terça-feira, 5 de janeiro de 2021
Esperança
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
Agenda
Tenho orgulho de ser virginiano, e tenho ascendente em Virgem, para piorar. Gosto de passar a ideia de que faço tudo com perfeição. Só quem me conhece sabe que não é bem assim. Até tenho vontade de fazer tudo perfeito, mas, como não consigo, acabo fazendo de qualquer jeito, que só eu entendo.
Este ano comprei uma agenda e ganhei outra. A que comprei tem a semana inteira em duas páginas. A ideia é abrir a agenda e ter uma visão completa da semana. Aprendi isso em um dos quarenta e três cursos sobre organização que já fiz. Ah, acabei de me inscrever em mais um. Em tempos de cursos na internet, a gente acaba se inscrevendo em vários, mesmo que para não concluir. Ainda bem que estão sempre em ofertas que vão vencer em algumas horas. Aquele maldito reloginho decrescente na tela me dá muita aflição e acabo não resistindo. O desconto dado é tão expressivo quanto mentiroso. A cara dura de quem oferece não se acanha em dizer que um curso desses custa em torno de dois mil reais, mas eles estão oferecendo por 249 reais, sendo que para quem se inscrever naquele dia o custo total será de 27 reais, podendo ser pago em dez parcelas de 2,70. Não dá para resistir, mesmo sabendo que é mentira.
Voltando à agenda semanal, a desvantagem é que os campos para anotações são muito pequenos. Então, coloco uma sigla na agenda semanal e descrevo com detalhes na agenda que ganhei, com uma página para cada dia. Nem sempre estas siglas são de fácil assimilação. Se é algo que anoto em data distante, pode acontecer de não me lembrar do que se trata, quando chegar o dia, por isso descrevo na agenda diária. Há atividades que faço todos os dias, mas, para ficar parecendo agenda de gente muito ocupada, caso algum indiscreto resolva espiar, repito a sigla diariamente, caprichando no tamanho das letras, para parecer que é muito importante. LCC é uma das siglas que ocupam todas as datas na agenda semanal. Esta nem preciso descrever na agenda diária porque não tem como esquecer. O significado de LCC é “Levar Cachorro para Cagar”. Não precisava estar na agenda porque as cadelas me lembram com uivos e saltos. Para quem não sabe, advinhar o que elas querem deve ser mais difícil do que descobrir o que é LCC.
Outra vantagem das siglas é diferenciar pessoas com o mesmo nome. Existem levas de nomes iguais, acho que por época de nascimento. Antigamente, as novelas eram mais influentes e os personagens bonitos ou ricos emprestavam o nome para os bebês daquele período. O nome cabe na linha da agenda, mas o sobrenome complica um pouco. Então escrevo o nome e coloco uma letra após, identificando uma característica, física ou comportamental. Asssim, Fulano de Tal passa a ser Fulano “P”, se for gordo. Usar “G” seria óbvio demais, então optei por “P”, de pesado. Quando é gago, não uso “G”, o que seria muito evidente. Escrevo “R”, de rateando, e por aí vai. Se me perguntarem o que significam as letras, digo que “P” é de preferencial, que “R” é de relevante. Imaginação é o que não falta. Minha avó contou que o marido dela, meu avô, foi tirar medidas para um terno e viu quando o alfaiate escreveu, nas anotações, a sigla PC. De tanto insistir, acabou sabendo que PC era “pouco corcunda”. Não se ofendeu por dois motivos: era um homem muito bom e o terno encaixou direitinho, até na discreta corcunda.
Outra coisa que me intriga nas agendas é a parte de identificação do dono. Não bastasse apenas o nome, o telefone e o e-mail, há campo para endereço, tipo sanguíneo, CPF, Identidade, conta bancária, nomes dos contatos mais próximos etc. Quem fizer a loucura de preencher todos esses dados e perder a agenda, pode estar certo de que vai ser vítima de algum tipo de fraude.
A agenda, para muitos, dá um ar de importância quando alguém quer marcar uma visita ou algum compromisso. A expressão “vou consultar minha agenda e te retorno” é clichê intragável. Tenho muita sorte com médicos, dentistas, psicólogos que me atendem. Quando quero marcar consulta, na hora já verificam a agenda e confirmam a data, após me apresentarem as opções. Nunca os encarei com menor importância por isso, muito pelo contrário.
E aquelas agendas que possuem campo para planejamento do ano? Ou reservam dezenas de páginas, como se fôssemos criar um mundo, e dizem que mesmo para isso não se leva mais do que sete dias, com mais um de descanso, ou então disponibilizam umas míseras linhas, talvez imaginando que o mundo vai acabar antes do fim do ano.
