sábado, 2 de janeiro de 2021

Brexit 1

Mesmo quatro anos após o referendo popular, o reino unido deixa a União Europeia com jeito de quem faz as coisas atabalhoadamente. O título Brexit 1 não significa que possa haver outras retiradas, mas a possibilidade de que o tema volte a ser tratado, dadas as inúmeras e inesperadas consequências de um divórcio após quase meio século de convivência relativamente fria, como costumam ser as relações com os ingleses. O máximo que pode acontecer se não escrever mais sobre este assunto é que o título ficará um pouco estranho, esperando continuação. Talvez tenha sido excesso de zelo para não parecer o Clube da Esquina, que não avisou nada e depois surgiu o Clube da Esquina 2. As capitanias dos portos também não batizam barcos com o número 1. Se surgir um xará, eles batizam com o número II, em algarismos romanos. Deve ser coisa do império romano.

Não sei como um povo tão sistemático deixa para a última hora a aprovação de documento que traça as relações entre o reino unido e o resto da Europa, que é como os ingleses devem se referir aos países localizados na área continental. A definição de ilha para a Inglaterra deve ser um pedaço de terra cercado de gente inferior por todos os lados.

Mesmo com tanta demora, o tal documento deixa muito a desejar. Mil e duzentas páginas com aquele jeitão de estatuto de clube de golfe, com muita retórica e pouca objetividade. Pela gravata de peixinhos exibida por Boris Johnson no anúncio do acordo, a impressão que fica é a de que nada mais relevante foi tratado do que o acordo de limitação de pesca pela Europa na costa inglesa, mesmo que a atividade represente 0,01% do PIB da terra do Fish and Chips.

Talvez pelo receio de que a saída do reino unido pudesse ser o início do desmantelo da União Europeia, muitos brasileiros torceram para que o Brexit não vingasse. Afinal, se entre países tão desenvolvidos a integração não funcionar, dá para ter uma ideia do que pode acontecer no MERCOSUL, que, aliás, assinou acordo de negociação iniciada há mais de vinte anos com a UE, o que não significa muita coisa, pois ainda precisa ser referendado pelos parlamentos de todos os países envolvidos, de ambos os continentes. Este é o tipo de acordo que pode fazer água por recusa de quem está levando mais vantagem. A França já sinalizou que não faz negócio com quem não preserva a natureza, Sei não, mas o recado está dado.

Voltando ao Brexit, a impressão que dá é que a votação que decidiu pela saída do reino unido da União Europeia teve aquele ingrediente que turbina as eleições recentes no Brasil. As fake News. Pouco antes da pandemia, minha mulher e eu visitamos uma amiga que reside em uma cidade pequena, próxima a Londres. Ela nos contou que recebia propagandas pró Brexit dizendo que a União Europeia estava estimulando a entrada de estrangeiros para tomar os empregos dos ingleses.

Ficou claro que as mensagens eram dirigidas às cidades do interior, onde o eleitorado é mais conservador e permeável a esse tipo de boato sem fundamento, principalmente se tiver componentes de xenofobia e de moralismo. Associar integração regional ao desemprego e à recessão foi estratégia de sucesso para os incentivadores do Brexit. O que consolidou a vitória, no entanto, foi a abstenção dos progressistas, que, por acharem tão sem propósito a saída do bloco regional, nem se preocuparam em votar, deixando o campo livre para o voto do medo.  Ali prosperou a Falácia da Falsa Causalidade, já que a integração do Reino Unido à União Europeia em nada contribuía para a extinção de postos de trabalho.

Nos chamou à atenção, entretanto, que os ingleses contrários ao Brexit valorizavam muito o desenvolvimento comportamental que a integração à União Europeia lhes proporcionou. Sempre acreditei que os ingleses eram referência em educação e bons modos, mas parece que isso é lenda, como as do Rei Arthur, do Barba Negra e de Robin Hood. A etiqueta inglesa seria denominada no Brasil como algo para inglês ver.

De fato, não se pode acreditar muito nos modos de quem matava seus próprios reis e rainhas com uma machadada no pescoço. Os machados eram feitos especialmente para esse fim (fim mesmo), o que não humaniza em nada a violência.  Jane Grey, rainha por apenas nove dias, foi decapitada na Torre de Londres, aos dezesseis anos, por ordem de sua prima. Naquele tempo as discordâncias em família não ficavam apenas nos grupos de whatsapp.

Na Inglaterra os pubs fecham cedo demais para os nossos padrões. Não só para os nossos, mas como os de todo o mundo civilizado, e mundo civilizado considero os países onde as pessoas bebem. Não dá para chamar de civilizado um lugar onde a bebida é punida com a morte. Aqui até se tentou, com as cervejas Cintra e Belco, mas houve quem resistiu e denunciou a tempo o atentado.

