davi de Michelangelo. Às vezes erro na escala e um gato pescador da Colômbia parece que vai engolir uma lhama do Chile.  Li em um desses artigos que tratam de organização que o ideal é criar um espaço para as lembranças de viagens, ao invés de os manter espalhados pela casa. A ideia é que se juntarmos tudo o que é cafona em um mesmo lugar, aquilo deixa de ser cafona e passa a ser outra coisa, que não me lembro o nome que deram, acho que foi kitsch. Não sei se existe coletivo de cafonas. Até foguete tem substantivo coletivo, girândola, mas papa e cafona não tem. De papa até tinha justificativa, porque só existia um, mas agora nem isso.

Com o tempo começo a ter vergonha dos enfeites de viagens, principalmente quando eles são comentados. Há tempos, um amigo que sempre nos visitava dizia para todo mundo que minha casa era um lugar muito pitoresco. Ele falava que tínhamos um monte de coisinhas em todos os cantos e que era uma coisa muito linda. A última vez que esteve aqui em casa, minha cunhada bebeu demais e tascou um beijo nele, achando que era o marido. De tão sem graça ele desapareceu. Ela não, porque estava hospedada aqui e não tinha para onde ir. Talvez depois disso ele ache aqui ainda mais pitoresco.

Para manter o equilíbrio do ecossistema, existem os predadores. Em casa não poderia ser diferente, senão estaríamos mergulhados em um mar de quinquilharias. Aquelas lembrancinhas de viagens tomariam nosso lugar na terra se não fossem seus exterminadores naturais. Na ordem crescente de destruição estão os animais domésticos, as crianças e a faxineira.

Tive uma oncinha de madeira por anos aqui em casa. Não muito grande, ficava no chão do corredor de entrada. Bastante discreta, na cor natural, resistente ao tempo e a uma ou outra pisada, parecia disposta a seguir pela eternidade, até que resolvemos adotar Rihana, uma cadela sem lenço e sem documento. O vira-latas tem uma maneira diferente de demonstrar gratidão. Em troca de casa, comida e carinho, suja a casa inteira e destrói aquilo que lhe parece inútil, como as recordações de viagens. Com uma semana em sua nova casa, ou melhor, em sua primeira casa, já que antes morava na rua, resolveu que a oncinha ficaria melhor sem as orelhas e a cauda. Hoje, temos uma pequena escultura de arte abstrata onde antes havia um felino.

As crianças são mais seletivas, e conhecendo-as é fácil perceber suas intenções. Guardava uma miniatura do carro do 007 com cuidado relativo. Ao contrário do protótipo usado nos filmes, esta miniatura não corria o risco de encontrar os capangas de Goldfinger ou do Dr. No. Ficava segura, longe do alcance de um filhote de cachorro, mas acessível a um filhote de gente. E foi assim que meu neto decidiu que o carro não deveria mais ter pneus. Bastou nascerem seus primeiros dentes para afiá-los na borracha das rodas. Ao contrário da oncinha, o carro foi para  lixo. Sucata não tem glamour nenhum.

Mas nada se compara ao requinte da faxineira, a começar pela capacidade de dissimulação. Enquanto crianças e cachorros destroem abertamente, a faxineira, quando não consegue disfarçar o dano, esconde o próprio objeto. Jogar fora, não joga, pois, na hora do aperto, é preferível apresentar o estrago do que passar a impressão de que tenha feito algo mais grave.

Certa vez cismei de colecionar miniaturas de aviões da segunda guerra, mesmo não tendo ímpeto belicista. Era uma coisa linda de se ver. Junkers, Thunderbolts, Mustangs e Spitfires conviviam em estante tão alta que se julgavam a salvo de qualquer bateria anti-aérea. Não contavam, porém, com o poder destrutivo de um espanador em mãos pouco cuidadosas. Embora imperceptível, notei que faltava hélices em quase todos.  Quando perguntei o que havia acontecido, a simpática criatura, como o são quase todas as faxineiras, abriu um sorriso e disse que caíram quando passou o espanador. Perguntei, então, onde estavam e ela me respondeu que varreu e jogou fora, pois estavam no chão. Diante dessa lógica de considerar que tudo que está no chão é lixo, passei a ter o estranho hábito de dormir com os chinelos debaixo do travesseiro e hoje desconfio porque passei tanto tempo comprando novos pares.

Se há algum prazer em colecionar miniaturas, creio que é somente pelo gosto de ter ao alcance das mãos algo que não conseguiria em tamanho natural. Já me disseram, ou li não sei aonde, que pode ser o desejo oculto de dominação. Não acredito nisso, se assim fosse, as meninas seriam dominadoras infernais, depois de passar anos brincando com bonecas.

Pensei em buscar a resposta na terapia. Afinal, para que serve a terapia, se não for para esclarecer? O problema é que raramente me lembro de falar na sessão aquilo que pretendo. Passei a escrever os assuntos no bloco de notas do celular. Enquanto tentava, aflito, encontrar o tema que seria tratado, observei que a terapeuta, enquanto pacientemente me aguardava, organizava com meticulosidade impressionante a coleção de corujinhas de vidro. Desisti e passei a falar da minha mãe, que não acredita em terapia e me trouxe ao mundo no dia do seu aniversário. Mãe é assunto que terapeuta conhece bem. 

 

Rio, junho de 2020

Terceiro lugar etapa estadual TALENTOS FENAE 2020