Durante um tempo ministrei treinamento e em um dos cursos orientava para o uso de agenda para todos os papéis que desempenhamos na vida – profissional, cônjuge, pai, filho, amigo, e por aí vai. A ideia era a de que para cada papel, fossem descritas, detalhadamente, as ações que seriam realizadas, até mesmo namorar. Há muitos anos, participei de um seminário com o psicanalista José Ângelo Gaiarsa. Ele, muito mais explícito, dizia que devíamos marcar dia e hora para o sexo. A lógica era a de que coisas óbvias são facilmente esquecidas.
Não sei se ele anotava. Na época, creio que não precisava, mas como nos deixou aos noventa anos, pode ser que em dado momento não quis correr o risco de adiar mais nada. Ter planos nos levam longe e fazer com que aconteçam nos levam de forma mais feliz. Se para isso a agenda serve, que seja meu instrumento de felicidade (F).
Rio de Janeiro/RJ, 04 de janeiro de 2021
domingo, 3 de janeiro de 2021
China
Se quem entende do negócio não
se entende, o que dirá de quem não entende nada. Desde que esse vírus chegou no
Brasil, a confusão foi formada. E a coisa parece que chegou de surpresa. O ano
começou, o Carnaval chegou e a gente nem se preocupou. Disseram que era coisa
de chinês e por lá mesmo ficaria. Quanta coisa acontece na China e a gente não
fica sabendo como termina. Quem sabe como termina o campeonato chinês de
futebol? Ninguém. Acho que nem eles. Aliás, será que tem futebol na China?
Estádio tem de montão, mas eles usam para execução coletiva. Aquele monte de
chinês ajoelhado, um soldado de cada lado e um atrás com o fuzil apontado.
Dizem que tem dia que são mais de 500 execuções, o que significa que tem 1.500
soldados ali. Se botasse essa tropa para trabalhar, talvez nem tivesse tanto
crime e não precisaria matar tanta gente. Mas dizem que isso é popular. Até
transmitem pela televisão.
A China sempre foi um
mistério. Nem tanto por eles, mas pela distância mesmo. Hoje até é mais fácil
saber o que existe por lá. Tem Internet e avião está mais em conta. Quer dizer,
quando tinha avião para lá, porque agora está tudo parado. Era criança e aprendi
que na China quando alguém é executado a bala é cobrada da família. Nunca soube
se isso era verdade, mas acredito que não. E se a família se recusasse a pagar?
Seriam executados? Aí o prejuízo seria maior, porque seriam mais balas e não
teria ninguém a quem cobrar. Dizem que os chineses vendem órgãos dos
condenados, olhos principalmente. Não sei se já descontam o preço da bala e
devolvem o resto para a família. Se bem que olho de chinês é pequeno e não deve
valer grande coisa. Não serve em qualquer um. Talvez em japonês ou coreano.
A China faz de tudo, de tênis
a foguete. Não se pode dizer que é falsificação, já que eles escrevem que é
fabricado lá. Mas é mesmo esquisito. Recentemente, saiu a notícia de que a
China abolira o hábito de comer cachorro, mas lá as coisas não são bem claras.
Não se abole um hábito por decreto. Pode se proibir por decreto, mas hábito some
aos poucos e nem todo mundo larga ao mesmo tempo. Pelo sim pelo não, a
cachorrada tem motivos de sobra para ainda não andar tranquila pelas ruas da
China. Aqui já pode andar à vontade, porque há tempos não se fala mais em
carrocinha. Acho que nem existe mais. Cachorro agora é capturado em fotografia
para rede social, ou vídeo, se fizer algum tipo de gracinha, qualquer uma,
mesmo destruir sofá.
Uma entidade chamada China Rescue
Dogs, preocupada com possível recaída dos chineses, enviou milhares de cachorros
da China para países onde estivessem a salvo, sendo que a maioria foi para
Estados Unidos e Canadá. A confusão nos aeroportos foi grande, e não podia se
esperar outra coisa. Para começar, a cachorrada foi despachada de qualquer
jeito, sem lugar certo para ficar. Como medida de economia, a tal entidade
pediu que passageiros que estivessem viajando para aqueles países levassem os
cães como se fossem seus. Mesmo com a recomendação que se faz em qualquer aeroporto
do mundo, de não levar qualquer bagagem que não seja sua, os refugiados devem
ter feito aquela carinha de cachorro carente que amolece o coração das pessoas,
menos o meu. Tenho cachorro em casa e sei que são excelentes atores. Fazem cara
de fome, de sede, de vontade de brincar, de ir ao banheiro, enfim, como não
falam, fazem mímica. Nem Marcel Marceau, o mímico mais popular da França, teria
tanto talento.