O que faz, então, um inglês ao ser despachado do bar por volta de sete da noite, horário em que o resto do mundo começa a beber? Para não perder tempo, o londrino sai do trabalho mais cedo e vai, sem banho mesmo, para o pub mais próximo. A cerveja é boa e a música melhor ainda, mas tudo tem que ser muito rápido, até a azaração. Não dá para escolher pelo cheiro, porque ninguém passou em casa para dar um trato nas intimidades.

O Fish and Chips era servido em folha de jornal. Algum tempo depois, passou a ser em guardanapo estampado em imitação de jornal para as pessoas não sentirem a diferença. Penso que com o Brexit devem voltar a comer peixe com gosto de classificados ou de notícias de futebol.

Não sei o que vai acontecer daqui para a frente, e acho que nem eles têm certeza, mas a Escócia já pediu que mantenham uma estrela acesa porque em breve estará de volta. Talvez o Brexit não tenha o poder de desmoronar a integração europeia, mas o próprio reino unido.

A Inglaterra tem mitos que a sustentam, e mitos são imortais. Keith Richards e a Rainha Elizabeth II são a prova disso. Enquanto houver cigarros e chá, a estabilidade está garantida.

 

Rio de Janeiro/RJ, 02 de janeiro de 2021

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

2021

Desde que assisti ao filme sobre a vida da Rainha Elizabeth II (A Rainha) cismei que um dia começaria a escrever meu diário. Afinal, tudo que possa ser relacionado à longevidade da soberana, que não seja nenhuma receita intragável ou feita com ingredientes nojentos, pode e deve ser copiado. Deduzi, então, que o hábito de escrever o diário tinha forte e determinante impacto positivo na saúde de sua majestade.

Acho até que não é o diário propriamente dito, mas a disciplina que o hábito requer, principalmente para quem não pode se dar ao luxo de, como a rainha, abrir mão de parte de seu tempo, totalmente dedicado ao ócio, para atividade que também pode ser considerada ociosa.

Quando me rendi aos fatos e percebi que a pandemia do coronavírus era mais séria do que se pensava, me trancafiei em casa e, por meses, não botei o pé na rua. Cuidava de lavar tudo que chegava, de frutas a garrafas de vinho, estas com substancial aumento de pedidos. Correspondência era submetida a uma camada de álcool em gel e comida de delivery passava por igual tratamento. Enfim, me preparava para viver confinado, mais precisamente me preparava para viver, e isso era importante.

Lembro perfeitamente que no dia 17 de março saí mais cedo do escritório e peguei o metrô, antes do horário de pico, para dar início ao isolamento social, nome que a imprensa ou sei lá quem inventou para o toque de recolher, imposto por um vírus do qual nunca havíamos ouvido falar. E se fosse falado também não entenderíamos, porque o bicho era chinês.

Logo nos primeiros dias, pensei em fazer um diário da quarentena. Virginiano, preferi não começar até que elaborasse como faria para que ficasse perfeito. É claro que nem comecei. A cada dia que passava, tentava fixar na memória o que havia acontecido nos dias anteriores. Pensava em fazer um relato mais ao estilo dos diários de bordo dos antigos navios, onde se registrava o clima, a comida e os horários. Aliás, nem sei se os comandantes de navios faziam isso, mas se não faziam deveriam fazer, nem que fosse para matar o tempo, assim como a rainha.

Não fiz o diário, como também não fiz um monte de coisas que pensava que faria no dia em que ficasse mais tempo em casa. Sempre falei que gostaria de receber uma pena de prisão domiciliar, para ter tempo de botar a leitura em dia, escrever, organizar fotografias e álbuns de viagens, botar ordem nos arquivos, meditar, enfim, tudo aquilo que não fazia por falta de tempo e continuei a não fazer, mesmo com um pouco mais de tempo. Digo um pouco porque não parei de trabalhar, só que agora sem o conforto e o recolhimento do meu escritório e sendo interrompido por duas cadelas que ainda não se acostumaram com a presença integral de seu humano, antes restrito às noites e aos fins de semana.

Se tivesse feito o diário, também registraria os livros que li, muitos, mas menos do que gostaria, e as lives que assisti, poucas, mas bem mais do que precisava. Chega um momento em que a as lives passam a ser repetitivas e os assuntos refletem a incerteza que o mundo passa diante de uma doença desconhecida. Exceção se faz às lives de Caetano Veloso, que nos presenteou no dia de seu aniversário, em agosto, cantando com seus filhos, e despertou a vontade de assistir a próxima, de Natal. Não dá para dizer qual a melhor. Na dúvida, assisto ambas, diversas vezes, sem enjoar.

Comecei a seguir alguns influenciadores (influencers)  e canais de Youtube, com destaque para Henry Bugalho e Aviões & Músicas. Maratonei séries curtas, como “The Crown” (olha a rainha de novo), “Nada Ortodoxa” e “Emily em Paris”. Vi filmes atuais e antigos e comecei a assistir filmes em espanhol, sem legenda, para reforçar as aulas semanais.

Interrompi o projeto de dissertação de mestrado, pois as aulas são presenciais em Montevidéu e o governo uruguaio não quer saber de brasileiros tão cedo por lá, até que as coisas tomem jeito aqui no Brasil. E esse jeito, se acontecer, será só em 2022.

Mudei de casa e de bairro. Não vejo pessoas queridas, para o bem de todos, e não tenho vergonha de dizer que acredito na ciência, mesmo com o iluminismo tão em baixa e rechaçado pelos negacionistas. Nas redes sociais não chego a me decepcionar com algumas pessoas, mas confesso que não sabia que chegariam a tanto. As fronteiras da vergonha foram definitivamente rompidas, quando se descobriu que muitos pensam (se é que isso é pensar) da mesma forma.

Chegamos ao primeiro dia de 2021 e penso que agora é o momento certo de iniciar o postergado diário. Já parei de fumar há anos, estou fazendo dieta, leio todos os dias e pretendo continuar bebendo vinho, além de uma ou outra contravenção aceitável, ou seja, não deixei margem para promessas de ano novo, por isso pensei no diário.

Meu blog clama por novas crônicas e contos e receio que o diário roube o tempo necessário para dar continuidade à pretensão de me apresentar como alguém que escreve crônicas e contos. Cara de pau tem limite.

Não farei diário. Ao invés disso, escreverei crônicas diárias, o que talvez contemple as duas coisas. 2021 mal acaba de ser inaugurado e já começo a fazer o que levaria meses até a desistência final. O ano passado nos ensinou que as coisas acontecem, mesmo contra nossa vontade. O mundo mudou muito rapidamente. Hoje se fala no novo normal. Pode-se arrumar qualquer desculpa para não escrever, menos por falta de assunto.

Sendo assim, até amanhã.

 

Rio de Janeiro/RJ, 01 de janeiro de 2021

sábado, 19 de dezembro de 2020

Souvenir

Li um artigo da escritora argentina Mori Ponsowy sobre a visita feita ao filho que estudava no Japão. Me chamou à atenção quando ela descreveu que viu algo muito bonito, não me lembro o que era, e só não comprou porque há algum tempo decidira que não mais compraria coisas que não precisasse, ou seja, que não fossem essenciais.

Sempre me lembro da Mori, quando viajo e vejo algum souvenir que me parece irresistível. Se além de interessante, for barato e não ocupar espaço na mochila, aí mesmo é que fico com muita vontade de comprar. Dizem que vontade é coisa que dá e passa, mas comigo não funciona. Já até ponderei que com o tempo aquilo vai estragar, ficar empoeirado e, por pena de jogar fora, vou manter aquela feiura à vista de todos, porque geralmente a gente bota esses badulaques na estante.

Decidido, viro as costas e saio orgulhoso de minha determinação, que, no entanto, só dura até eu constatar que aquilo não tem em nenhum outro lugar. Aí começo a pensar que não sou determinado, mas cabeçudo e inflexível. Afinal, o que custa levar uma lembrancinha para manter a viagem viva por mais tempo. Só de chamar de lembrancinha dá para perceber que estou me enganando. Usar o diminutivo é uma forma de aliviar a consciência. Tomar um chopinho, beber uma tacinha de vinho é sinônimo de encher a cara.  Chamar de bonitinha a namorada de um amigo é artifício para não perder a amizade, porque se fosse bonita mesmo não precisava falar assim.

Assumindo o arrependimento, penso em voltar à loja onde vi o souvenir, que é o nome que se dá ao que não tem utilidade, mas viagem é coisa cara e não dá para perder tempo indo e voltando. O negócio é torcer para encontrar em outro lugar. Aí já não presto atenção em mais nada, a não ser nas vitrines das lojas para turistas, correndo o risco de achar ainda mais bobagens para levar. Por sorte, a China produz mais do que a humanidade precisa e logo aquilo que desprezei há algumas quadras está novamente diante de mim. Em um misto de remorso e vontade de jogar dinheiro fora pago, quase sempre, bem mais do que o preço que vi lá atrás. Tenho a impressão que sempre caminho na direção dos lugares mais caros. Da próxima vez vou experimentar inverter o trajeto para ver se economizo.

Ao arrumar a bagagem para voltar, o que sempre deixo para última hora, cuido para que nada fique para trás. Digo nada porque me assusto com a quantidade de bobagens que comprei. Somando com os flyers, tíquetes de metrô, ingressos de museus, guardanapos de restaurantes (não usados) e mapas, chego perto de pagar excesso de bagagem, mas venho feliz.