A necessidade faz o sapo
pular, ou melhor, faz o cachorro interpretar e os cachorros da China aprenderam
a fazer cara de quem quer ir para os Estados Unidos. O problema, no entanto,
foi que, ao chegar nos Estados Unidos ou no Canadá, o passageiro que aceitou
levar o cachorro como se fosse seu, simplesmente passou pela imigração e foi
cuidar da vida, largando o cachorro na esteira de bagagens. Quem assistiu o filme
O Terminal, onde o personagem de Tom Hanks ficava zanzando no aeroporto, após
ter sua entrada negada nos Estados Unidos, e também não podia voltar para seu
país de origem, que acabara de sofrer um golpe de estado e seu passaporte
perdera a validade. No caso do filme, o passageiro se virava como podia. Usava
os banheiros, arrumava um jeito de ganhar umas moedinhas devolvendo os
carrinhos de bagagem no equipamento automático, ou seja, fazendo coisas que
cachorro, por mais inteligente que seja, não conseguiria fazer.
Há muito tempo que os
cachorros chineses não visitavam outros países. Quando criança, quase todos
meus amigos tinham cachorro pequinês em casa. Como o nome diz, pequinês vem de
Pequim. Não sei como surgiu aquela invasão canina chinesa, só sei que eles
fizeram um baita sucesso. Não eram bonitos, ao contrário, eram até feios demais,
os dentes de baixo ficavam à mostra e os olhos eram mais saltados dos que os do
Érick Jacquin, do MasterChef. Não sei ser era lenda, mas falavam que se puxassem
a pele da cabeça deles para trás os olhos saltavam das órbitas e só uma
cirurgia poderia recolocá-los no lugar. Nunca soube de nenhum caso, mas também
nunca soube de que alguém tenha feito algum afago na cabeça daquelas feiuras,
que tinham um gênio insuportável. Lá em casa nunca tivemos pequinês, talvez porque
tivéssemos uma irmã com o gênio bem difícil e a cota de mau humor já estivesse
preenchida.
Os pequineses sumiram do
Brasil, assim esperava, mas, recentemente, vi uma dondoca, vestida de camisa da
Seleção Brasileira, com dois deles, passeando em uma praça de Ipanema.
Perguntei se eram muito velhos ou descendentes de criação antiga da família, e
ela respondeu que havia comprado recentemente. Era só o que faltava. Esses
bichos estão de volta e ainda por cima são vendidos. Escaparam de virar
acompanhamento de chop suey para ser acompanhantes de madame. Provavelmente ela
não sabe que são oriundos de país comunista, senão já teria dado fim neles ou
não teria nem comprado.
Hoje a China vira notícia de
novo. Depois de um ano sendo acusada de criar um vírus para bagunçar a economia
mundial, a China desenvolve a vacina para a Covid e a histeria agora é outra.
Falam que o vírus foi criado para que as pessoas se vacinassem e a vacina
conteria um chip que faria com que a humanidade fosse dominada. Isso aí está
com cara de roteiro de Regina Duarte com colaboração de Olavo de Carvalho.
E o Brasil cisma de ensinar à
China como se faz comércio. Diz que eles devem bater à porta dos países para vender
o estoque de vacinas produzidas. Acho que o quepe aperta demais a cabeça e
prejudica os miolos. Se toda a capacidade de produção de vacinas fosse atingida
hoje, ainda assim não seria suficiente para quase metade da população mundial.
Quem deve bater à porta de quem? Uma coisa, porém, é certa. Se a China está
enviando tantos cachorros para o ocidente, que já mande vacinados. Se a gente
não merece, que pelo menos eles estejam protegidos.
Rio de Janeiro/RJ, 03 de
janeiro de 2021
sábado, 2 de janeiro de 2021
Brexit 1
Mesmo quatro anos após o referendo popular, o reino unido deixa a União Europeia com jeito de quem faz as coisas atabalhoadamente. O título Brexit 1 não significa que possa haver outras retiradas, mas a possibilidade de que o tema volte a ser tratado, dadas as inúmeras e inesperadas consequências de um divórcio após quase meio século de convivência relativamente fria, como costumam ser as relações com os ingleses. O máximo que pode acontecer se não escrever mais sobre este assunto é que o título ficará um pouco estranho, esperando continuação. Talvez tenha sido excesso de zelo para não parecer o Clube da Esquina, que não avisou nada e depois surgiu o Clube da Esquina 2. As capitanias dos portos também não batizam barcos com o número 1. Se surgir um xará, eles batizam com o número II, em algarismos romanos. Deve ser coisa do império romano.
Não sei como um povo tão sistemático deixa para a última
hora a aprovação de documento que traça as relações entre o reino unido e o
resto da Europa, que é como os ingleses devem se referir aos países localizados
na área continental. A definição de ilha para a Inglaterra deve ser um pedaço
de terra cercado de gente inferior por todos os lados.