Já de volta, a rotina me espera com a mesma fúria da mulher do boêmio. Sem me dar tempo para respirar, retorno ligações, abro correspondências que se acumularam e as divido entre inúteis e cobranças. Espero um dia receber alguma que traga boas notícias. Não precisa nem ser uma herança, porque aí teria que vir atrelada a uma morte, mas pode ser o prêmio de uma rifa, por exemplo. Um querido amigo todos os anos promove a rifa de um fusca para ajudar a igreja que frequenta, em Lençóis Paulistas. Para diminuir a frustração de quem não ganha, há prêmios secundários. Ainda não levei o carro, mas tenho jogos de toalhas suficientes para enxugar um elefante.

Aos poucos ajeito as recordações em prateleiras, escrivaninhas, mesas de cabeceira e onde mais conseguir lugar. Há uma certa ordem, não necessariamente pela origem, mas pelo tipo. Torres e castelos convivem com casinhas e casebres. Esculturas que busquem se entender, ainda que o Manequinho de Bruxelas ameace fazer xixi na Estátua da Liberdade, sob o olhar de sonso do pelado Davi de Michelangelo. Às vezes erro na escala e um gato pescador da Colômbia parece que vai engolir uma lhama do Chile.  Li em um desses artigos que tratam de organização que o ideal é criar um espaço para as lembranças de viagens, ao invés de os manter espalhados pela casa. A ideia é que se juntarmos tudo o que é cafona em um mesmo lugar, aquilo deixa de ser cafona e passa a ser outra coisa, que não me lembro o nome que deram, acho que foi kitsch. Não sei se existe coletivo de cafonas. Até foguete tem substantivo coletivo, girândola, mas papa e cafona não tem. De papa até tinha justificativa, porque só existia um, mas agora nem isso.

Com o tempo começo a ter vergonha dos enfeites de viagens, principalmente quando eles são comentados. Há tempos, um amigo que sempre nos visitava dizia para todo mundo que minha casa era um lugar muito pitoresco. Ele falava que tínhamos um monte de coisinhas em todos os cantos e que era uma coisa muito linda. A última vez que esteve aqui em casa, minha cunhada bebeu demais e tascou um beijo nele, achando que era o marido. De tão sem graça ele desapareceu. Ela não, porque estava hospedada aqui e não tinha para onde ir. Talvez depois disso ele ache aqui ainda mais pitoresco.

Para manter o equilíbrio do ecossistema, existem os predadores. Em casa não poderia ser diferente, senão estaríamos mergulhados em um mar de quinquilharias. Aquelas lembrancinhas de viagens tomariam nosso lugar na terra se não fossem seus exterminadores naturais. Na ordem crescente de destruição estão os animais domésticos, as crianças e a faxineira.

Tive uma oncinha de madeira por anos aqui em casa. Não muito grande, ficava no chão do corredor de entrada. Bastante discreta, na cor natural, resistente ao tempo e a uma ou outra pisada, parecia disposta a seguir pela eternidade, até que resolvemos adotar Rihana, uma cadela sem lenço e sem documento. O vira-latas tem uma maneira diferente de demonstrar gratidão. Em troca de casa, comida e carinho, suja a casa inteira e destrói aquilo que lhe parece inútil, como as recordações de viagens. Com uma semana em sua nova casa, ou melhor, em sua primeira casa, já que antes morava na rua, resolveu que a oncinha ficaria melhor sem as orelhas e a cauda. Hoje, temos uma pequena escultura de arte abstrata onde antes havia um felino.

As crianças são mais seletivas, e conhecendo-as é fácil perceber suas intenções. Guardava uma miniatura do carro do 007 com cuidado relativo. Ao contrário do protótipo usado nos filmes, esta miniatura não corria o risco de encontrar os capangas de Goldfinger ou do Dr. No. Ficava segura, longe do alcance de um filhote de cachorro, mas acessível a um filhote de gente. E foi assim que meu neto decidiu que o carro não deveria mais ter pneus. Bastou nascerem seus primeiros dentes para afiá-los na borracha das rodas. Ao contrário da oncinha, o carro foi para  lixo. Sucata não tem glamour nenhum.

Mas nada se compara ao requinte da faxineira, a começar pela capacidade de dissimulação. Enquanto crianças e cachorros destroem abertamente, a faxineira, quando não consegue disfarçar o dano, esconde o próprio objeto. Jogar fora, não joga, pois, na hora do aperto, é preferível apresentar o estrago do que passar a impressão de que tenha feito algo mais grave.

Certa vez cismei de colecionar miniaturas de aviões da segunda guerra, mesmo não tendo ímpeto belicista. Era uma coisa linda de se ver. Junkers, Thunderbolts, Mustangs e Spitfires conviviam em estante tão alta que se julgavam a salvo de qualquer bateria anti-aérea. Não contavam, porém, com o poder destrutivo de um espanador em mãos pouco cuidadosas. Embora imperceptível, notei que faltava hélices em quase todos.  Quando perguntei o que havia acontecido, a simpática criatura, como o são quase todas as faxineiras, abriu um sorriso e disse que caíram quando passou o espanador. Perguntei, então, onde estavam e ela me respondeu que varreu e jogou fora, pois estavam no chão. Diante dessa lógica de considerar que tudo que está no chão é lixo, passei a ter o estranho hábito de dormir com os chinelos debaixo do travesseiro e hoje desconfio porque passei tanto tempo comprando novos pares.

Se há algum prazer em colecionar miniaturas, creio que é somente pelo gosto de ter ao alcance das mãos algo que não conseguiria em tamanho natural. Já me disseram, ou li não sei aonde, que pode ser o desejo oculto de dominação. Não acredito nisso, se assim fosse, as meninas seriam dominadoras infernais, depois de passar anos brincando com bonecas.

Pensei em buscar a resposta na terapia. Afinal, para que serve a terapia, se não for para esclarecer? O problema é que raramente me lembro de falar na sessão aquilo que pretendo. Passei a escrever os assuntos no bloco de notas do celular. Enquanto tentava, aflito, encontrar o tema que seria tratado, observei que a terapeuta, enquanto pacientemente me aguardava, organizava com meticulosidade impressionante a coleção de corujinhas de vidro. Desisti e passei a falar da minha mãe, que não acredita em terapia e me trouxe ao mundo no dia do seu aniversário. Mãe é assunto que terapeuta conhece bem. 

 

Rio, junho de 2020

Terceiro lugar etapa estadual TALENTOS FENAE 2020







domingo, 20 de setembro de 2020

Tempo


Não tenho levado relógio para a mesa de cabeceira. Quero me dar ao direito de acordar quando quiser, seguindo  a vontade do corpo e a avidez da alma. Retomo o hábito de me levantar cedo e só sei da hora porque o relógio da cozinha, presente que muito admirei e ainda me encanta, tem um canto de pássaro a cada hora cheia. Às seis, canta a seriema, e ela é mesmo bicho da manhã. Em Visconde de Mauá, ou melhor, no distrito de Maringá, fiquei em uma pousada e ouvia a seriema, com seu canto esquisito, tão logo o sol trazia seus primeiros rasgos de luz. Então, quando ouço o relógio, quase sempre já estou acordado, naquele meio termo de não saber se continuo na cama ou encaro de uma vez a beleza das manhãs. E todas são belas. Tempo é bonito.

De uns tempos para cá tenho a companhia de um ser de luz que não sai de perto, como se sua existência tivesse sentido a partir do momento em que abro os olhos. Rihanna é uma cadela preta e brilhante, com porte de adulta e cabeça de criança. Não me chateia, não me dá o desprazer de passar a língua quente e úmida  em minhas mãos. Quando muito, encosta seu focinho gelado e provoca uma lembrança sem graça, dos tempos de molecagem, quando os amigos encostavam latas de cerveja gelada nas costas de quem estivesse distraído. Tempo é lembrança.

Com a primeira caneca de café ainda cheia, toca o canto das sete horas. Agora é o sabiá verdadeiro, como se os demais fossem falsos. Há um outro sabiá, das nove horas, que se chama sabiá-laranjeira. Agora começo a entender porque o oposto de verdadeiro é laranja. Mesmo me orientando pelos cantos dos pássaros e mesmo com o relógio do celular, ainda sinto falta de um relógio na parede da sala. Não tenho pressa e, como é cedo, terei tempo para fazer muita coisa durante o dia, mas gostaria de ter a companhia de um relógio bem tradicional, com mostrador branco e ponteiros pretos, com seu ponteiro de segundos girando em busca de mais um minuto, que por sua vez buscará mais uma hora. Tempo é clássico.

Aprendi a ler as horas, ou ver as horas, sei lá, na escola. A professora, que naquele tempo a gente não chamava de tia, desenhou um relógio no quadro, só com os ponteiros de horas e minutos. Acho que o ponteiro de segundos viria em séries mais adiantadas, ou o mundo se encarregaria de nos ensinar. Então ela começou a explicação dizendo dos movimentos do ponteiro de minutos, que andava mais depressa do que o das horas. Nunca me esqueci do exemplo utilizado: o ponteiro das horas seria uma lambreta e o dos minutos um avião. Para quem não conhece, lambreta é um veículo de duas rodas da marca italiana Lambretta. Por muito tempo, o nome lambreta serviu para qualquer marca, com exceção da Vespa, que era outra marca de uma motoneta mais bunduda. Sempre achei desproporcional a comparação entre o avião e a lambreta, mas foi assim que aprendi. Tempo é aprendizado.