Mesmo com tanta demora, o tal documento deixa muito a
desejar. Mil e duzentas páginas com aquele jeitão de estatuto de clube de golfe,
com muita retórica e pouca objetividade. Pela gravata de peixinhos exibida por
Boris Johnson no anúncio do acordo, a impressão que fica é a de que nada mais
relevante foi tratado do que o acordo de limitação de pesca pela Europa na
costa inglesa, mesmo que a atividade represente 0,01% do PIB da terra do Fish
and Chips.
Talvez pelo receio de que a saída do reino unido pudesse ser
o início do desmantelo da União Europeia, muitos brasileiros torceram para que
o Brexit não vingasse. Afinal, se entre países tão desenvolvidos a integração não
funcionar, dá para ter uma ideia do que pode acontecer no MERCOSUL, que, aliás,
assinou acordo de negociação iniciada há mais de vinte anos com a UE, o que não
significa muita coisa, pois ainda precisa ser referendado pelos parlamentos de
todos os países envolvidos, de ambos os continentes. Este é o tipo de acordo
que pode fazer água por recusa de quem está levando mais vantagem. A França já
sinalizou que não faz negócio com quem não preserva a natureza, Sei não, mas o
recado está dado.
Voltando ao Brexit, a impressão que dá é que a votação que decidiu
pela saída do reino unido da União Europeia teve aquele ingrediente que turbina
as eleições recentes no Brasil. As fake News. Pouco antes da pandemia, minha
mulher e eu visitamos uma amiga que reside em uma cidade pequena, próxima a Londres.
Ela nos contou que recebia propagandas pró Brexit dizendo que a União Europeia estava
estimulando a entrada de estrangeiros para tomar os empregos dos ingleses.
Ficou claro que as mensagens eram dirigidas às cidades do
interior, onde o eleitorado é mais conservador e permeável a esse tipo de boato
sem fundamento, principalmente se tiver componentes de xenofobia e de moralismo.
Associar integração regional ao desemprego e à recessão foi estratégia de
sucesso para os incentivadores do Brexit. O que consolidou a vitória, no
entanto, foi a abstenção dos progressistas, que, por acharem tão sem propósito
a saída do bloco regional, nem se preocuparam em votar, deixando o campo livre
para o voto do medo. Ali prosperou a
Falácia da Falsa Causalidade, já que a integração do Reino Unido à União
Europeia em nada contribuía para a extinção de postos de trabalho.
Nos chamou à atenção, entretanto, que os ingleses
contrários ao Brexit valorizavam muito o desenvolvimento comportamental que a
integração à União Europeia lhes proporcionou. Sempre acreditei que os ingleses
eram referência em educação e bons modos, mas parece que isso é lenda, como as
do Rei Arthur, do Barba Negra e de Robin Hood. A etiqueta inglesa seria denominada
no Brasil como algo para inglês ver.
De fato, não se pode acreditar muito nos modos de quem
matava seus próprios reis e rainhas com uma machadada no pescoço. Os machados
eram feitos especialmente para esse fim (fim mesmo), o que não humaniza em nada
a violência. Jane Grey, rainha por
apenas nove dias, foi decapitada na Torre de Londres, aos dezesseis anos, por ordem
de sua prima. Naquele tempo as discordâncias em família não ficavam apenas nos
grupos de whatsapp.
Na Inglaterra os pubs fecham cedo demais para os nossos
padrões. Não só para os nossos, mas como os de todo o mundo civilizado, e mundo
civilizado considero os países onde as pessoas bebem. Não dá para chamar de
civilizado um lugar onde a bebida é punida com a morte. Aqui até se tentou, com
as cervejas Cintra e Belco, mas houve quem resistiu e denunciou a tempo o
atentado.
O que faz, então, um inglês ao ser despachado do bar por
volta de sete da noite, horário em que o resto do mundo começa a beber? Para
não perder tempo, o londrino sai do trabalho mais cedo e vai, sem banho mesmo,
para o pub mais próximo. A cerveja é boa e a música melhor ainda, mas tudo tem
que ser muito rápido, até a azaração. Não dá para escolher pelo cheiro, porque
ninguém passou em casa para dar um trato nas intimidades.
O Fish and Chips era servido em folha de jornal. Algum
tempo depois, passou a ser em guardanapo estampado em imitação de jornal para
as pessoas não sentirem a diferença. Penso que com o Brexit devem voltar a
comer peixe com gosto de classificados ou de notícias de futebol.
Não sei o que vai acontecer daqui para a frente, e acho que
nem eles têm certeza, mas a Escócia já pediu que mantenham uma estrela acesa
porque em breve estará de volta. Talvez o Brexit não tenha o poder de desmoronar
a integração europeia, mas o próprio reino unido.
A Inglaterra tem mitos que a sustentam, e mitos são
imortais. Keith Richards e a Rainha Elizabeth II são a prova disso. Enquanto
houver cigarros e chá, a estabilidade está garantida.
Rio de Janeiro/RJ, 02 de janeiro de 2021
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
2021
Desde que assisti ao filme sobre a vida da Rainha Elizabeth II (A Rainha) cismei que um dia começaria a escrever meu diário. Afinal, tudo que possa ser relacionado à longevidade da soberana, que não seja nenhuma receita intragável ou feita com ingredientes nojentos, pode e deve ser copiado. Deduzi, então, que o hábito de escrever o diário tinha forte e determinante impacto positivo na saúde de sua majestade.
Acho até que não é o diário propriamente dito, mas a
disciplina que o hábito requer, principalmente para quem não pode se dar ao
luxo de, como a rainha, abrir mão de parte de seu tempo, totalmente dedicado ao
ócio, para atividade que também pode ser considerada ociosa.
Quando me rendi aos fatos e percebi que a pandemia do coronavírus era mais séria do que se pensava, me trancafiei em casa e, por meses, não botei o pé na rua. Cuidava de lavar tudo que chegava, de frutas a garrafas de vinho, estas com substancial aumento de pedidos. Correspondência era submetida a uma camada de álcool em gel e comida de delivery passava por igual tratamento. Enfim, me preparava para viver confinado, mais precisamente me preparava para viver, e isso era importante.
Lembro perfeitamente que no dia 17 de março saí mais cedo do escritório e peguei o metrô, antes do horário de pico, para dar início ao isolamento social, nome que a imprensa ou sei lá quem inventou para o toque de recolher, imposto por um vírus do qual nunca havíamos ouvido falar. E se fosse falado também não entenderíamos, porque o bicho era chinês.
Logo nos primeiros dias, pensei em fazer um diário da quarentena. Virginiano, preferi não começar até que elaborasse como faria para que ficasse perfeito. É claro que nem comecei. A cada dia que passava, tentava fixar na memória o que havia acontecido nos dias anteriores. Pensava em fazer um relato mais ao estilo dos diários de bordo dos antigos navios, onde se registrava o clima, a comida e os horários. Aliás, nem sei se os comandantes de navios faziam isso, mas se não faziam deveriam fazer, nem que fosse para matar o tempo, assim como a rainha.
Não fiz o diário, como também não fiz um monte de coisas que pensava que faria no dia em que ficasse mais tempo em casa. Sempre falei que gostaria de receber uma pena de prisão domiciliar, para ter tempo de botar a leitura em dia, escrever, organizar fotografias e álbuns de viagens, botar ordem nos arquivos, meditar, enfim, tudo aquilo que não fazia por falta de tempo e continuei a não fazer, mesmo com um pouco mais de tempo. Digo um pouco porque não parei de trabalhar, só que agora sem o conforto e o recolhimento do meu escritório e sendo interrompido por duas cadelas que ainda não se acostumaram com a presença integral de seu humano, antes restrito às noites e aos fins de semana.
Se tivesse feito o diário, também registraria os livros que li, muitos, mas menos do que gostaria, e as lives que assisti, poucas, mas bem mais do que precisava. Chega um momento em que a as lives passam a ser repetitivas e os assuntos refletem a incerteza que o mundo passa diante de uma doença desconhecida. Exceção se faz às lives de Caetano Veloso, que nos presenteou no dia de seu aniversário, em agosto, cantando com seus filhos, e despertou a vontade de assistir a próxima, de Natal. Não dá para dizer qual a melhor. Na dúvida, assisto ambas, diversas vezes, sem enjoar.
Comecei a seguir alguns influenciadores (influencers) e canais de Youtube, com destaque para Henry Bugalho e Aviões & Músicas. Maratonei séries curtas, como “The Crown” (olha a rainha de novo), “Nada Ortodoxa” e “Emily em Paris”. Vi filmes atuais e antigos e comecei a assistir filmes em espanhol, sem legenda, para reforçar as aulas semanais.
Interrompi o projeto de dissertação de mestrado, pois as aulas são presenciais em Montevidéu e o governo uruguaio não quer saber de brasileiros tão cedo por lá, até que as coisas tomem jeito aqui no Brasil. E esse jeito, se acontecer, será só em 2022.
Mudei de casa e de bairro. Não vejo pessoas queridas, para o bem de todos, e não tenho vergonha de dizer que acredito na ciência, mesmo com o iluminismo tão em baixa e rechaçado pelos negacionistas. Nas redes sociais não chego a me decepcionar com algumas pessoas, mas confesso que não sabia que chegariam a tanto. As fronteiras da vergonha foram definitivamente rompidas, quando se descobriu que muitos pensam (se é que isso é pensar) da mesma forma.