Saber ver as horas e não ter relógio era o mesmo que saber ler e não ter livros ou revistas. Se era para não ter relógio, não precisava aprender a ver as horas, já que ia perguntar para quem tinha. Anos depois, entendi que não era bem assim. Uma vez, na rodoviária, perguntei as horas ao motorista que estava do lado de fora do ônibus. O sujeito fez uma cara horrorosa e apontou para o relógio pendurado no teto. Se não tivesse passado pela aula da lambreta e do avião, talvez perdesse o ônibus. Tempo é viagem.

Ganhei meu primeiro relógio, de uma marca que nunca havia ouvido falar – Lanco, mas também nunca tinha ouvido falar de marca nenhuma. Criança não se interessa por essas coisas. Basta o relógio e pronto. Me achei homem feito com o relógio, até que um dia o perdi, sem ter a mínima noção de como isso foi acontecer. A pulseira deve ter arrebentado, porque não tirava ele do braço. Acho que foi minha primeira perda. Depois vieram os cachorros atropelados, passarinhos que morreram sem motivo aparente, avós, pai, filha, enfim, todas aquelas coisas preciosas que a vida nos dá e depois tira. Tempo é saudade.

Rio. 01 de setembro de 2020

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Passado


Recebo uma mensagem no whatsapp convidando para participar do encontro de ex-alunos de um colégio que estudei há anos, muitos anos. Não me lembrava do ex-colega que tão gentilmente me convidou e percebi que isso o deixou um pouco chateado, afinal ele se lembrava de mim, senão nem me convidaria.

É claro que se houvesse foto em seu perfil talvez ficasse mais fácil, mas ele me disse apenas seu primeiro nome, bastante comum por sinal. Na minha vida escolar devo ter esbarrado com pelo menos duas centenas deles.

Não foi por não o reconhecer que declinei do convite, mas pelo evento mesmo. Esses encontros de pessoas que não se veem há anos são naturalmente desinteressantes, a não ser se encarados do ponto de vista arqueológico. Além da sensação de tentar descobrir quem se esconde por detrás daquelas rugas, pouca diversão é reservada aos participantes.

Gostosonas que sequer nos olhavam na adolescência, já que de nós nada podiam esperar, agora se insinuam entaladas em apertadas calças com numeração defasada. Decerto querem saber se a atração permanece viva. Não é hora de desforra e fazemos que sim, não estamos em condições de fazer escolhas.

O passado aumenta como bolo no forno. Lembro da casa onde vivi por muitos anos e em minha memória a cada dia parecia que era maior. Se não tivesse visto uma foto recente, ia acabar dizendo que morei em uma fazenda. As histórias do passado também ficam maiores à medida em que são contadas, o que as torna cada vez mais distante da verdade.

Fosse apenas isso, não seria de todo ruim, bastava aplicar um redutor, mas há o mentiroso também.  Como não estávamos lá para conferir, a pessoa inventa um feito notável que, estranhamente, não deixou uma marca sequer. Muitas vezes as testemunhas citadas não estão mais por aqui e evocar os mortos costuma dar certa credibilidade, talvez por respeito.

E quando o mentiroso conta com nossa falta de memória e nos inclui em suas histórias inventadas? Esse é o pior de todos, porque você tem certeza de que não aconteceu nada daquilo que ele está contando e ainda tem que ficar respondendo a mesma pergunta – você não se lembra? Ah, não é possível! Você jura que não se lembra? Ele não apenas te pede para confirmar, mas põe em dúvida sua lucidez na frente dos outros. Para não parecer que estamos caducando, acabamos por concordar.

O Guedes era um amigo que já nos deixou, mas nem por isso vou contar mentira o incluindo na história. Gozador como ele só, olhava de soslaio para nós quando alguém vinha contar que foi alguma coisa ou que teve alguma coisa de muita importância. “Foi” ou “teve” eram verbos que o Guedes dizia não servirem para nada.  Verbos usados no tempo passado demonstram que não existem mais no presente. Quem é ou tem não diz que foi ou que teve.

Como a vida não é feita apenas de momentos alegres, as desgraças também são lembradas, com dramatização digna de prêmio Molière.  Os mortos são citados com qualidades que nunca mostraram em vida, pelo menos não na intensidade que agora são contadas. E parece que antes de partir se encontraram escondidos com várias pessoas, sem que umas soubessem das outras. O narrador sempre salienta que foi o último a estar com o finado, como se isso o fizesse alguém especial.  Parece que o objetivo de quem participa desses encontros é o de se mostrar especial.  

Como não dou muito valor a glórias do passado, principalmente as inventadas, e também não gosto de saber de desgraças acontecidas, me tornei alguém que jamais deveria ser convidado para esses encontros.