Chegamos ao primeiro dia de 2021 e penso que agora é o momento certo de iniciar o postergado diário. Já parei de fumar há anos, estou fazendo dieta, leio todos os dias e pretendo continuar bebendo vinho, além de uma ou outra contravenção aceitável, ou seja, não deixei margem para promessas de ano novo, por isso pensei no diário.
Meu blog clama por novas crônicas e contos e receio que o diário roube o tempo necessário para dar continuidade à pretensão de me apresentar como alguém que escreve crônicas e contos. Cara de pau tem limite.
Não farei diário. Ao invés disso, escreverei crônicas diárias, o que talvez contemple as duas coisas. 2021 mal acaba de ser inaugurado e já começo a fazer o que levaria meses até a desistência final. O ano passado nos ensinou que as coisas acontecem, mesmo contra nossa vontade. O mundo mudou muito rapidamente. Hoje se fala no novo normal. Pode-se arrumar qualquer desculpa para não escrever, menos por falta de assunto.
Sendo assim, até amanhã.
Rio de Janeiro/RJ, 01 de janeiro de 2021
sábado, 19 de dezembro de 2020
Souvenir
Li um artigo da escritora argentina Mori Ponsowy sobre a visita feita ao filho que estudava no Japão. Me chamou à atenção quando ela descreveu que viu algo muito bonito, não me lembro o que era, e só não comprou porque há algum tempo decidira que não mais compraria coisas que não precisasse, ou seja, que não fossem essenciais.
Sempre
me lembro da Mori, quando viajo e vejo algum souvenir que me parece
irresistível. Se além de interessante, for barato e não ocupar espaço na
mochila, aí mesmo é que fico com muita vontade de comprar. Dizem que vontade é
coisa que dá e passa, mas comigo não funciona. Já até ponderei que com o tempo
aquilo vai estragar, ficar empoeirado e, por pena de jogar fora, vou manter
aquela feiura à vista de todos, porque geralmente a gente bota esses badulaques
na estante.
Decidido,
viro as costas e saio orgulhoso de minha determinação, que, no entanto, só dura
até eu constatar que aquilo não tem em nenhum outro lugar. Aí começo a pensar
que não sou determinado, mas cabeçudo e inflexível. Afinal, o que custa levar
uma lembrancinha para manter a viagem viva por mais tempo. Só de chamar de
lembrancinha dá para perceber que estou me enganando. Usar o diminutivo é uma
forma de aliviar a consciência. Tomar um chopinho, beber uma tacinha de vinho é
sinônimo de encher a cara. Chamar de
bonitinha a namorada de um amigo é artifício para não perder a amizade, porque
se fosse bonita mesmo não precisava falar assim.
Assumindo
o arrependimento, penso em voltar à loja onde vi o souvenir, que é o nome que
se dá ao que não tem utilidade, mas viagem é coisa cara e não dá para perder
tempo indo e voltando. O negócio é torcer para encontrar em outro lugar. Aí já
não presto atenção em mais nada, a não ser nas vitrines das lojas para
turistas, correndo o risco de achar ainda mais bobagens para levar. Por sorte,
a China produz mais do que a humanidade precisa e logo aquilo que desprezei há
algumas quadras está novamente diante de mim. Em um misto de remorso e vontade
de jogar dinheiro fora pago, quase sempre, bem mais do que o preço que vi lá
atrás. Tenho a impressão que sempre caminho na direção dos lugares mais caros. Da
próxima vez vou experimentar inverter o trajeto para ver se economizo.
Ao
arrumar a bagagem para voltar, o que sempre deixo para última hora, cuido para
que nada fique para trás. Digo nada porque me assusto com a quantidade de
bobagens que comprei. Somando com os flyers, tíquetes de metrô, ingressos de
museus, guardanapos de restaurantes (não usados) e mapas, chego perto de pagar
excesso de bagagem, mas venho feliz.
Já de
volta, a rotina me espera com a mesma fúria da mulher do boêmio. Sem me dar
tempo para respirar, retorno ligações, abro correspondências que se acumularam
e as divido entre inúteis e cobranças. Espero um dia receber alguma que traga
boas notícias. Não precisa nem ser uma herança, porque aí teria que vir
atrelada a uma morte, mas pode ser o prêmio de uma rifa, por exemplo. Um
querido amigo todos os anos promove a rifa de um fusca para ajudar a igreja que
frequenta, em Lençóis Paulistas. Para diminuir a frustração de quem não ganha,
há prêmios secundários. Ainda não levei o carro, mas tenho jogos de toalhas
suficientes para enxugar um elefante.
Aos
poucos ajeito as recordações em prateleiras, escrivaninhas, mesas de cabeceira
e onde mais conseguir lugar. Há uma certa ordem, não necessariamente pela origem,
mas pelo tipo. Torres e castelos convivem com casinhas e casebres. Esculturas
que busquem se entender, ainda que o Manequinho de Bruxelas ameace fazer xixi
na Estátua da Liberdade, sob o olhar de sonso do pelado Davi de Michelangelo.
Às vezes erro na escala e um gato pescador da Colômbia parece que vai engolir
uma lhama do Chile. Li em um desses
artigos que tratam de organização que o ideal é criar um espaço para as
lembranças de viagens, ao invés de os manter espalhados pela casa. A ideia é
que se juntarmos tudo o que é cafona em um mesmo lugar, aquilo deixa de ser
cafona e passa a ser outra coisa, que não me lembro o nome que deram, acho que
foi kitsch. Não sei se existe coletivo de cafonas. Até foguete tem substantivo
coletivo, girândola, mas papa e cafona não tem. De papa até tinha justificativa,
porque só existia um, mas agora nem isso.
Com o
tempo começo a ter vergonha dos enfeites de viagens, principalmente quando eles
são comentados. Há tempos, um amigo que sempre nos visitava dizia para todo
mundo que minha casa era um lugar muito pitoresco. Ele falava que tínhamos um
monte de coisinhas em todos os cantos e que era uma coisa muito linda. A última
vez que esteve aqui em casa, minha cunhada bebeu demais e tascou um beijo nele,
achando que era o marido. De tão sem graça ele desapareceu. Ela não, porque
estava hospedada aqui e não tinha para onde ir. Talvez depois disso ele ache
aqui ainda mais pitoresco.
Para
manter o equilíbrio do ecossistema, existem os predadores. Em casa não poderia
ser diferente, senão estaríamos mergulhados em um mar de quinquilharias.
Aquelas lembrancinhas de viagens tomariam nosso lugar na terra se não fossem
seus exterminadores naturais. Na ordem crescente de destruição estão os animais
domésticos, as crianças e a faxineira.
Tive
uma oncinha de madeira por anos aqui em casa. Não muito grande, ficava no chão
do corredor de entrada. Bastante discreta, na cor natural, resistente ao tempo
e a uma ou outra pisada, parecia disposta a seguir pela eternidade, até que
resolvemos adotar Rihana, uma cadela sem lenço e sem documento. O vira-latas
tem uma maneira diferente de demonstrar gratidão. Em troca de casa, comida e
carinho, suja a casa inteira e destrói aquilo que lhe parece inútil, como as
recordações de viagens. Com uma semana em sua nova casa, ou melhor, em sua
primeira casa, já que antes morava na rua, resolveu que a oncinha ficaria
melhor sem as orelhas e a cauda. Hoje, temos uma pequena escultura de arte
abstrata onde antes havia um felino.
As
crianças são mais seletivas, e conhecendo-as é fácil perceber suas intenções.
Guardava uma miniatura do carro do 007 com cuidado relativo. Ao contrário do
protótipo usado nos filmes, esta miniatura não corria o risco de encontrar os
capangas de Goldfinger ou do Dr. No. Ficava segura, longe do alcance de um
filhote de cachorro, mas acessível a um filhote de gente. E foi assim que meu
neto decidiu que o carro não deveria mais ter pneus. Bastou nascerem seus
primeiros dentes para afiá-los na borracha das rodas. Ao contrário da oncinha, o
carro foi para lixo. Sucata não tem
glamour nenhum.
Mas
nada se compara ao requinte da faxineira, a começar pela capacidade de
dissimulação. Enquanto crianças e cachorros destroem abertamente, a faxineira,
quando não consegue disfarçar o dano, esconde o próprio objeto. Jogar fora, não
joga, pois, na hora do aperto, é preferível apresentar o estrago do que passar
a impressão de que tenha feito algo mais grave.
Certa
vez cismei de colecionar miniaturas de aviões da segunda guerra, mesmo não
tendo ímpeto belicista. Era uma coisa linda de se ver. Junkers, Thunderbolts,
Mustangs e Spitfires conviviam em estante tão alta que se julgavam a salvo de
qualquer bateria anti-aérea. Não contavam, porém, com o poder destrutivo de um
espanador em mãos pouco cuidadosas. Embora imperceptível, notei que faltava
hélices em quase todos. Quando perguntei
o que havia acontecido, a simpática criatura, como o são quase todas as
faxineiras, abriu um sorriso e disse que caíram quando passou o espanador.
Perguntei, então, onde estavam e ela me respondeu que varreu e jogou fora, pois
estavam no chão. Diante dessa lógica de considerar que tudo que está no chão é
lixo, passei a ter o estranho hábito de dormir com os chinelos debaixo do
travesseiro e hoje desconfio porque passei tanto tempo comprando novos pares.