Mesmo não indo, me adicionaram no grupo de whatsapp e vi que fiz bem em não ter dado as caras por lá. Não reconheceria nenhum deles. Cheguei até a pensar que estava em grupo errado ou trocaram as fotos. Envelhecer todo mundo envelhece, mas ali parece que morreram e continuaram a se encontrar, talvez até mesmo no cemitério, pois o cenário era escuro e as mesas de cimento pareciam túmulos.

Se não estavam mortos, brevemente estarão, a julgar pelas cervejas que bebiam e pelos nacos de carne engordurada que exibiam. Em tempos de cervejas artesanais, que não necessariamente são maravilhosas, é inadmissível exibir garrafas de um litro de marcas populares e mais apropriadas a uma roda de samba, onde as pessoas devem ter fígado de lata. Sambista não é como atleta, que morre aos sessenta anos.  Monarco, ídolo da Portela, que já passou há tempos dos oitenta, todo ano comemora seu aniversário com uma semana de festa, e com certeza sem falar do passado.

Outra coisa que me  intriga é como os encontros do passado nivelam as idades, que em dado momento parece que são as mesmas. Na adolescência é impensável uma pessoa de treze anos ter algo em comum com uma de dezenove. Pertenciam a turmas diferentes. Muitos anos depois, entretanto, confraternizam como  se tivessem compartilhado de todos os momentos. Penso que isso acontece quando o tempo começa a ser contado de forma decrescente. Agora é certo de que irão para o mesmo caminho, e isso os faz parceiros.

Rio, junho de 2020



terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Consulta


Bom dia, tenho uma consulta marcada para dez e meia. Pensei que ia me atrasar, mas ainda faltam cinco minutos.
Pois não, o doutor também se atrasou um pouco e o paciente das dez acabou de entrar. O senhor é o próximo. Para não perdermos mais tempo, me dê a carteirinha do plano de saúde e a identidade. Preencha também esta ficha com seus dados.
Mas, como assim? Como é esse “o doutor também se atrasou”, se eu não me atrasei. O certo é dizer que o doutor se atrasou, sem o também.
Está bem, senhor. O doutor se atrasou. Agora podemos fazer sua ficha de consulta?
Pronto, aqui está. Será que ainda vai demorar para eu ser atendido?
Creio que mais uns quinze ou vinte minutos. Se quiser, tem água e café naquela bandeja. Posso mudar o canal da TV, se o senhor quiser.
Vou fumar um cigarro ali fora. Se ele terminar antes de eu voltar e a senhora puder fazer o favor de me avisar, agradeço.
Bom dia, doutor, disse apertando a mão do médico enquanto entrava no consultório.
Bom dia para o senhor também. Estranhei quando a atendente falou que estava fumando. Não é comum para alguém que esteja reclamando de dificuldade de respiração.
Na verdade, não estava fumando. Estava me masturbando.
Oras, oras. Exclama o médico com seu linguajar de gente mais velha. Se masturbando no corredor de um edifício comercial. O senhor está com algum problema?
Sim, há alguns dias sinto um pouco de dor ao respirar, e como respiro o tempo todo, posso dizer que sinto um pouco de dor o dia inteiro.
Não é a isso que me refiro. Perguntei se está com algum problema porque o senhor foi se masturbar antes da consulta.
Mas, doutor, e para masturbar tem hora certa?
É porque o senhor falou para a atendente que ia fumar e...
Se o senhor, que é homem maduro, ficou tão chocado, imagine se eu dissesse a ela que ia me masturbar? Provavelmente ia achar que era um tipo grosseiro de cantada, o que não era, até porque não achei nada de interessante nela, e, para falar a verdade, só reparei que tem o rosto cheio de espinhas, o que para uma mulher daquela idade não pode mais ser coisa de adolescente. Quem sabe ela também...
Já imaginando que tipo de bobagem ia sair dali o médico interrompeu, enquanto passava álcool nas mãos e pegava o estetoscópio.
Doutor, esse estetoscópio é tão sujo assim? Não tem algum descartável? Hoje em dia tudo é descartável.
Que bobagem é essa, meu filho? Por que o senhor acha que o estetoscópio está contaminado?
É porque o senhor passou álcool nas mãos antes de pegá-lo.
Não me leve a mal, mas passei álcool porque lhe cumprimentei logo após o senhor se masturbar.
Mas eu limpei as mãos.
Me desculpe, mas o senhor me cumprimentou assim que entrou no consultório, sem passar pelo banheiro.
E para limpar as mãos precisa ser necessariamente no banheiro? Trago sempre comigo lenços umedecidos, pois transpiro muito e esta cidade é um forno.
Não vi o senhor com nenhum lenço nas mãos e nem jogando nada no cesto de papéis da recepção.
Joguei dentro da caixa de incêndio no corredor. Aquela com porta de vidro e com uma mangueira enrolada. Se o senhor reparar, o vidro tem uma aberturinha nos cantos e por ali costumo jogar o lenço usado.
Como assim, “costumo jogar o lenço usado”? O senhor costuma se masturbar nos corredores?
Se o senhor prestasse mais atenção, ia se lembrar que falei que transpiro demais, e quando tiro o suor do rosto preciso jogar o lenço usado em algum lugar.
Tá bom, tá bom, já entendi. Mas, me diga, porque o senhor resolveu se masturbar logo agora, mesmo que não tenha hora certa para isso?
Quando a moça falou que a consulta ia atrasar, fiquei um pouco ansioso. E quando fico ansioso, a melhor maneira de relaxar é me masturbando. Doutor, não sou maníaco sexual, se é que o senhor possa estar pensando isso. Não se preocupe. Me acho mais normal do que quem lança mão de remédios para se acalmar. Pelo menos uso um método natural.
Mas quando o senhor demonstra intimidade com as caixas de incêndio dos prédios, como sendo o lugar ideal para guardar os lencinhos usados, pensei se é mesmo só para quando limpa o suor.
O senhor acertou. Sempre que deixam esperando, fico ansioso e tenho que me aliviar. Aqui na avenida tem uma representação da marca do meu relógio e é o único lugar onde posso trocar a pulseira ou a bateria. Chego lá, pego uma senha e não tenho a menor noção de quando vou ser chamado. Como a porta fica aberta, dá para ver do corredor quando está chegando minha vez. Já precisei repetir a dose algumas vezes.
O doutor é mesmo sagaz. Isso é bom para um médico. A chance de descobrir logo o que o paciente tem é bem maior. Às vezes o senhor pode não ser bem compreendido, principalmente por pacientes de plano de saúde, que vão achar que a consulta foi rápida porque os honorários do convênio devem ser baixos.
Realmente, às vezes me pergunto por que atendo convênios. O que recebo é uma ninharia perto de uma consulta particular. Talvez seja uma forma de me manter atualizado e descobrir novos tratamentos.
Se estou entendendo, nós os pacientes de convênio somos uma espécie de cobaia?
De onde tirou essa ideia, meu filho? Estou dizendo que a maior quantidade de pacientes me faz ver sintomas diversos e reações individualizadas aos medicamentos. Ao invés de cobaia, como o senhor insinuou, o paciente de convênio acaba sendo um felizardo. O seu caso, por exemplo, é digno de exame mais acurado. Não pelo pulmão, mas pela forma como o senhor cuida da sua ansiedade.
Mas não vim aqui tratar de ansiedade. Vim tratar de problemas respiratórios.
Sei disso, mas quem falou que o paciente pode ser tratado por partes? As pessoas não são como carros, que podem ter suas peças consertadas sem afetar as demais. Se o senhor se queixa de dor para respirar e se masturba para se acalmar, alguma ligação deve ter. Ou quando se masturba para de respirar ou então quando não respira se masturba. Temos que examinar isso.
Doutor, não é nada pessoal, mas não vou conseguir me masturbar aqui, na sua frente. E não adianta pedir para a espinhenta me ajudar, porque talvez seja pior.
Não seja estúpido, criatura. Não ia lhe pedir isso, mas creio que podemos experimentar alguma medicação leve que o faça relaxar. Pela auscultação não encontrei nada de errado com seus pulmões. O senhor não fuma, não é? Isso é bom, porque geralmente os ansiosos fumam, e muito.
Se o doutor tiver pacientes assim, pode recomendar que se masturbem. O senhor não falou que a vantagem de atender convênios é observar maior variedade de sintomas e tratamentos? Quem sabe não cria um método de cura com meu nome?
Uma curiosidade: quando se masturba, nos cantos dos corredores, nas escadas de incêndio, cuidando para não ser visto, dá para pensar em algo excitante?
Se o senhor se refere a alguma mulher ou cena sexual, esteja certo que não. É só mesmo o movimento físico e a vontade de ser liberado da obrigação. É mais ou menos como o sexo no casamento.
Entendi. Creio que no seu caso a ansiedade está causando essa dor ao respirar. Vamos tentar esse fitoterápico à base de valeriana. Até o sabor é bom. O senhor volte daqui a duas semanas e nem precisa constar como consulta. Será uma revisão desta. Vamos marcar uma hora depois do último horário, para ter certeza de que não vai haver atraso e a possibilidade de uma recaída. Até porque nesse horário o segurança do prédio faz a ronda nos corredores, se é que o senhor me entende. Não há de que. Tenho certeza de que sua respiração vai melhorar muito. Até daqui a duas semanas.
Do interfone, orienta à atendente: peça para o próximo paciente aguardar meia hora e, por favor, consiga para mim uma caixa de lenços umedecidos.

Rio, dezembro de 2019