Se há
algum prazer em colecionar miniaturas, creio que é somente pelo gosto de ter ao
alcance das mãos algo que não conseguiria em tamanho natural. Já me disseram,
ou li não sei aonde, que pode ser o desejo oculto de dominação. Não acredito
nisso, se assim fosse, as meninas seriam dominadoras infernais, depois de
passar anos brincando com bonecas.
Pensei
em buscar a resposta na terapia. Afinal, para que serve a terapia, se não for
para esclarecer? O problema é que raramente me lembro de falar na sessão aquilo
que pretendo. Passei a escrever os assuntos no bloco de notas do celular.
Enquanto tentava, aflito, encontrar o tema que seria tratado, observei que a
terapeuta, enquanto pacientemente me aguardava, organizava com meticulosidade
impressionante a coleção de corujinhas de vidro. Desisti e passei a falar da
minha mãe, que não acredita em terapia e me trouxe ao mundo no dia do seu
aniversário. Mãe é assunto que terapeuta conhece bem.
Rio, junho de 2020
Terceiro lugar etapa estadual TALENTOS FENAE 2020
domingo, 20 de setembro de 2020
Tempo
De uns tempos para cá tenho a companhia de um ser de luz que não sai de perto, como se sua existência tivesse sentido a partir do momento em que abro os olhos. Rihanna é uma cadela preta e brilhante, com porte de adulta e cabeça de criança. Não me chateia, não me dá o desprazer de passar a língua quente e úmida em minhas mãos. Quando muito, encosta seu focinho gelado e provoca uma lembrança sem graça, dos tempos de molecagem, quando os amigos encostavam latas de cerveja gelada nas costas de quem estivesse distraído. Tempo é lembrança.
Com a primeira caneca de café ainda cheia, toca o canto das sete horas. Agora é o sabiá verdadeiro, como se os demais fossem falsos. Há um outro sabiá, das nove horas, que se chama sabiá-laranjeira. Agora começo a entender porque o oposto de verdadeiro é laranja. Mesmo me orientando pelos cantos dos pássaros e mesmo com o relógio do celular, ainda sinto falta de um relógio na parede da sala. Não tenho pressa e, como é cedo, terei tempo para fazer muita coisa durante o dia, mas gostaria de ter a companhia de um relógio bem tradicional, com mostrador branco e ponteiros pretos, com seu ponteiro de segundos girando em busca de mais um minuto, que por sua vez buscará mais uma hora. Tempo é clássico.
Aprendi a ler as horas, ou ver as horas, sei lá, na escola. A professora, que naquele tempo a gente não chamava de tia, desenhou um relógio no quadro, só com os ponteiros de horas e minutos. Acho que o ponteiro de segundos viria em séries mais adiantadas, ou o mundo se encarregaria de nos ensinar. Então ela começou a explicação dizendo dos movimentos do ponteiro de minutos, que andava mais depressa do que o das horas. Nunca me esqueci do exemplo utilizado: o ponteiro das horas seria uma lambreta e o dos minutos um avião. Para quem não conhece, lambreta é um veículo de duas rodas da marca italiana Lambretta. Por muito tempo, o nome lambreta serviu para qualquer marca, com exceção da Vespa, que era outra marca de uma motoneta mais bunduda. Sempre achei desproporcional a comparação entre o avião e a lambreta, mas foi assim que aprendi. Tempo é aprendizado.
Saber ver as horas e não ter relógio era o mesmo que saber ler e não ter livros ou revistas. Se era para não ter relógio, não precisava aprender a ver as horas, já que ia perguntar para quem tinha. Anos depois, entendi que não era bem assim. Uma vez, na rodoviária, perguntei as horas ao motorista que estava do lado de fora do ônibus. O sujeito fez uma cara horrorosa e apontou para o relógio pendurado no teto. Se não tivesse passado pela aula da lambreta e do avião, talvez perdesse o ônibus. Tempo é viagem.
Ganhei meu primeiro relógio, de uma marca que nunca havia ouvido falar – Lanco, mas também nunca tinha ouvido falar de marca nenhuma. Criança não se interessa por essas coisas. Basta o relógio e pronto. Me achei homem feito com o relógio, até que um dia o perdi, sem ter a mínima noção de como isso foi acontecer. A pulseira deve ter arrebentado, porque não tirava ele do braço. Acho que foi minha primeira perda. Depois vieram os cachorros atropelados, passarinhos que morreram sem motivo aparente, avós, pai, filha, enfim, todas aquelas coisas preciosas que a vida nos dá e depois tira. Tempo é saudade.






